LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight nasce devendo, e a culpa não é dele: Arkham existe. Não importa o estúdio, o gênero ou a proposta, em algum momento alguém vai perguntar se o combate chega perto do da Rocksteady, se Gotham é tão boa de explorar, se atravessar a cidade dá aquela mesma liberdade.
A TT Games decidiu encarar a comparação de frente. Pegou o que deu certo em Arkham, misturou com a fórmula que vem lapidando há décadas nos jogos LEGO e despejou por cima uma quantidade quase absurda de referências a filmes, quadrinhos e outras encarnações do Morcego. Nos melhores momentos, Legacy of the Dark Knight parece obra de gente que conhece o personagem de verdade.
E não estou falando de achar um traje clássico escondido no menu. O jogo entende por que certas cenas marcaram e acha jeitos divertidos de reinterpretá-las. Algumas referências são quase discretas; outras reorganizam missões inteiras. Quem cresceu acompanhando versões distintas do herói no cinema, na TV e nos quadrinhos vai passar boa parte do tempo apontando para a tela.
A TT Games costura tudo isso numa narrativa própria, com o humor de sempre da casa, e acerta bem mais do que erra. Mas a decisão que realmente define o jogo foi outra: em vez de fazer só mais um LEGO Batman maior, o estúdio fez algo muito próximo de um LEGO Arkham.
Um jogo feito por quem conhece a história do Batman
A campanha percorre a formação de Bruce Wayne e aproveita esse caminho para revisitar praticamente todas as grandes eras do personagem. Tem Tim Burton, tem a trilogia do Nolan, tem as séries de TV, os quadrinhos e, claro, muito Arkham.
O começo já entrega a proposta ao acompanhar o treinamento de Bruce e sua relação com Ra’s al Ghul e Talia. Dali em diante, o elenco só cresce: Jim Gordon, Mulher-Gato, Robin, Batgirl e outros nomes conhecidos entram na aventura, e não como participação especial. Cada um tem ferramentas próprias, habilidades específicas e maneiras diferentes de interagir com o cenário.
Quem jogou LEGO Star Wars: The Skywalker Saga vai reconhecer a estrutura, só que aqui essas diferenças têm mais função prática. Certos quebra-cabeças pedem gadgets específicos, algumas áreas dependem de habilidades particulares, e a campanha volta e meia muda o ritmo colocando outro personagem no centro da ação.



Vou ser honesto: nem todo puzzle é lá grande coisa. Muitos seguem a velha lógica da franquia em que a “solução” é descobrir qual personagem usar. Ainda assim, eles quebram o ritmo do combate e, no cooperativo principalmente, deixam a troca entre heróis mais natural.
A campanha também sabe brincar com o próprio Batman. E ela ri com ele, não dele. Tem piada, exagero e situação absurda, mas o humor nunca transforma a mitologia numa paródia vazia. A TT Games sabe quando pode forçar a mão e quando uma cena merece peso.
A melhor decisão foi transformar Batman em LEGO Arkham
É no combate que a influência de Arkham grita. Batman enfrenta grupos inteiros, contra-ataca na hora certa, salta sobre inimigos, encaixa gadgets no meio das sequências e mantém o fluxo de golpes sem deixar a ação parar. Não é uma cópia do sistema da Rocksteady, mas a inspiração é óbvia e foi adaptada com uma naturalidade que me surpreendeu.
O resultado é um dos combates mais gostosos que já vi em jogo LEGO. As animações são rápidas, os golpes se conectam bem e existe uma impressão constante de movimento. Contra-atacar no instante exato, derrubar um inimigo, disparar um gadget e já avançar sobre o próximo cria sequências bonitas de assistir, sem exigir a precisão de um jogo de ação mais pesado.
E isso casa perfeitamente com o espírito do jogo. Legacy of the Dark Knight continua acessível para os mais novos e para quem joga casualmente, mas está longe de ser básico como os LEGO antigos. Há mais controle, mais opções e uma preocupação evidente em fazer você sentir que está realmente no comando do Batman.

A árvore de habilidades ajuda muito nisso. Conforme a aventura avança, o arsenal cresce com habilidades e gadgets que vêm direto da cartilha de Arkham, e a progressão convence justamente porque não se resume a aumentar números: cada ferramenta nova muda como você luta e como explora Gotham. The Skywalker Saga já tinha provado que um jogo LEGO pode continuar acessível sem abrir mão de mecânicas mais amplas, e aqui a lição foi bem aprendida.
Só que o combate esbarra num teto. Depois de algumas horas, fica claro que a base é excelente, mas a variedade de golpes e finalizações para de crescer. Inimigos novos pedem abordagens diferentes, a árvore adiciona recursos, e ainda assim o núcleo das lutas começa a se repetir. Quem esperava evolução constante até o final vai sentir falta de mais combinações, animações e possibilidades ofensivas.
Lutar diverte até os créditos, que fique registrado. Mas é justamente porque a base é tão boa que a repetição incomoda.
Gotham é uma delícia de atravessar
Explorar a cidade foi uma das partes que mais me prendeu. Gotham está lotada de atividades, colecionáveis, desafios e segredos. Nem tudo é memorável, e parte das tarefas secundárias existe mais para engordar o conteúdo do que para oferecer algo especial. Mas a exploração se sustenta por um motivo simples: locomover-se é prazeroso.
Voar pela cidade é livre, fácil e satisfatório. Em certos momentos, a travessia me pareceu até mais solta do que em Arkham Knight. Ganhar altura, planar entre prédios e mudar de direção rapidinho faz com que ir de uma atividade a outra quase nunca vire obrigação. Volta e meia eu abandonava um veículo no meio do caminho porque voar era mais rápido e, principalmente, rendia mais.

Os veículos ainda têm seu lugar, sobretudo pela nostalgia. Há diferentes versões do Batmóvel e outros transportes ligados a fases distintas do personagem, e desbloquear essas máquinas tem um peso parecido com o de encontrar um traje clássico.
Dirigir, porém, não acompanha o mesmo nível. Alguns veículos são pesados ou travados demais, e o controle terrestre destoa da fluidez do resto do jogo. Nada que estrague o passeio; só explica por que tanta gente vai preferir os céus. A variedade compensa em parte, porque usar um Batmóvel de uma adaptação específica transforma a exploração numa espécie de tour pela história do personagem.
Trajes viram personagens novos
Legacy of the Dark Knight não tem um elenco gigantesco como The Skywalker Saga, mas achou uma saída inteligente: os trajes.
São muitas versões do Batman e de outros personagens, tiradas de filmes, quadrinhos e fases diferentes da franquia. Para quem acompanha o Morcego há anos, desbloquear uma roupa nova pesa quase tanto quanto liberar um personagem inteiro.
Em muitos jogos de mundo aberto, encontrar o centésimo item escondido deixa de ter graça bem antes do fim. Aqui, saber que determinada atividade pode liberar uma versão icônica cria uma motivação concreta: você não está preenchendo porcentagem, está montando uma coleção ligada à história do Batman. Vestir a roupa de um filme específico, trocar de visual e chamar um Batmóvel reconhecível não é detalhe. Faz parte do pacote, e é um baita incentivo para continuar avançando.
A campanha sabe variar o ritmo
Outro acerto está na estrutura das missões. O jogo não passa a campanha inteira jogando Batman dentro de arenas para bater em grupos de inimigos. Tem missão focada em combate, missão construída em torno de gadgets, trecho de furtividade, sequência com personagem secundário no comando.
Em certos capítulos, passei bons períodos sem grandes lutas e continuei me divertindo, porque sempre havia outra mecânica me segurando ali. Em outros, o jogo acelera e entrega sequências mais próximas do que se espera de uma aventura inspirada em Arkham.

A furtividade não tem a profundidade dos jogos da Rocksteady, mas cumpre seu papel: gadgets, posicionamento e leitura do cenário criam uma pausa boa entre os confrontos diretos. E é aí que os personagens secundários ganham importância. Quando uma missão pede ferramentas diferentes ou troca o protagonista, a dinâmica se renova sem abandonar a estrutura principal.
Jogar em coop deixa tudo mais divertido
Joguei no PS5 e, se você tiver com quem dividir o sofá, divida. O cooperativo é local, sem opção online, mas casa naturalmente com a estrutura do jogo, porque muitos desafios já foram pensados em torno de personagens com habilidades diferentes. Em vez de ficar trocando de herói sozinho o tempo todo, duas pessoas assumem funções distintas e resolvem as situações juntas.
Nas lutas, o resultado é caótico no melhor sentido. Enquanto um jogador segura um grupo de inimigos, o outro usa gadgets, ataca por outro lado ou simplesmente transforma a tela numa nuvem de pecinhas voando.
O coop também disfarça parte da repetição do combate. O sistema é o mesmo, mas a presença de outra pessoa gera situações inesperadas, acelera puzzles e deixa a exploração mais leve. Jogar sozinho continua de pé, com troca rápida de personagens e tudo no lugar. Só que as mecânicas brilham mais em dupla, ainda mais num jogo com uma natureza tão despretensiosa.
Nem todos os vilões recebem o espaço que mereciam
A vontade de celebrar toda a história do Batman também cobra seu preço: o jogo quer colocar coisa demais dentro da mesma campanha.
Quando dá certo, é ótimo. O Coringa, por exemplo, tem bastante tempo de tela, participa de missões variadas e deixa uma presença real na aventura. Ele não está ali só porque toda história do Batman “precisa” dele.
Outros vilões passam voando. O Senhor Frio foi o caso que mais me incomodou: a participação dele tem bons momentos, mas acaba quando eu ainda esperava pelo menos mais algumas missões. O personagem aparece, cumpre a função e a campanha segue em frente.

E ele não é o único. Alguns antagonistas entram, protagonizam uma sequência interessante e somem antes de a participação ganhar peso. O aproveitamento dos vilões fica desbalanceado, e como o elenco reúne nomes tão conhecidos, a diferença de tratamento entre eles fica escancarada. Ninguém precisava de um arco gigante. O problema é que certas aparições são claramente curtas demais para aquilo que a própria campanha começa a construir. Em alguns trechos, dá para sentir que havia material para um jogo maior, de um jeito que faria sentido.
O final chega antes da hora
Que fique claro: Legacy of the Dark Knight não é curto. A campanha entrega boas horas de diversão, Gotham está cheia de atividades e quem for atrás de trajes, veículos e melhorias vai ter conteúdo de sobra.
Meu problema com o desfecho é de ritmo. Chega uma hora em que a história ainda parece ter bastante coisa para resolver, com personagens que mereciam mais espaço e conflitos em pleno desenvolvimento, e eu sinceramente esperava pelo menos mais uma etapa importante da campanha. Aí aparece o aviso de que você está entrando na sequência final. Minha reação foi, literalmente, “já?”.

A surpresa não veio de eu ter jogado pouco, nem de falta de conteúdo no mapa. Veio porque a própria história não parecia pronta para acabar. É um problema diferente de duração: existem jogos curtos que conduzem o jogador perfeitamente até o desfecho. Este aqui dá a impressão de que tinha espaço natural para crescer e simplesmente pisa no acelerador.
Quando os créditos sobem, é difícil não pensar nos vilões que mereciam mais missões e nos conflitos que pediam mais alguns capítulos. A campanha sobrevive ao desfecho, claro. Só fica aquela frustração de que um jogo muito bom podia ter sido ainda melhor se tivesse respirado um pouco mais.
Vale a pena jogar LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight?

Se você gosta de Batman, a resposta é fácil: sim. LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight é um presente para fãs porque entende que referência, sozinha, não basta. A TT Games revisita filmes, quadrinhos e jogos de épocas diferentes, mas quase sempre encontra jeitos inteligentes de transformar essas influências em missões, trajes, veículos e momentos próprios.
A aposta nos elementos de Arkham também rendeu. O combate é fluido, os gadgets se encaixam com naturalidade, a progressão convence e Gotham é um prazer de atravessar, com destaque absoluto para o voo pela cidade. E o cooperativo deixa praticamente tudo melhor.
Também é uma boa porta de entrada para quem não acompanha cada detalhe da mitologia: a aventura é acessível, tem bastante conteúdo, boa variedade de missões e um combate muito mais interessante do que se esperaria de um jogo LEGO.
As ressalvas existem. O combate para de evoluir antes da hora, alguns vilões passam rápido demais e a reta final é apressada, deixando história na mesa quando os créditos chegam.
Mesmo assim, o saldo é muito positivo. LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight não substitui Arkham e nem tenta. Ele pega parte do que dava certo naquela série, adapta ao universo LEGO e entrega uma das aventuras mais divertidas do Batman nos games em muitos anos. Para quem ama o Morcego, é praticamente indispensável.
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