A Odisseia não conta uma história real no sentido tradicional. Não há provas de que Odisseu tenha sido um rei histórico, que tenha passado dez anos perdido no mar ou que tenha enfrentado um ciclope antes de retornar para Penélope.
A base do filme de Christopher Nolan é o poema épico atribuído a Homero, composto por volta dos séculos 8 ou 7 a.C. A obra surgiu de uma tradição oral muito anterior ao texto escrito. Durante gerações, poetas contaram e modificaram essas histórias diante do público até que uma versão fosse registrada.
Isso não significa que tudo tenha saído do nada. A narrativa usa lugares reais e pode conservar lembranças distantes de conflitos ocorridos no mundo grego antigo. A partir daí, entra o mito: deuses controlam tempestades, feiticeiras transformam homens em animais e criaturas gigantes devoram marinheiros.
Qual é a história de A Odisseia?
A trama começa depois da Guerra de Troia. Odisseu, rei de Ítaca, passou dez anos lutando e agora tenta voltar para casa. A viagem, que deveria ser relativamente curta, dura outra década.
Durante sua ausência, Penélope permanece em Ítaca com o filho, Telêmaco. Diversos pretendentes ocupam o palácio, consomem os bens da família e pressionam a rainha a escolher um novo marido. Como Odisseu não dá notícias, todos trabalham com a possibilidade de que ele esteja morto.

Enquanto isso, o rei perde seus navios e toda a tripulação. Ele encontra o ciclope Polifemo, passa pela ilha da feiticeira Circe, ouve o canto das sereias e chega ao mundo dos mortos. Também permanece preso por anos com Calipso antes de receber autorização divina para continuar a viagem.
Quando finalmente alcança Ítaca, Odisseu retorna disfarçado de mendigo. Ele reencontra Telêmaco, enfrenta os pretendentes de Penélope e precisa provar à esposa que é realmente o homem que partiu vinte anos antes. O poema é dividido em 24 livros e concentra boa parte de sua ação nas últimas semanas dessa jornada.
Odisseu existiu de verdade?
Não existe comprovação histórica de que Odisseu tenha sido uma pessoa real.
O personagem pode ter surgido antes da versão atribuída a Homero, dentro de histórias transmitidas oralmente entre diferentes povos. Ainda assim, não há documentos, inscrições ou restos arqueológicos capazes de confirmar sua existência como rei de Ítaca.

Até a identidade de Homero é discutida. Pesquisadores não chegaram a um consenso sobre ele ter sido um poeta específico, um nome ligado a uma tradição coletiva ou a figura usada posteriormente para reunir diferentes composições. Os poemas passaram por séculos de apresentações orais, o que dificulta separar uma possível lembrança histórica das mudanças feitas por cada contador.
O Odisseu conhecido hoje deve ser tratado como personagem literário e mitológico.
A Guerra de Troia aconteceu?
É possível que a Guerra de Troia tenha alguma base em conflitos reais, mas o episódio descrito pela tradição grega não pode ser tomado como relato histórico preciso.
Troia corresponde a uma região real da atual Turquia. Ítaca também existe e pertence ao conjunto das Ilhas Jônicas, na Grécia. O problema começa quando se tenta transformar a rota de Odisseu em um mapa confiável.
As paisagens visitadas pelo personagem misturam o Mediterrâneo conhecido pelos antigos gregos com lugares inteiramente míticos. Não há localização confirmada para as ilhas de Circe e Calipso, para a terra dos ciclopes ou para o reino dos feácios. Pesquisadores já tentaram reconstruir a viagem, mas os elementos fantásticos tornam essa tarefa praticamente impossível.
Mesmo Ítaca gera discussão. A ilha moderna leva o mesmo nome, porém não existe certeza de que corresponda exatamente ao reino imaginado pelo poema.
O cavalo de Troia é real?
Também não há comprovação de que os gregos tenham escondido soldados dentro de um enorme cavalo para invadir Troia.
O episódio faz parte da tradição mitológica sobre a guerra, mas não é narrado diretamente em A Odisseia. O poema menciona o plano e seus participantes, sem apresentar uma longa descrição da construção e da invasão.

O filme de Christopher Nolan amplia essa parte da história. Em vez de adaptar somente os acontecimentos do poema, a produção reúne elementos de outras narrativas ligadas à Guerra de Troia. A obra começa com o cavalo e mostra acontecimentos anteriores à viagem de Odisseu, enquanto o texto homérico começa no meio da ação, quando o rei já está desaparecido há anos.
Essa mudança ajuda o filme a apresentar a guerra, a reputação de Odisseu e o peso do que ocorreu em Troia antes da viagem de volta.
Quais partes são totalmente mitológicas?
Os deuses e monstros pertencem claramente ao campo da mitologia.
Poseidon não criou tempestades para impedir o retorno de Odisseu. Atena não assumiu disfarces para orientar Telêmaco. Circe não transformou marinheiros em porcos, e não há evidências da existência de sereias, ciclopes ou gigantes canibais.
Esses elementos cumpriam funções dentro da narrativa. Os deuses ajudavam a explicar acontecimentos imprevisíveis, como tempestades e naufrágios. Os monstros transformavam perigos da navegação em histórias fáceis de lembrar. Uma ilha desconhecida podia virar o lar de uma feiticeira; uma passagem marítima perigosa, o território de criaturas mortais.
A viagem também fala sobre problemas humanos bem reconhecíveis. Odisseu perde companheiros por decisões ruins, enfrenta as consequências do próprio orgulho e volta para uma casa que mudou durante sua ausência.
Penélope e Telêmaco foram pessoas reais?
Não há evidências de que Penélope e Telêmaco tenham existido fora da tradição mitológica.
Penélope representa a permanência em Ítaca e a tentativa de proteger a casa durante a ausência do marido. Seu truque mais famoso consiste em prometer que escolherá um pretendente quando terminar uma mortalha. Durante a noite, ela desfaz o trabalho realizado durante o dia e adia a decisão.

Telêmaco era apenas um bebê quando Odisseu partiu. Ao chegar à vida adulta, sai em busca de notícias e precisa lidar com homens que pretendem tomar o lugar de seu pai.
Os dois ocupam uma parte importante do poema. Os quatro primeiros livros acompanham principalmente Telêmaco, enquanto Penélope desenvolve suas próprias estratégias para resistir à pressão dos pretendentes.
Então qual é a parte “real” de A Odisseia?
A parte mais próxima da realidade está no contexto humano por trás do mito.
Povos antigos cruzavam o Mediterrâneo, enfrentavam tempestades, naufrágios e longos períodos longe de casa. Guerras podiam durar anos, destruir cidades e deixar soldados incapazes de retomar a vida anterior. Reis morriam longe de seus territórios, enquanto disputas pelo poder surgiam durante a ausência.
A Odisseia pegou essa experiência reconhecível e a transformou numa história de deuses, monstros e provas impossíveis.
Odisseu pode nunca ter existido. Sua dificuldade para voltar da guerra, reconhecer a própria casa e recuperar o lugar que deixou para trás continua bastante real.
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