Arashi Gaiden nasce de uma mistura curiosa. De um lado, ele vem do universo de Pocket Bravery, jogo de luta brasileiro da Statera Studio. Do outro, carrega a mão da Wired Dreams Studio em uma proposta mais tática, próxima de um puzzle de ação por turnos. No papel, parece uma combinação estranha. Na prática, é justamente essa mistura que dá identidade ao jogo.
A ideia central é simples: você controla Shinji Arashi, um ninja que precisa recuperar relíquias roubadas por uma organização criminosa. A história serve como fio condutor para atravessar fases, enfrentar inimigos e avançar por salas cada vez mais elaboradas. Não é uma narrativa memorável, nem tenta ser. O foco real está no funcionamento das fases.
E é aí que Arashi Gaiden acerta melhor. Cada sala funciona como um pequeno quebra-cabeça de ação. O jogador precisa observar o posicionamento dos inimigos, entender armadilhas, prever movimentos e decidir qual é a melhor rota antes de agir. O jogo parece rápido, mas não é sobre sair apertando botão. É sobre pensar antes do corte.
Um ninja em um tabuleiro de ação
O sistema de movimento é o coração de Arashi Gaiden. Shinji não anda livremente pelo cenário como em um jogo de ação comum. Ele se move nas quatro direções e avança em linha reta até encontrar uma parede, obstáculo ou limite da sala. Se houver um inimigo no caminho, o ataque acontece automaticamente.
Esse conceito dá ao jogo uma lógica quase de tabuleiro. Cada movimento importa, e um deslocamento errado pode colocar o personagem na frente de um ataque, preso em uma armadilha ou fora da posição ideal para continuar a sequência.

O interessante é que essa estrutura transforma a ação em planejamento. Quando uma sala começa, a primeira reação não deve ser correr para atacar. O melhor é parar, olhar o cenário e montar uma espécie de rota mental. Quem eliminar primeiro? Qual inimigo pode atacar à distância? Qual armadilha pode ser usada a favor? Qual movimento deixa Shinji vulnerável no turno seguinte?
Quando tudo encaixa, a sensação é ótima. Arashi cruza a tela, elimina inimigos em sequência e faz a solução parecer coreografada. É o tipo de sistema que parece simples nos primeiros minutos, mas mostra mais profundidade conforme novas ameaças entram em cena.
Dash and Slash é a melhor ideia do jogo
A mecânica chamada de Dash and Slash é o grande acerto de Arashi Gaiden. Ela mistura a calma de um jogo tático com o impacto de um jogo de ação. Você pensa como em um puzzle, mas executa como um ninja.
Com o tempo, o jogo adiciona habilidades que expandem essa base. A shuriken permite atacar de longe e interagir com elementos do cenário. A seta de desvio altera a direção do movimento, criando rotas que não seriam possíveis apenas com o dash normal. A corrente do tempo imobiliza inimigos em área. O teletransporte permite reposicionamentos mais ousados.

Essas habilidades não parecem sistemas soltos. Elas funcionam como extensões naturais do dash. O jogo entende que a força da sua proposta está na movimentação, então quase tudo gira em torno de mudar posição, controlar espaço e manipular o cenário.
Também há melhorias permanentes oferecidas por Lobo durante os estágios. O jogador pode aumentar vida, mana ou alcance de habilidades, o que adiciona uma camada leve de progressão. Não é um RPG profundo, mas ajuda a ajustar o estilo de jogo e dá um pouco mais de peso às escolhas.
Cada sala é um pequeno puzzle
O melhor momento de Arashi Gaiden acontece quando uma sala parece impossível no primeiro olhar. Inimigos posicionados em corredores diferentes, armadilhas no caminho, ataques à distância, poucos recursos e uma rota aparentemente ruim. Então você começa a testar possibilidades, erra, reinicia e percebe que existia uma solução elegante ali desde o começo.
Essa lógica é o que segura a campanha. O jogo recompensa quem observa, experimenta e tenta entender o mapa antes de agir. Em várias salas, há mais de uma forma de vencer. Uma estratégia pode ser mais segura. Outra pode ser mais rápida. Outra pode render uma classificação melhor no fim da fase.

O sistema de ranking também ajuda a incentivar replay. Ao fim dos estágios, o jogo avalia desempenho, mortes, tempo e outros critérios. Quem gosta de repetir fases para melhorar a execução encontra um bom motivo para voltar.
Ao mesmo tempo, essa estrutura também mostra uma limitação. O conceito é bom, mas a campanha nem sempre consegue variar o suficiente para evitar a sensação de repetição. Depois de algumas horas, certos tipos de inimigos e situações começam a parecer familiares demais. O jogo continua funcionando, mas perde parte do efeito de surpresa.
Chefes são bons, mas podem frustrar
As batalhas contra chefes estão entre os momentos mais interessantes da campanha. Elas quebram um pouco a lógica das salas comuns e obrigam o jogador a usar tudo que aprendeu de forma diferente.
Em vez de apenas limpar o cenário, o jogador precisa entender padrões, lidar com perigos que mudam a arena e adaptar o uso das habilidades. São confrontos que exigem paciência e leitura de movimento. Quando funcionam, dão uma boa sensação de recompensa, principalmente porque o jogo não entrega vitórias fáceis.

O problema é que alguns chefes também deixam a dificuldade mais áspera. Certas mecânicas dependem de tentativa e erro, e nem sempre a leitura da arena é tão limpa quanto deveria. Como cada falha pode custar caro, a frustração aparece em alguns momentos.
Ainda assim, os chefes ajudam a dar personalidade ao jogo. Eles impedem que Arashi Gaiden seja apenas uma sequência de salas parecidas e mostram que a ideia central pode ser torcida de formas criativas.
Bonito, violento e brasileiro
Visualmente, Arashi Gaiden tem personalidade. A pixel art é caprichada, os personagens têm boas animações e os ataques carregam impacto. O jogo aposta em uma violência estilizada, com bastante sangue em pixel art, mas sem abandonar a leitura clara da ação.
Os cenários também têm bons momentos. Há áreas urbanas com neon, templos, florestas de bambu, interiores mais fechados e ambientes que reforçam a inspiração japonesa. A direção de arte funciona bem e ajuda o jogo a chamar atenção logo de cara.

A trilha sonora acompanha a proposta, misturando elementos inspirados em música japonesa com momentos mais intensos para os combates. Não é necessariamente uma trilha que fica na cabeça por dias, mas cumpre bem o papel de sustentar o clima.
A localização em português do Brasil também merece destaque. Para um jogo brasileiro, isso deveria ser básico, mas ainda é importante valorizar quando a experiência chega bem adaptada ao público nacional. Nesse ponto, Arashi Gaiden acerta.
Nem todo corte sai limpo
O maior problema de Arashi Gaiden está na execução técnica. Na versão de PlayStation, alguns problemas pesam mais do que deveriam. Travamentos, falhas de salvamento e situações em que o personagem pode ficar preso no cenário são exemplos de problemas que comprometem a experiência.
Isso incomoda especialmente porque o jogo depende muito de ritmo. Como cada sala exige tentativa, erro, repetição e aprendizado, qualquer falha fora do controle do jogador quebra a sensação de domínio. Perder progresso ou precisar repetir um trecho por causa de um problema técnico é muito mais frustrante do que falhar por estratégia ruim.
A pouca variedade de inimigos também pesa. O jogo introduz novas armadilhas, habilidades e combinações de cenário, mas muitos confrontos passam a sensação de reaproveitar comportamentos já conhecidos. Uma campanha curta consegue disfarçar parte disso, mas não completamente.
A história também fica em segundo plano. Ela situa Shinji Arashi dentro do universo de Pocket Bravery, apresenta Lobo, relíquias e uma organização criminosa, mas raramente passa disso. Funciona como contexto, mas não como grande motivação para seguir em frente.
Vale a pena jogar Arashi Gaiden?

Arashi Gaiden vale a pena para quem gosta de jogos táticos, puzzles de movimento e experiências indie brasileiras com ideias próprias. O sistema Dash and Slash é criativo, fácil de entender e satisfatório quando o jogador encontra a rota perfeita para limpar uma sala. Há boas habilidades, chefes interessantes e uma direção de arte com identidade.
O problema é que o pacote não fecha tão bem quanto poderia. A repetição de inimigos, a campanha curta, a história simples e os problemas técnicos na versão de PlayStation impedem que o jogo alcance um patamar mais alto. A base é boa, mas a execução fica irregular.
No fim, Arashi Gaiden é um jogo brasileiro com personalidade e uma mecânica central forte, mas também com limitações claras. Ele acerta na ideia, diverte em bons momentos e mostra potencial, só que tropeça o bastante para ficar mais perto de uma boa recomendação com ressalvas do que de um indie obrigatório.

