Na minha terceira descida em Hell Clock, eu já não estava mais jogando um roguelite: estava jogando de Lucian. Disparo básico com o revólver, passo para trás, dash entre dois zumbis, mais dois tiros, reposicionamento. O kiting constante de um atirador de League of Legends, transplantado para um mapa isométrico onde o cenário é o sertão da Bahia transformado em purgatório. Quando percebi, tinha passado uma hora encadeando runs sem olhar o relógio de verdade, só o relógio do jogo.
Hell Clock é o novo trabalho da brasileira Rogue Snail, estúdio de Chroma Squad e Relic Hunters, publicado pela Mad Mushroom. Lançado no PC em julho de 2025, o jogo chegou agora ao PS5 e ao Xbox Series X|S em um pacote generoso: a versão de console já inclui Cursed War, a primeira grande expansão, que adiciona um ato inteiro ambientado na Guerra do Paraguai. E a tese deste review é simples: Hell Clock é o ARPG mais autoral que joguei nos últimos anos, e a versão de PS5 é a melhor porta de entrada para ele.
O ponto de partida é a Guerra de Canudos. Em 1897, o arraial liderado por Antônio Conselheiro foi arrasado pelo exército da recém-nascida República, num massacre que deixou cerca de 25 mil mortos no sertão baiano. Hell Clock pega esse capítulo que todo brasileiro estudou na escola e o transforma em fantasia sombria: você controla Pajeú, um guerreiro que desce ao inferno para resgatar a alma do Conselheiro, seu mentor, enfrentando versões demoníacas das figuras que comandaram a chacina.
Canudos vira fantasia sombria sem perder o peso da história

O que impressiona é o respeito com que o material é tratado. Os chefes são caricaturas monstruosas de personagens reais do conflito, incluindo um canhão gigante que remete à Matadeira, a Whitworth 32 que o exército arrastou pelo sertão para bombardear o arraial. As relíquias que você coleta trazem citações de escritores e músicos brasileiros, e a direção de arte usa traços grossos de xilogravura nordestina, com contornos pretos e cores que saltam da tela.
Em nenhum momento o jogo martela a mensagem. A tragédia está no cenário, nos diálogos curtos com almas penadas e na fúria contida de Pajeú. Quem quiser só apertar o botão da faca giratória vai se divertir do mesmo jeito, mas quem prestar atenção sai do jogo querendo reler sobre Canudos. Poucos jogos conseguem esse equilíbrio.
O combate parece Hades jogado com um atirador de MOBA
A comparação com Hades é inevitável e a Rogue Snail sabe disso. A movimentação tem a mesma agilidade, o dash tem o mesmo peso e o loop de morrer, voltar para a base e ficar mais forte segue a cartilha da Supergiant. Só que a sensação nas mãos é outra. Pajeú luta com um revólver, e o ritmo de atirar, recuar e reposicionar lembra muito mais o microgerenciamento de um ADC de MOBA do que o combate corpo a corpo de Zagreus.

Esse híbrido funciona porque as habilidades conversam entre si. Comecei com o tiro múltiplo e a rajada de balas, depois migrei para uma build de facas com roubo de vida que me deixou praticamente imortal no segundo ato. Cada nível ganho durante a run oferece três melhorias para as habilidades equipadas, e as estátuas espalhadas pelos andares vendem bênçãos que redirecionam a build no meio do caminho. No DualSense, a mira assistida marca o alvo com contorno vermelho e resolve bem a falta do mouse, e recomendo mover as habilidades para os gatilhos logo no início.
A dublagem nordestina é o acabamento mais bonito do jogo
Aqui está o detalhe que me ganhou de vez: Hell Clock é integralmente dublado em português, e com sotaques nordestinos de verdade. Os personagens falam como gente do sertão, com expressões e ditados que a localização de um jogo estrangeiro jamais entregaria. O vilão esconde o preconceito atrás de pseudociência e consegue ser odiável só pelo tom de voz, o que é o maior elogio possível a um trabalho de dublagem.

A trilha sonora acompanha o capricho, com instrumentação regional que cresce nos momentos certos. Para um público acostumado a jogar tudo legendado, ouvir um jogo desse porte soando genuinamente brasileiro tem um impacto difícil de descrever. É o tipo de acabamento que nenhum estúdio de fora conseguiria replicar.
O relógio muda a forma de pensar cada descida
O relógio do título é a grande aposta de design. Cada run começa com sete minutos no cronômetro, e quando ele zera, a descida acaba. Derrotar chefes e sobreviver às arenas de horda devolve tempo, e a árvore de progressão permanente permite esticar o limite, mas a pressão nunca some por completo. Abrir um baú fora do caminho vira uma aposta. Encarar um elite cheio de vida ou correr para a saída vira uma decisão de segundos.

Quem não curte esse tipo de tensão tem saída: o Modo Tranquilo desliga o cronômetro por completo. Testei por curiosidade e desaconselho, porque sem o relógio o jogo degringola numa guerra de atrito contra inimigos esponja. O design foi construído em volta da pressão do tempo, e é com ela que Hell Clock brilha.
A build é a verdadeira protagonista, para o bem e para o mal
Entre uma descida e outra, o jogo vira um quebra-cabeça de otimização. As relíquias ocupam espaços de tamanhos diferentes num inventário em grade, num Tetris que define quais habilidades ganham efeitos novos, e a árvore do Grande Sino distribui melhorias permanentes de vida, dano e resistências. Somando as Constelações do endgame e as dezenas de relíquias novas de Cursed War, a variedade de builds é enorme.

O problema é que as batalhas mais difíceis se vencem no menu, e não no controle. Em mais de uma ocasião esbarrei num muro de progresso, com um chefe de barra de vida monumental que descia em conta-gotas apesar de eu atravessar os andares anteriores sem esforço. A resposta nunca foi jogar melhor, e sim encerrar a run, gastar pedras de alma e voltar mais forte. Fãs de Path of Exile vão se sentir em casa.
Quem esperava o teste de habilidade de um Hades vai estranhar. Os cenários também se repetem rápido demais: os temas mudam entre os atos, mas corredores e salas seguem os mesmos moldes, e depois de vinte runs você conhece cada esquina do purgatório.
Vale a pena jogar Hell Clock?
Vale, e no PS5 o pacote ficou ainda mais interessante, porque a versão de console já sai com a campanha completa, o endgame e a expansão Cursed War no preço. Fãs de ARPG e roguelite encontram aqui dezenas de horas de otimização de build com uma identidade que nenhum Diablo ou Hades oferece.
Quem tem paciência curta para grind deve considerar o Modo Tranquilo ou esperar novos ajustes de balanceamento, área em que a Rogue Snail vem sendo ativa desde o lançamento no PC. E para qualquer jogador brasileiro, existe um valor à parte em ver a nossa história, a nossa arte e o nosso sotaque tratados com esse nível de carinho num jogo do gênero.
Review feito com código cedido pela Mad Mushroom.


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