Muito antes de milhões de pessoas acompanharem o BBB pelas redes sociais, existiu uma maneira bem diferente de entrar na casa mais vigiada do Brasil: pelo computador. Em 2002, no mesmo ano em que o reality estreou na TV, o programa ganhou Big Brother Brasil: O Jogo, um simulador social que parecia uma versão brasileira e muito mais simples de The Sims.
A ideia era praticamente irresistível para quem acompanhava as primeiras edições. O jogador escolhia um brother ou sister, entrava na casa, precisava conversar com os outros participantes, cuidar das necessidades do personagem, criar amizades, formar romances e, acima de tudo, evitar ser eliminado no paredão.
O mais curioso é que o jogo inteiro foi desenvolvido em uma situação que quase parecia outro reality show: a equipe teve apenas duas semanas para conseguir terminá-lo.

Como era o jogo do Big Brother Brasil?
Big Brother Brasil: O Jogo foi lançado para PC em 2002 pela Brasoft e desenvolvido pelo estúdio brasileiro Continuum Entertainment, responsável também por Outlive, um dos nomes mais importantes dos primeiros anos da indústria nacional de games para computador.
O Overdrive inclusive reuniu sete jogos brasileiros disponíveis no Steam que merecem ser conhecidos, e Outlive 25, versão atualizada daquele clássico da Continuum, está entre eles.
No BBB virtual, porém, não havia Bambam, Vanessa Pascale, André Gabeh ou qualquer outro participante real das primeiras temporadas.
O jogador precisava escolher entre 12 brothers e sisters fictícios, cada um com características próprias. A partir daí, começava uma rotina baseada em relacionamentos e popularidade.
Comer, cuidar da higiene, fazer exercícios e conversar eram apenas parte da rotina. O verdadeiro objetivo era fazer os outros moradores gostarem de você o suficiente para evitar votos — e fazer o público virtual acreditar que você deveria continuar na casa. Quanto maior a popularidade do personagem, maiores eram as possibilidades de sobreviver até o final.
Era mesmo parecido com The Sims?
Bastante. E essa comparação não apareceu apenas anos depois por causa da nostalgia. Uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo em julho de 2002 já descrevia o jogo como um simulador de relacionamentos bastante parecido com The Sims.
A semelhança estava principalmente na maneira como os personagens precisavam cuidar de necessidades pessoais e construir relações com outras pessoas. Mas havia uma diferença fundamental: tudo precisava servir ao jogo social do BBB.
Era possível conversar, aumentar o nível de relacionamento, paquerar outro participante, começar um romance, brigar e depois tentar uma reconciliação.
Também existiam tarefas domésticas, como limpar a casa e a cozinha. Enquanto em The Sims o jogador normalmente tenta construir uma vida, no BBB havia um objetivo muito mais específico: manipular as relações da casa de maneira suficiente para chegar à final.

Tinha paredão e prova do líder?
Algumas das principais dinâmicas das primeiras edições do programa foram transportadas para o PC. Havia prova do líder, votação da casa e paredão. Na hora de votar, os participantes escolhiam quem queriam mandar para a berlinda e o jogo simulava até a votação do público.
A popularidade construída ao longo dos dias influenciava diretamente as chances de permanecer. O sistema parecia simples, mas criava uma situação curiosa: não bastava vencer os outros personagens controlados pelo computador. Era necessário também convencer uma espécie de “público virtual” de que seu participante merecia ganhar.
Alexandre Vrubel, que trabalhou na equipe do projeto, explicou anos depois ao UOL Start que essa era justamente uma das diferenças em relação a The Sims: o jogo precisava simular estratégias, manipulação social e a opinião de quem estava assistindo de fora.

O jogo do BBB foi criado em apenas duas semanas
Essa talvez seja a parte mais absurda da história. A Continuum já trabalhava em outro projeto baseado em um reality show da Globo: No Limite. Com o sucesso imediato de Big Brother Brasil na televisão, surgiu a necessidade de colocar também um jogo do BBB no mercado enquanto o programa ainda estava quente.
O prazo era mínimo. Segundo Vrubel, a equipe teve cerca de duas semanas para desenvolver e entregar o jogo antes da final do programa.
A solução foi reaproveitar o máximo possível. Modelos, sistemas e recursos que estavam sendo produzidos para No Limite foram adaptados. Até a tecnologia por trás dos dois projetos tinha parentesco com Outlive: os games de reality utilizavam derivações da engine empregada no RTS da Continuum.
A equipe pequena entrou em uma espécie de confinamento involuntário. Houve jornadas superiores a 14 horas, cochilos diante dos computadores e, nos últimos dias, praticamente nenhuma noite normal de sono. É difícil imaginar um jogo baseado em BBB sendo produzido de maneira mais apropriada.
Quanto custava Big Brother Brasil: O Jogo?
Na época, Big Brother Brasil chegou às lojas por R$ 19,90. Os requisitos de sistema também são uma pequena cápsula do tempo. A reportagem da Folha publicada em 2002 citava como configuração necessária um Pentium de 166 MHz, 32 MB de memória RAM e placa de vídeo SVGA com 2 MB.
Hoje, apenas uma imagem tirada por um celular ocupa várias vezes mais memória do que o computador inteiro precisava ter para rodar o jogo.
Visualmente, o resultado também denunciava o tempo curto de produção. A casa tinha gráficos isométricos simples, os personagens eram bastante limitados e muitas das atividades dependiam mais de menus e números do que de animações sofisticadas.
Ainda assim, havia algo extremamente brasileiro na proposta: transformar um programa que havia acabado de virar fenômeno nacional em um simulador de PC praticamente enquanto a temporada ainda estava acontecendo.
Os participantes reais do BBB apareciam no jogo?
Essa é uma das maiores diferenças em relação ao que muita gente imagina ao lembrar do game. Apesar da licença oficial, os personagens eram completamente fictícios. Em vez de controlar Bambam ou outro participante conhecido, havia nomes próprios criados exclusivamente para o jogo.
A tela de seleção apresentava os 12 personagens acompanhados de características como carisma, humor, comunicação, caráter, preparo físico, libido, higiene e estado emocional. Era quase a criação de um elenco alternativo do BBB.

O BBB ganhou outros jogos depois
Big Brother Brasil: O Jogo não foi a última tentativa de transformar o reality em videogame. Em 2005 surgiu Meu Big Brother, desta vez para celulares. A ideia lembrava um Tamagotchi: o jogador cuidava dos participantes reais do BBB 5, edição de Jean Wyllys e Grazi Massafera, acompanhando alimentação, higiene e atividades.
O projeto era especialmente curioso para a tecnologia da época. Ele recebia informações relacionadas ao que estava acontecendo no programa e precisou ser adaptado para cerca de 35 modelos diferentes de celulares, em um período anterior à padronização trazida por iPhone e Android.
Já em 2010 apareceu Big Brother Brasil 3D Online, desenvolvido pela Green Land Studios. A tentativa adotava gráficos 3D mais realistas e elementos online inspirados nos MMORPGs populares naquele período. Nenhum deles, porém, possui hoje o mesmo charme estranho daquele primeiro simulador.
Se a nostalgia bateu, o Overdrive também reuniu cinco jogos da geração PS3 e Xbox 360 que ainda fazem muita falta e uma seleção de jogos brasileiros que vale conhecer no PC atualmente.
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