Últimas

Hell Clock chega ao PS5 e prova que a Guerra de Canudos rendeu um ARPG de primeira

Roguelite da Rogue Snail chega aos consoles com a expansão Cursed War inclusa, dublagem nordestina impecável e um combate que vicia

ReviewHell Clock Hell Clock chega ao PS5 e prova que a Guerra de Canudos rendeu um ARPG de primeira
Compartilhar

Ficha de avaliação

8.5/10
Resumo

Hell Clock combina roguelite e ARPG em uma releitura de fantasia sombria da Guerra de Canudos. No PS5, o jogo chega com a expansão Cursed War inclusa, dublagem completa em português com sotaques nordestinos e um sistema de builds profundo baseado em relíquias e habilidades. Cenários repetitivos e picos de dificuldade em chefes esponja seguram o pacote, mas não comprometem uma das experiências mais autorais do gênero.

Abrir ou fechar prós e contras

Prós

  • Dublagem em português com sotaques nordestinos de altíssimo nível
  • Combate ágil e satisfatório, com kiting de revólver que vicia
  • Sistema de builds profundo entre relíquias, habilidades e constelações
  • Ambientação na Guerra de Canudos tratada com respeito e identidade visual de xilogravura
  • Versão de PS5 já inclui a expansão Cursed War

Contras

  • Layouts de cenário se repetem rápido demais
  • Picos de dificuldade com chefes esponja
  • Progresso depende mais do menu do que da habilidade do jogador
  • GAMEHell Clock
  • PLATAFORMAPC, PS5, Xbox Series X, S
  • GÊNERORoguelite
  • DESENVOLVEDORARogue Snail
  • PUBLISHERMad Mushroom
  • LANÇAMENTO22/07/2025 (PC), 09/07/2026 (consoles)

Na minha terceira descida em Hell Clock, eu já não estava mais jogando um roguelite: estava jogando de Lucian. Disparo básico com o revólver, passo para trás, dash entre dois zumbis, mais dois tiros, reposicionamento. O kiting constante de um atirador de League of Legends, transplantado para um mapa isométrico onde o cenário é o sertão da Bahia transformado em purgatório. Quando percebi, tinha passado uma hora encadeando runs sem olhar o relógio de verdade, só o relógio do jogo.

Hell Clock é o novo trabalho da brasileira Rogue Snail, estúdio de Chroma Squad e Relic Hunters, publicado pela Mad Mushroom. Lançado no PC em julho de 2025, o jogo chegou agora ao PS5 e ao Xbox Series X|S em um pacote generoso: a versão de console já inclui Cursed War, a primeira grande expansão, que adiciona um ato inteiro ambientado na Guerra do Paraguai. E a tese deste review é simples: Hell Clock é o ARPG mais autoral que joguei nos últimos anos, e a versão de PS5 é a melhor porta de entrada para ele.

O ponto de partida é a Guerra de Canudos. Em 1897, o arraial liderado por Antônio Conselheiro foi arrasado pelo exército da recém-nascida República, num massacre que deixou cerca de 25 mil mortos no sertão baiano. Hell Clock pega esse capítulo que todo brasileiro estudou na escola e o transforma em fantasia sombria: você controla Pajeú, um guerreiro que desce ao inferno para resgatar a alma do Conselheiro, seu mentor, enfrentando versões demoníacas das figuras que comandaram a chacina.

Canudos vira fantasia sombria sem perder o peso da história

Hell Clock

O que impressiona é o respeito com que o material é tratado. Os chefes são caricaturas monstruosas de personagens reais do conflito, incluindo um canhão gigante que remete à Matadeira, a Whitworth 32 que o exército arrastou pelo sertão para bombardear o arraial. As relíquias que você coleta trazem citações de escritores e músicos brasileiros, e a direção de arte usa traços grossos de xilogravura nordestina, com contornos pretos e cores que saltam da tela.

Em nenhum momento o jogo martela a mensagem. A tragédia está no cenário, nos diálogos curtos com almas penadas e na fúria contida de Pajeú. Quem quiser só apertar o botão da faca giratória vai se divertir do mesmo jeito, mas quem prestar atenção sai do jogo querendo reler sobre Canudos. Poucos jogos conseguem esse equilíbrio.

O combate parece Hades jogado com um atirador de MOBA

A comparação com Hades é inevitável e a Rogue Snail sabe disso. A movimentação tem a mesma agilidade, o dash tem o mesmo peso e o loop de morrer, voltar para a base e ficar mais forte segue a cartilha da Supergiant. Só que a sensação nas mãos é outra. Pajeú luta com um revólver, e o ritmo de atirar, recuar e reposicionar lembra muito mais o microgerenciamento de um ADC de MOBA do que o combate corpo a corpo de Zagreus.

Hell Clock

Esse híbrido funciona porque as habilidades conversam entre si. Comecei com o tiro múltiplo e a rajada de balas, depois migrei para uma build de facas com roubo de vida que me deixou praticamente imortal no segundo ato. Cada nível ganho durante a run oferece três melhorias para as habilidades equipadas, e as estátuas espalhadas pelos andares vendem bênçãos que redirecionam a build no meio do caminho. No DualSense, a mira assistida marca o alvo com contorno vermelho e resolve bem a falta do mouse, e recomendo mover as habilidades para os gatilhos logo no início.

A dublagem nordestina é o acabamento mais bonito do jogo

Aqui está o detalhe que me ganhou de vez: Hell Clock é integralmente dublado em português, e com sotaques nordestinos de verdade. Os personagens falam como gente do sertão, com expressões e ditados que a localização de um jogo estrangeiro jamais entregaria. O vilão esconde o preconceito atrás de pseudociência e consegue ser odiável só pelo tom de voz, o que é o maior elogio possível a um trabalho de dublagem.

Hell Clock

A trilha sonora acompanha o capricho, com instrumentação regional que cresce nos momentos certos. Para um público acostumado a jogar tudo legendado, ouvir um jogo desse porte soando genuinamente brasileiro tem um impacto difícil de descrever. É o tipo de acabamento que nenhum estúdio de fora conseguiria replicar.

O relógio muda a forma de pensar cada descida

O relógio do título é a grande aposta de design. Cada run começa com sete minutos no cronômetro, e quando ele zera, a descida acaba. Derrotar chefes e sobreviver às arenas de horda devolve tempo, e a árvore de progressão permanente permite esticar o limite, mas a pressão nunca some por completo. Abrir um baú fora do caminho vira uma aposta. Encarar um elite cheio de vida ou correr para a saída vira uma decisão de segundos.

Hell Clock

Quem não curte esse tipo de tensão tem saída: o Modo Tranquilo desliga o cronômetro por completo. Testei por curiosidade e desaconselho, porque sem o relógio o jogo degringola numa guerra de atrito contra inimigos esponja. O design foi construído em volta da pressão do tempo, e é com ela que Hell Clock brilha.

A build é a verdadeira protagonista, para o bem e para o mal

Entre uma descida e outra, o jogo vira um quebra-cabeça de otimização. As relíquias ocupam espaços de tamanhos diferentes num inventário em grade, num Tetris que define quais habilidades ganham efeitos novos, e a árvore do Grande Sino distribui melhorias permanentes de vida, dano e resistências. Somando as Constelações do endgame e as dezenas de relíquias novas de Cursed War, a variedade de builds é enorme.

Hell Clock

O problema é que as batalhas mais difíceis se vencem no menu, e não no controle. Em mais de uma ocasião esbarrei num muro de progresso, com um chefe de barra de vida monumental que descia em conta-gotas apesar de eu atravessar os andares anteriores sem esforço. A resposta nunca foi jogar melhor, e sim encerrar a run, gastar pedras de alma e voltar mais forte. Fãs de Path of Exile vão se sentir em casa.

Quem esperava o teste de habilidade de um Hades vai estranhar. Os cenários também se repetem rápido demais: os temas mudam entre os atos, mas corredores e salas seguem os mesmos moldes, e depois de vinte runs você conhece cada esquina do purgatório.

Vale a pena jogar Hell Clock?

Vale, e no PS5 o pacote ficou ainda mais interessante, porque a versão de console já sai com a campanha completa, o endgame e a expansão Cursed War no preço. Fãs de ARPG e roguelite encontram aqui dezenas de horas de otimização de build com uma identidade que nenhum Diablo ou Hades oferece.

Quem tem paciência curta para grind deve considerar o Modo Tranquilo ou esperar novos ajustes de balanceamento, área em que a Rogue Snail vem sendo ativa desde o lançamento no PC. E para qualquer jogador brasileiro, existe um valor à parte em ver a nossa história, a nossa arte e o nosso sotaque tratados com esse nível de carinho num jogo do gênero.

Review feito com código cedido pela Mad Mushroom.

Mais reviews de Murilo Fraga

Ver publicações

Comentários

Participe da conversa com respeito e contribua com a comunidade do Overdrive.

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos com * são obrigatórios.

Seja claro, respeitoso e evite compartilhar dados pessoais.

Ainda não há comentários. Seja a primeira pessoa a participar da conversa.

Mais de Game Overdrive

Ver mais

Últimas publicações

Ver últimas

Reviews recentes

Todas as reviews