The Last of Us acerta em cheio no episódio 6 e reencontra sua força

The Last of Us acerta em cheio no episódio 6 e reencontra sua força

Sexto capítulo da segunda temporada usa flashbacks, aprofunda Joel e Ellie e entrega o momento mais forte, sensível e bem conduzido deste ano da série

Por Matheus Cabral maio 19, 2025

Depois de alguns capítulos marcados por pressa, cortes discutíveis e uma adaptação nem sempre tão segura quanto poderia, “O Preço” devolve à temporada o que ela tem de melhor: personagens fortes, emoção bem trabalhada...

Pros

  • Depois de alguns capítulos marcados por pressa, cortes discutíveis e uma adaptação nem sempre tão segura quanto poderia, “O Preço” devolve à...
  • Os flashbacks expandem a história com inteligência Um dos melhores acertos do episódio está na forma como usa os flashbacks.
  • O episódio que recoloca Joel e Ellie no centro “O Preço” acerta logo de saída ao lembrar algo que a segunda temporada...
  • Por isso funciona tão bem que o episódio escolha reduzir o foco no caos externo para mergulhar no vínculo entre Joel e...

Contras

  • Se a temporada em alguns momentos pesou demais a mão ao reforçar a brutalidade de Joel, o episódio...
  • Joel aparece como alguém moldado por um passado duro, por um ideal confuso de proteção e por uma...
  • Esse detalhe faz diferença porque dá mais coerência à forma como ele se relaciona com Tommy, com Sarah...
  • É essa contradição que mantém Joel tão forte como personagem.

O que você vai encontrar

Estamos nos encaminhando para o fim da segunda temporada de The Last of Us, e o episódio 6 surge justamente no momento em que a série mais precisava reencontrar firmeza. Depois de alguns capítulos marcados por pressa, cortes discutíveis e uma adaptação nem sempre tão segura quanto poderia, “O Preço” devolve à temporada o que ela tem de melhor: personagens fortes, emoção bem trabalhada e um entendimento mais claro do que faz essa história funcionar.

O capítulo aposta em uma estrutura de flashbacks para voltar ao passado de Joel e Ellie, preencher lacunas importantes e reorganizar o peso emocional da relação entre os dois. Há mudanças, há concessões e há escolhas que certamente vão dividir parte do público. Ainda assim, o roteiro entende muito bem o que precisa entregar aqui e conduz tudo com sensibilidade, ritmo e propósito.

Quem não jogou The Last of Us Part II pode seguir tranquilo. A análise abaixo fica apenas no que a série já mostrou.

O episódio que recoloca Joel e Ellie no centro

“O Preço” acerta logo de saída ao lembrar algo que a segunda temporada às vezes parecia esquecer: The Last of Us vive ou morre pela força de seus personagens. O apocalipse, os infectados e os conflitos entre facções importam, claro, mas são as relações humanas que realmente sustentam esse universo.

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Por isso funciona tão bem que o episódio escolha reduzir o foco no caos externo para mergulhar no vínculo entre Joel e Ellie. É uma decisão simples, mas poderosa. Ao reorganizar o olhar da temporada, a série volta a respirar melhor.

Há um peso emocional muito específico em revisitar essa dupla sabendo tudo o que já se perdeu. Cada conversa, cada gesto e cada silêncio carregam uma camada extra justamente porque o espectador já entende o tamanho da rachadura que existe entre eles.

Os flashbacks expandem a história com inteligência

Um dos melhores acertos do episódio está na forma como usa os flashbacks. Eles não entram só para preencher tempo, nem para reproduzir o jogo de maneira automática. Eles têm função dramática clara: mostrar como a relação de Joel e Ellie se desgasta aos poucos, em pequenas fissuras, até chegar ao ponto de ruptura que já conhecemos.

A escolha de abrir em 1983, durante a infância de Joel e Tommy, é especialmente interessante. Esse trecho não existia no jogo e amplia o contexto do personagem sem soar gratuito. Ao apresentar um pai rígido, violento e autoritário, a série constrói uma linha emocional importante para entender Joel mais tarde.

Ele cresce em um ambiente em que mentira, medo e agressividade já fazem parte da rotina. Isso não serve para justificar tudo o que ele se tornará, mas ajuda a iluminar de onde vem parte desse impulso de carregar dor, esconder a verdade e proteger os outros do jeito torto que conhece.

Essa expansão funciona porque não parece enxerto. Parece aprofundamento.

Joel é humanizado sem perder contradição

Se a temporada em alguns momentos pesou demais a mão ao reforçar a brutalidade de Joel, o episódio 6 encontra uma medida muito melhor. Em vez de insistir apenas na culpa ou na violência, ele humaniza o personagem por outro caminho: o da herança emocional.

Joel aparece como alguém moldado por um passado duro, por um ideal confuso de proteção e por uma necessidade quase automática de assumir o peso das coisas para que outros não precisem carregar. Isso já estava no personagem, mas aqui ganha contorno mais claro.

Esse detalhe faz diferença porque dá mais coerência à forma como ele se relaciona com Tommy, com Sarah e, depois, com Ellie. Joel protege porque ama, mas também porque não sabe funcionar direito fora desse papel. Ele mente porque quer poupar, mas ao fazer isso também fere. O episódio entende bem essa ambiguidade e não tenta limpá-la.

É essa contradição que mantém Joel tão forte como personagem.

O museu continua sendo um dos momentos mais bonitos da franquia

A adaptação da sequência do museu era uma das partes mais esperadas desta temporada, e a série acerta ao tratá-la com o cuidado necessário. Não tenta inflar demais a cena, nem reinventá-la sem motivo. Apenas entende o valor daquele momento e o preserva com sensibilidade.

O passeio, o corredor estrelado, a nave, o áudio do lançamento e a forma como Ellie se deixa atravessar por tudo aquilo continuam tendo um impacto enorme. Em um mundo destruído, a possibilidade de viver um instante de encantamento ao lado de alguém que você ama ganha um peso ainda maior.

A força dessa sequência está justamente na simplicidade. The Last of Us sempre foi muito bom em lembrar que, em meio ao horror, o que sustenta a vida ainda são memórias pequenas, íntimas e profundamente humanas.

Pedro Pascal e Bella Ramsey também brilham aqui. A química entre os dois continua sendo um dos grandes pilares da adaptação, e o episódio faz ótimo uso disso.

A mariposa, a morte e o que ronda Ellie

Outro elemento que ganha mais densidade no episódio é a simbologia da mariposa. A série reforça a presença desse símbolo em torno de Ellie e o associa de forma mais direta à morte, à atração pelo que queima e à impossibilidade de escapar de certos destinos.

Isso conversa muito bem com a personagem. Ellie é marcada pela morte desde o nascimento, atravessada por perdas, violência e sobrevivência. A mordida, a tatuagem, a culpa e o lugar que ela ocupa nesse mundo tornam essa simbologia especialmente forte.

Não é um detalhe decorativo. É um recurso que ajuda a costurar o episódio e a colocar Ellie dentro de uma lógica trágica que já acompanha a franquia há muito tempo.

Eugene vira peça importante para a ruptura

A inclusão de Eugene como peça dramática nessa fase da história é uma das mudanças mais interessantes em relação ao jogo. A sequência criada para a série cumpre duas funções muito bem: aprofunda o desgaste entre Joel e Ellie e reforça, mais uma vez, o padrão de comportamento dele diante da verdade.

Joel promete uma coisa, decide outra e depois mente sobre o que fez. Mesmo que o gesto nasça de sua lógica de proteção, o efeito é o mesmo: Ellie entende que foi enganada de novo. Esse momento talvez não tenha o mesmo desenho do jogo, mas serve perfeitamente à construção que a série escolheu.

Mais importante do que reproduzir cada evento do original era encontrar uma forma funcional de fazer Ellie chegar àquela certeza dolorosa. E o episódio consegue isso.

A cena da varanda entrega o que a temporada precisava

A conversa final na varanda é o coração do episódio e, muito provavelmente, o momento mais forte desta temporada até aqui. Não apenas pelo peso dramático, mas pela clareza com que a cena entende o que está em jogo.

Ellie está ferida, magoada e tomada por um sentimento legítimo de traição. Joel, por sua vez, não tenta se esconder totalmente atrás de justificativas vazias. Ele assume o que fez, assume o amor que sente e deixa claro que repetiria tudo de novo.

É uma cena poderosa porque recusa simplificações. Joel não vira vilão. Ellie não vira ingrata. O episódio não tenta resolver o conflito, mas expõe seu núcleo com honestidade. Eles se amam, e justamente por isso a dor entre os dois é tão grande.

Pedro Pascal e Bella Ramsey entregam aqui seu melhor momento na temporada. É uma cena de atuação forte, contida e cheia de subtexto. O episódio inteiro cresce para chegar a esse ponto, e chega bem.

O melhor episódio da segunda temporada

Depois de semanas em que a adaptação parecia oscilar mais do que deveria, o episódio 6 reencontra o eixo. O ritmo funciona, os flashbacks são bem utilizados, as mudanças fazem sentido dentro da linguagem da série e a carga emocional finalmente encontra espaço para respirar.

Isso não apaga os problemas que a temporada teve até aqui. Ainda há escolhas discutíveis, momentos apressados e cortes que enfraqueceram parte da jornada em Seattle. Mas “O Preço” prova que a série ainda sabe exatamente onde mora sua maior força quando quer acessá-la.

E essa força está menos na ação e mais nas cicatrizes emocionais dos personagens.

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