Crítica de The Last of Us S2E1 – Dias Futuros

Estreia reposiciona a história, introduz mudanças relevantes no tabuleiro da adaptação e prepara com calma o terreno para o impacto dos próximos episódios

Crítica de The Last of Us S2E1 – Dias Futuros

Ficha da crítica

8/10

Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey) retornaram no domingo (13) com a segunda temporada de The Last of Us, série baseada na franquia que se tornou um dos maiores nomes da PlayStation. Depois do enorme sucesso da primeira temporada, a expectativa agora girava em torno de uma pergunta inevitável: como a HBO, Craig Mazin e Neil Druckmann adaptariam a história de The Last of Us Part II para a televisão? A resposta ainda está só começando a tomar forma, mas uma coisa já ficou clara desde esse primeiro episódio: mudanças importantes foram feitas, e elas devem alterar a forma como até os fãs do jogo encaram o que está por vir. Não se trata de uma adaptação interessada em reproduzir tudo ao pé da letra. A série parece mais preocupada em reorganizar o material original para caber no ritmo, na linguagem e na estrutura de uma produção televisiva. E isso, pelo menos por enquanto, joga a favor dela. Vale reforçar: esta crítica não traz spoilers do jogo além do que já apareceu na série. Dias Futuros reposiciona as peças com calma O título do episódio faz referência direta a Future Days, música do Pearl Jam que tem peso importante dentro do universo de The Last of Us. Mesmo sem mergulhar ainda em tudo o que essa canção representa, a escolha já funciona como um sinal claro de que a série sabe exatamente qual terreno emocional está preparando. Esse retorno prefere trabalhar com calma. Em vez de tentar causar grande impacto logo nos primeiros minutos, o episódio se dedica a reposicionar personagens, reorganizar relações e indicar que a segunda temporada vai trilhar um caminho próprio, mesmo preservando o núcleo do jogo. É um capítulo mais lento, mais observador, mas nem por isso menos importante. Pelo contrário: ele existe justamente para deixar o tabuleiro pronto antes que as coisas comecem a desmoronar. A adaptação já muda pontos importantes do jogo Não chega a surpreender que mudanças relevantes apareçam logo de cara. A primeira temporada já havia deixado claro que a HBO não pretendia apenas transportar a história de um meio para outro sem ajustes. Aqui, isso continua. A adaptação altera a ordem de certos acontecimentos, adiciona cenas novas, amplia contextos e redistribui pesos dramáticos. E a verdade é que isso faz sentido. A experiência de jogar e a experiência de assistir pedem ritmos muito diferentes. O que funciona em um controle na mão nem sempre funciona da mesma forma no sofá, em uma narrativa mais direta e linear. A série acerta ao entender isso. Em vez de buscar fidelidade cega, ela tenta preservar o impacto emocional e a lógica interna da história. Abby surge cedo e já muda o eixo da narrativa Uma das alterações mais evidentes está na forma como a série apresenta Abby e seu grupo de ex-Vagalumes. No jogo, essa entrada acontece de outro modo. Aqui, a adaptação decide mostrar logo de início que existe uma ameaça muito concreta se aproximando. Essa antecipação já muda o tipo de tensão que a temporada constrói. Em vez de guardar tudo como surpresa, a série prefere trabalhar com a sombra do que está vindo. É uma escolha interessante porque coloca o espectador em estado de alerta desde o começo. Ainda há pouco tempo de tela para avaliar com profundidade a Abby de Kaitlyn Dever, mas a impressão inicial é menos sobre performance e mais sobre função narrativa. A personagem ainda precisa de espaço para mostrar tudo o que carrega, e esse espaço certamente virá. Por enquanto, o episódio só indica que ela está aqui por um motivo grande o suficiente para redefinir toda a temporada. A questão física de Abby não é o centro Também vale dizer algo que já gerou discussão desde o anúncio do elenco: a diferença física entre a Abby do jogo e a da série. Honestamente, isso importa muito menos do que parece em debates apressados. O que realmente vai sustentar a personagem é a atuação de Kaitlyn Dever nos momentos em que Abby precisar carregar o peso dramático da história. O físico pode até ser um traço marcante no jogo, mas aqui ele não será o fator decisivo. Jackson ganha mais vida e mais contexto Boa parte do mérito do episódio está na forma como ele faz Jackson parecer um lugar vivo. Cinco anos se passaram desde o fim da primeira temporada, e a comunidade agora aparece com mais estrutura, mais rotina e mais complexidade social. Esse é um dos aspectos em que a série mais acerta. Jackson deixa de ser apenas um refúgio seguro e passa a funcionar como uma comunidade real, com conselho, regras, tensões internas e preocupações coletivas. Há uma dimensão de sociedade tentando existir ali, mesmo no fim do mundo. Essa expansão também ajuda a dar mais peso ao que acontece entre Joel e Ellie, porque mostra que o afastamento entre os dois não acontece no vazio. Ele existe dentro de uma nova rotina, de um novo lar e de uma realidade que deveria representar alguma estabilidade. Joel mudou, e a terapia ajuda a mostrar isso Uma das adições mais interessantes do episódio é o acompanhamento de Joel em terapia com Gail, personagem vivida por Catherine O’Hara. A escolha funciona muito bem porque permite à série contextualizar melhor o que aconteceu com ele e com Ellie nesses cinco anos. Joel já não é exatamente o mesmo homem endurecido da primeira temporada. Ele parece mais aberto, mais preocupado com a própria falha emocional e mais consciente de que a relação com Ellie entrou em um ponto delicado. A terapia ajuda a explicitar isso sem precisar transformar tudo em exposição artificial. O distanciamento entre Joel e Ellie ganha mais corpo No jogo, esse afastamento existe, mas a série opta por trabalhá-lo de forma um pouco mais direta. Aqui, Joel se mostra preocupado com Ellie e com a forma como ela se afastou, enquanto ela tenta canalizar a própria angústia para outros espaços, como as patrulhas e a convivência mais próxima com Dina e Jesse. Essa camada extra ajuda porque torna o rompimento menos abstrato. A série não quer apenas informar que os dois estão distantes. Ela quer mostrar como isso aparece no comportamento, nas falas e no silêncio entre eles. Dina rouba a cena no episódio Se alguém sai deste capítulo com presença ampliada, essa pessoa é Dina. A interpretação de Isabela Merced é facilmente um dos destaques do episódio. Ela encontra o carisma que a personagem exige, transmite calor, naturalidade e presença, e ainda faz isso sem parecer forçada. Dina precisa funcionar rápido para a história ganhar tração emocional, e isso acontece. A personagem chega com energia suficiente para se destacar e para tornar o vínculo com Ellie convincente desde cedo. Também chama atenção a fidelidade com que a série apresenta Jesse, vivido por Young Mazino. Os dois personagens entram bem na dinâmica de Jackson e ajudam a dar ao episódio um senso de continuidade do mundo, não apenas de exposição de trama. Ellie ainda é outra versão da personagem Bella Ramsey continua propondo uma Ellie diferente da vista no jogo, e isso já está claro desde a primeira temporada. Neste momento específico da história, a Ellie dos games transmite uma maturidade e uma dureza mais explícitas. Na série, a personagem ainda parece carregar outro tipo de energia. Isso não precisa ser tratado como defeito. É uma adaptação, e a construção da personagem vai responder ao caminho que a série escolheu para ela. Ainda há muito espaço para que Bella Ramsey amplie esse registro ao longo da temporada. Os Perseguidores reforçam que os infectados ainda importam Outro ponto importante do episódio é a introdução mais marcante dos Perseguidores. A cena funciona bem porque devolve aos infectados uma presença de ameaça que, em alguns momentos da primeira temporada, pareceu mais contida do que poderia. O Perseguidor entra em cena com o tipo de tensão que a criatura pede: furtiva, incômoda, imprevisível. A sequência é bem construída e ajuda a lembrar que o perigo dos fungos continua existindo, mesmo em uma história que cada vez mais se concentra nos conflitos humanos. A temporada precisa manter essa ameaça viva Tomara que a série continue usando melhor os infectados nesta temporada. O primeiro episódio já mostra que eles podem aparecer de forma mais pontual, mas ainda assim muito eficiente, desde que inseridos nos momentos certos. O baile em Jackson entrega um dos melhores momentos do episódio A sequência do baile é outro grande acerto. O beijo entre Ellie e Dina, a intervenção de Seth e a reação de Joel aparecem com a força necessária e com uma proximidade bastante feliz em relação ao jogo. Joel tenta defender Ellie diante do preconceito explícito, mas ela o rejeita e deixa claro que não precisava daquela interferência. É um momento importante porque condensa bem o estado atual da relação entre os dois. Joel ainda age por impulso protetor, mas Ellie já não aceita isso da mesma forma. Essa é uma daquelas cenas que ajudam a mostrar como a série está lidando bem com momentos marcantes do material original quando decide preservá-los quase intactos. O episódio fecha com sensação de ameaça iminente Nos minutos finais, a presença de Abby próxima a Jackson e os tentáculos do Cordyceps infiltrados na tubulação da comunidade deixam claro que a temporada não vai demorar a sair dessa fase mais contemplativa e entrar em conflito aberto. A impressão final é de preparação. O episódio organiza o mundo, reposiciona personagens, reforça vínculos e tensões, e termina deixando o espectador com a sensação de que algo muito maior está prestes a acontecer.

TÓPICOS

Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey) retornaram no domingo (13) com a segunda temporada de The Last of Us, série baseada na franquia que se tornou um dos maiores nomes da PlayStation. Depois do enorme sucesso da primeira temporada, a expectativa agora girava em torno de uma pergunta inevitável: como a HBO, Craig Mazin e Neil Druckmann adaptariam a história de The Last of Us Part II para a televisão?

A resposta ainda está só começando a tomar forma, mas uma coisa já ficou clara desde esse primeiro episódio: mudanças importantes foram feitas, e elas devem alterar a forma como até os fãs do jogo encaram o que está por vir. Não se trata de uma adaptação interessada em reproduzir tudo ao pé da letra. A série parece mais preocupada em reorganizar o material original para caber no ritmo, na linguagem e na estrutura de uma produção televisiva.

E isso, pelo menos por enquanto, joga a favor dela.

Vale reforçar: esta crítica não traz spoilers do jogo além do que já apareceu na série.

Dias Futuros reposiciona as peças com calma

O título do episódio faz referência direta a Future Days, música do Pearl Jam que tem peso importante dentro do universo de The Last of Us. Mesmo sem mergulhar ainda em tudo o que essa canção representa, a escolha já funciona como um sinal claro de que a série sabe exatamente qual terreno emocional está preparando.

Esse retorno prefere trabalhar com calma. Em vez de tentar causar grande impacto logo nos primeiros minutos, o episódio se dedica a reposicionar personagens, reorganizar relações e indicar que a segunda temporada vai trilhar um caminho próprio, mesmo preservando o núcleo do jogo.

É um capítulo mais lento, mais observador, mas nem por isso menos importante. Pelo contrário: ele existe justamente para deixar o tabuleiro pronto antes que as coisas comecem a desmoronar.

A adaptação já muda pontos importantes do jogo

Não chega a surpreender que mudanças relevantes apareçam logo de cara. A primeira temporada já havia deixado claro que a HBO não pretendia apenas transportar a história de um meio para outro sem ajustes. Aqui, isso continua.

A adaptação altera a ordem de certos acontecimentos, adiciona cenas novas, amplia contextos e redistribui pesos dramáticos. E a verdade é que isso faz sentido. A experiência de jogar e a experiência de assistir pedem ritmos muito diferentes. O que funciona em um controle na mão nem sempre funciona da mesma forma no sofá, em uma narrativa mais direta e linear.

A série acerta ao entender isso. Em vez de buscar fidelidade cega, ela tenta preservar o impacto emocional e a lógica interna da história.

Abby surge cedo e já muda o eixo da narrativa

Uma das alterações mais evidentes está na forma como a série apresenta Abby e seu grupo de ex-Vagalumes. No jogo, essa entrada acontece de outro modo. Aqui, a adaptação decide mostrar logo de início que existe uma ameaça muito concreta se aproximando.

Essa antecipação já muda o tipo de tensão que a temporada constrói. Em vez de guardar tudo como surpresa, a série prefere trabalhar com a sombra do que está vindo. É uma escolha interessante porque coloca o espectador em estado de alerta desde o começo.

Ainda há pouco tempo de tela para avaliar com profundidade a Abby de Kaitlyn Dever, mas a impressão inicial é menos sobre performance e mais sobre função narrativa. A personagem ainda precisa de espaço para mostrar tudo o que carrega, e esse espaço certamente virá. Por enquanto, o episódio só indica que ela está aqui por um motivo grande o suficiente para redefinir toda a temporada.

A questão física de Abby não é o centro

Também vale dizer algo que já gerou discussão desde o anúncio do elenco: a diferença física entre a Abby do jogo e a da série. Honestamente, isso importa muito menos do que parece em debates apressados. O que realmente vai sustentar a personagem é a atuação de Kaitlyn Dever nos momentos em que Abby precisar carregar o peso dramático da história. O físico pode até ser um traço marcante no jogo, mas aqui ele não será o fator decisivo.

Jackson ganha mais vida e mais contexto

Boa parte do mérito do episódio está na forma como ele faz Jackson parecer um lugar vivo. Cinco anos se passaram desde o fim da primeira temporada, e a comunidade agora aparece com mais estrutura, mais rotina e mais complexidade social.

Esse é um dos aspectos em que a série mais acerta. Jackson deixa de ser apenas um refúgio seguro e passa a funcionar como uma comunidade real, com conselho, regras, tensões internas e preocupações coletivas. Há uma dimensão de sociedade tentando existir ali, mesmo no fim do mundo.

Essa expansão também ajuda a dar mais peso ao que acontece entre Joel e Ellie, porque mostra que o afastamento entre os dois não acontece no vazio. Ele existe dentro de uma nova rotina, de um novo lar e de uma realidade que deveria representar alguma estabilidade.

Joel mudou, e a terapia ajuda a mostrar isso

Uma das adições mais interessantes do episódio é o acompanhamento de Joel em terapia com Gail, personagem vivida por Catherine O’Hara. A escolha funciona muito bem porque permite à série contextualizar melhor o que aconteceu com ele e com Ellie nesses cinco anos.

Joel já não é exatamente o mesmo homem endurecido da primeira temporada. Ele parece mais aberto, mais preocupado com a própria falha emocional e mais consciente de que a relação com Ellie entrou em um ponto delicado. A terapia ajuda a explicitar isso sem precisar transformar tudo em exposição artificial.

O distanciamento entre Joel e Ellie ganha mais corpo

No jogo, esse afastamento existe, mas a série opta por trabalhá-lo de forma um pouco mais direta. Aqui, Joel se mostra preocupado com Ellie e com a forma como ela se afastou, enquanto ela tenta canalizar a própria angústia para outros espaços, como as patrulhas e a convivência mais próxima com Dina e Jesse.

Essa camada extra ajuda porque torna o rompimento menos abstrato. A série não quer apenas informar que os dois estão distantes. Ela quer mostrar como isso aparece no comportamento, nas falas e no silêncio entre eles.

Dina rouba a cena no episódio

Se alguém sai deste capítulo com presença ampliada, essa pessoa é Dina. A interpretação de Isabela Merced é facilmente um dos destaques do episódio. Ela encontra o carisma que a personagem exige, transmite calor, naturalidade e presença, e ainda faz isso sem parecer forçada.

Dina precisa funcionar rápido para a história ganhar tração emocional, e isso acontece. A personagem chega com energia suficiente para se destacar e para tornar o vínculo com Ellie convincente desde cedo.

Também chama atenção a fidelidade com que a série apresenta Jesse, vivido por Young Mazino. Os dois personagens entram bem na dinâmica de Jackson e ajudam a dar ao episódio um senso de continuidade do mundo, não apenas de exposição de trama.

Ellie ainda é outra versão da personagem

Bella Ramsey continua propondo uma Ellie diferente da vista no jogo, e isso já está claro desde a primeira temporada. Neste momento específico da história, a Ellie dos games transmite uma maturidade e uma dureza mais explícitas. Na série, a personagem ainda parece carregar outro tipo de energia.

Isso não precisa ser tratado como defeito. É uma adaptação, e a construção da personagem vai responder ao caminho que a série escolheu para ela. Ainda há muito espaço para que Bella Ramsey amplie esse registro ao longo da temporada.

Os Perseguidores reforçam que os infectados ainda importam

Outro ponto importante do episódio é a introdução mais marcante dos Perseguidores. A cena funciona bem porque devolve aos infectados uma presença de ameaça que, em alguns momentos da primeira temporada, pareceu mais contida do que poderia.

O Perseguidor entra em cena com o tipo de tensão que a criatura pede: furtiva, incômoda, imprevisível. A sequência é bem construída e ajuda a lembrar que o perigo dos fungos continua existindo, mesmo em uma história que cada vez mais se concentra nos conflitos humanos.

A temporada precisa manter essa ameaça viva

Tomara que a série continue usando melhor os infectados nesta temporada. O primeiro episódio já mostra que eles podem aparecer de forma mais pontual, mas ainda assim muito eficiente, desde que inseridos nos momentos certos.

O baile em Jackson entrega um dos melhores momentos do episódio

A sequência do baile é outro grande acerto. O beijo entre Ellie e Dina, a intervenção de Seth e a reação de Joel aparecem com a força necessária e com uma proximidade bastante feliz em relação ao jogo.

Joel tenta defender Ellie diante do preconceito explícito, mas ela o rejeita e deixa claro que não precisava daquela interferência. É um momento importante porque condensa bem o estado atual da relação entre os dois. Joel ainda age por impulso protetor, mas Ellie já não aceita isso da mesma forma.

Essa é uma daquelas cenas que ajudam a mostrar como a série está lidando bem com momentos marcantes do material original quando decide preservá-los quase intactos.

O episódio fecha com sensação de ameaça iminente

Nos minutos finais, a presença de Abby próxima a Jackson e os tentáculos do Cordyceps infiltrados na tubulação da comunidade deixam claro que a temporada não vai demorar a sair dessa fase mais contemplativa e entrar em conflito aberto.

A impressão final é de preparação. O episódio organiza o mundo, reposiciona personagens, reforça vínculos e tensões, e termina deixando o espectador com a sensação de que algo muito maior está prestes a acontecer.


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