A segunda temporada de The Last of Us chega ao seu quarto episódio já em ritmo de reta avançada. Com apenas sete capítulos no total, a adaptação da HBO claramente escolheu acelerar a passagem de Ellie e Dina por Seattle, condensando acontecimentos importantes de The Last of Us Part II em blocos mais diretos e mais enxutos.
Esse movimento traz ganhos e perdas. Por um lado, o episódio mantém a temporada em alta intensidade, expande pontos do universo e sustenta bem a dinâmica entre Ellie e Dina. Por outro, reforça uma sensação cada vez mais presente: a de que a série está correndo por momentos que precisavam respirar mais.
“Dia Um” não é um episódio ruim. Longe disso. Ele tem boas ideias, ótima produção e cenas muito bem resolvidas. Ainda assim, sai a impressão de que Seattle poderia ser muito mais sentida do que propriamente atravessada.
Seattle cresce, mas de forma apressada
O capítulo acerta ao dedicar espaço ao contexto da cidade e ao conflito entre a WLF e os Serafitas. O flashback com Isaac funciona bem justamente porque amplia uma camada que, no jogo, existe mais como pano de fundo do que como desenvolvimento direto.
Jeffrey Wright impõe presença imediata, e a série parece interessada em transformar Isaac em uma peça mais relevante do que ele foi na percepção de muita gente em Part II. Isso é positivo. A adaptação mostra que a guerra em Seattle já ultrapassou qualquer lógica inicial de razão ou justiça. O conflito virou rotina, ideologia e desgaste absoluto.
Esse tipo de expansão faz sentido. A série precisa usar sua linguagem para aprofundar temas que o jogo diluía entre exploração, combate e ambientação. Nesse caso, funciona. O problema é que esse tempo extra para certas explicações convive com uma compressão muito forte da jornada principal de Ellie e Dina pela cidade.
Ellie e Dina continuam sendo o centro emocional
Se existe algo que sustenta muito bem o episódio, é a relação entre Ellie e Dina. Bella Ramsey e Isabela Merced seguem com ótima química, e a série continua encontrando maneiras eficientes de construir essa proximidade.
A cena da loja de música é o melhor exemplo disso. A adaptação de “Take On Me” funciona porque entende exatamente o que precisa preservar: não é só uma referência querida ao jogo, mas um momento em que a brutalidade do mundo some por instantes e dá lugar a algo íntimo, frágil e profundamente humano.
É uma das sequências mais bonitas da temporada até aqui e ajuda a lembrar por que esse universo funciona tão bem quando desacelera para olhar os personagens.
A produção segue muito forte
Em termos técnicos, o episódio impressiona. Os cenários da estação de TV, do metrô e da própria Seattle estão muito bem construídos. Há cuidado visível na ambientação, na textura do espaço e na forma como a cidade é apresentada como um lugar tomado por abandono, conflito e memória recente de violência.
O problema é que a série quase não para para deixar o espectador absorver isso tudo. Em vários momentos, a produção entrega cenários excelentes, mas o roteiro passa por eles rápido demais. É uma contradição curiosa: há um mundo muito bem montado, mas nem sempre a narrativa permite que ele pese como deveria.
A ação funciona, mas também evidencia o problema de ritmo
A sequência da estação de TV e, principalmente, a fuga no metrô são bem dirigidas. O uso dos sinalizadores vermelhos, o caos com os infectados e a tensão da perseguição funcionam. A cena é envolvente, bem filmada e prova que a série sabe construir suspense em espaço fechado.
Mas ela também escancara o maior problema do episódio: a pressa.
No jogo, o primeiro dia em Seattle é enorme, não porque tudo ali precise ser reproduzido literalmente, mas porque ele serve para construir sensação de espaço, hostilidade e desgaste. A série escolhe resumir boa parte dessa vivência, e isso afeta a escala emocional da travessia. Não é uma questão de querer “mais ação” ou uma adaptação quadro a quadro. É uma questão de permitir que os acontecimentos tenham peso.
Aqui, quase tudo parece acontecer rápido demais para deixar marca mais funda.
A cena da mordida funciona bem na nova versão
A adaptação da revelação da imunidade de Ellie é uma das mudanças mais acertadas do episódio. Em vez de reproduzir diretamente a lógica dos esporos do jogo, a série encontra uma alternativa coerente com a linguagem que já vinha usando e constrói um momento de tensão forte entre Ellie e Dina.
A sequência funciona porque combina medo, urgência e intimidade. Ellie se expõe de forma brutal, Dina é colocada diante de uma verdade impossível e a relação entre as duas atravessa ali um ponto sem volta. É um dos trechos em que a adaptação não apenas altera, mas encontra uma solução própria convincente.
Falta um pouco mais da escuridão de Ellie
Mesmo gostando da atuação de Bella Ramsey, sigo com a impressão de que a Ellie da série ainda não encontrou totalmente o peso sombrio que sua versão de Part II carrega. A personagem continua interessante, claro, mas em alguns momentos parece menos consumida pela violência e pela obsessão do que o material original sugeria.
Talvez isso seja uma escolha deliberada para modular a transformação dela de outra forma. Pode funcionar melhor adiante. Mas, por enquanto, ainda existe uma distância perceptível entre a Ellie do jogo e a maneira como a série escolhe expressar sua raiva.
Um bom episódio que poderia ser melhor
No fim, “Dia Um” é um episódio bom, bem produzido e com momentos fortes, mas que reforça uma preocupação legítima com o ritmo da temporada. A série continua interessante, continua visualmente ótima e ainda tem personagens fortes o bastante para sustentar a experiência. Só que Seattle, até aqui, parece menor, mais rápida e menos sufocante do que deveria.
É uma adaptação que ainda funciona, mas que começa a passar a sensação de estar correndo para alcançar seus grandes pontos de virada.

