Christopher Nolan não demora para mostrar o tamanho de A Odisseia. O cavalo de Troia aparece meio enterrado na praia, pesado e sujo, enquanto soldados gregos se espremem dentro da estrutura esperando que o plano de Odisseu funcione. Não há elegância na cena. Os homens estão cansados, desconfortáveis e cercados pelo cheiro da guerra.
É uma boa apresentação para o filme e para seu protagonista. O Odisseu de Matt Damon não é tratado como uma estátua viva. Quando surge de verdade, já está envelhecido, com o rosto marcado e quase incapaz de separar as próprias lembranças das histórias contadas sobre ele.
A Odisseia funciona melhor quando observa essa distância entre homem e lenda. O problema é que Nolan tem monstros, batalhas, deuses, ilhas e quase três horas para administrar. O filme passa tanto tempo preparando a próxima grande sequência que, em vários momentos, deixa seus personagens para trás.
Odisseu venceu a guerra, mas não conseguiu voltar para casa
A história acompanha Odisseu depois da Guerra de Troia. O rei de Ítaca tenta reencontrar Penélope e Telêmaco, mas sua viagem de volta se estende por anos. Durante o percurso, ele perde navios, companheiros e boa parte da certeza de que ainda merece retornar.
Nolan monta essa jornada fora de ordem. O presente em Ítaca se mistura com lembranças da guerra, passagens pela ilha de Calipso e relatos sobre as criaturas encontradas no mar. A estrutura fragmentada combina com um homem que parece viver preso dentro da própria memória.

Em vez de seguir cada etapa como uma aventura separada, o filme trata tudo como partes de um trauma que Odisseu ainda tenta entender. A destruição de Troia retorna em flashes. A vitória militar deixa de parecer um triunfo quando aparecem as consequências do ataque.
O roteiro também evita transformar o protagonista em herói impecável. Odisseu fala sobre honra, mas quebra seus códigos quando isso facilita a sobrevivência. Ele toma decisões ruins, desafia os deuses e custa caro aos homens que o seguem.
Matt Damon é a escolha certa para essa versão do personagem. Sua atuação não depende de discursos grandiosos. O peso aparece no corpo, no olhar e na forma como Odisseu reage quando alguém questiona suas escolhas.
Mesmo nos momentos em que o roteiro corre, Damon segura a ideia central do filme: voltar para casa não significa necessariamente voltar a ser quem se era antes da guerra.
Os monstros são melhores quando Nolan deixa a fantasia ficar “estranha”
A longa viagem permite que Nolan monte várias sequências de escala enorme. Algumas estão entre as melhores de sua carreira.
O encontro com o ciclope Polifemo transforma uma história conhecida em uma cena de suspense. Odisseu e seus homens entram numa caverna escura, roubam o que encontram e percebem tarde demais que estão presos com uma criatura muito maior do que eles.
O filme ainda encontra espaço para mostrar Polifemo como vítima daquela invasão. Odisseu não entra ali para enfrentar um inimigo. Ele invade uma casa, pega o que não lhe pertence e responde com violência quando a situação sai do controle.
A passagem pela ilha de Circe funciona ainda melhor. Samantha Morton aparece por pouco tempo, mas domina a sequência. Sua personagem recebe os soldados com comida antes de revelar algo muito mais perturbador. A transformação dos homens em porcos evita o tom de fantasia leve e assume uma aparência física, desconfortável e quase nojenta.

É o momento em que A Odisseia parece menos preocupado em parecer respeitável e simplesmente abraça o horror daquele mito.
Nem todas as criaturas recebem o mesmo tratamento. Algumas passam rápido demais, quase como itens de uma lista que o filme precisava cumprir. Há perigos enormes apresentados e descartados antes que consigam deixar alguma impressão.
Calipso também sofre com o excesso de retornos. Charlize Theron dá à personagem uma presença sedutora e melancólica, mas as cenas na ilha se repetem até perderem parte da força. Odisseu está preso num lugar confortável, longe da guerra e da responsabilidade, mas o filme demora a avançar essa ideia.
Zendaya aparece como Atena, presença divina que acompanha e julga o protagonista. Visualmente, a personagem chama atenção. Dramaticamente, recebe pouco para fazer além de observar Odisseu com reprovação.
Penélope passa anos esperando e ainda recebe pouco espaço
Enquanto Odisseu cruza o mar, Penélope tenta impedir que Ítaca seja tomada pelos homens que ocupam seu palácio.
Anne Hathaway interpreta a personagem como alguém que aprendeu a esconder o cansaço. Os pretendentes comem a comida da família, bebem seu vinho e aguardam que ela escolha um novo marido. A decisão também define quem assumirá o reino e o que acontecerá com Telêmaco.
O filme entende o peso político da situação. Penélope governa Ítaca, mas não pode ocupar formalmente o lugar do marido. Adiar o casamento é a única maneira de preservar o que restou de sua casa.
Mesmo assim, ela acaba presa ao papel de mulher que espera.
A Odisseia dedica muito mais tempo aos conflitos, culpas e escolhas dos homens. Penélope participa de uma das relações mais importantes da história, mas raramente ganha espaço para existir fora da ausência de Odisseu.
Tom Holland enfrenta algo parecido como Telêmaco. O personagem cresceu ouvindo histórias sobre um pai que não conheceu e parte em busca de notícias antes que os pretendentes assumam o controle. Holland funciona como o jovem ainda tentando descobrir qual tipo de homem deseja ser, mas perde espaço na segunda metade.

Robert Pattinson aproveita melhor suas cenas como Antínoo. Seu personagem é arrogante, cruel e completamente seguro de que Penélope acabará cedendo. Pattinson interpreta o vilão sem tentar esconder a maldade sob camadas de charme. Cada sorriso parece uma ameaça.
John Leguizamo também se destaca como Eumeu, servo que permaneceu fiel a Odisseu. A espera dele pelo retorno do rei acaba sendo uma das relações mais sinceras do filme.
O IMAX entrega o espetáculo prometido
A Odisseia foi filmado inteiramente com câmeras IMAX, e isso aparece em cada grande sequência. Os navios não parecem objetos digitais flutuando sobre água artificial. Eles cortam o mar, balançam com as ondas e passam uma sensação constante de fragilidade.
O mesmo vale para o cavalo de Troia. A estrutura parece realmente pesada. Quando os troianos tentam arrastá-la pela areia, o esforço está nos corpos dos atores e no movimento dos troncos usados como apoio.

Hoyte van Hoytema trabalha com uma paleta de azuis, cinzas e tons de terra. O resultado combina com a história de um homem que passou anos longe de casa, embora algumas paisagens pareçam frias demais. Há praias, penhascos e mares enormes, mas nem sempre se sente o calor ou a textura desses lugares.
Ludwig Göransson acompanha as cenas com uma trilha marcada por percussão e sons graves. Em batalhas e tempestades, o áudio ajuda a aumentar a sensação de perigo. O problema aparece quando música, efeitos e diálogos disputam o mesmo espaço.
Algumas falas ficam difíceis de entender, algo especialmente incômodo num filme que depende tanto de histórias contadas pelos próprios personagens.
A montagem mantém o ritmo acelerado durante quase todos os 173 minutos. Há pouca gordura, mas também falta tempo para certas cenas respirarem. O reencontro com personagens importantes acontece e logo precisa abrir espaço para o próximo evento.
A Odisseia é um filme longo que, curiosamente, parece estar sempre com pressa.
Uma história sobre voltar diferente
O melhor conflito do filme não envolve monstros. Odisseu quer voltar para casa, mas passa boa parte da jornada evitando encarar o que fará quando chegar lá.
A guerra transformou o personagem. Ele perdeu homens, tomou decisões cruéis e construiu uma fama baseada em atos que agora o perseguem. A volta a Ítaca exige que ele aceite isso, embora o roteiro nem sempre ofereça tempo suficiente para desenvolver a mudança.

O trecho final ganha força quando o espetáculo diminui e o filme se concentra no palácio. A casa de Odisseu foi ocupada por pretendentes que abusaram da hospitalidade de Penélope durante anos. O retorno do rei coloca frente a frente a lenda contada nas primeiras cenas e o homem que finalmente conseguiu chegar.
Nolan conduz o acerto de contas com violência e tensão, mas não transforma a vingança numa vitória limpa. Odisseu recupera o espaço que era seu, embora continue carregando tudo o que fez para chegar até ali.
Esse desconforto impede que o final vire uma celebração simples do herói.
Vale a pena assistir A Odisseia?

A Odisseia transforma o poema de Homero num blockbuster enorme, filmado com peso físico e cheio de sequências que justificam a ida ao IMAX. O cavalo de Troia, o ciclope e a passagem por Circe mostram Christopher Nolan no controle de uma produção que poucos cineastas conseguiriam realizar.
Matt Damon também encontra uma boa versão de Odisseu. Seu personagem está cansado, culpado e longe da figura heroica celebrada nas histórias sobre a guerra.
O filme perde força quando tenta dar conta de todos os episódios da viagem. Penélope, Telêmaco, Atena e parte do elenco recebem menos espaço do que deveriam. A pressa ainda enfraquece reencontros e despedidas que precisavam durar um pouco mais. A Odisseia oferece imagens difíceis de esquecer. O drama familiar, que deveria sustentar todo esse tamanho, porém, nem sempre chega com a mesma força.

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