Crítica de The Last of Us S2E2 – Através do Vale

Capítulo expande um dos momentos mais brutais da história, transforma Jackson em campo de guerra e entrega um impacto à altura do peso da narrativa

Crítica de The Last of Us S2E2 – Através do Vale

Ficha da crítica

9/10
TÓPICOS

Com mudanças importantes e uma expansão considerável dos acontecimentos, o segundo episódio da segunda temporada de The Last of Us foi ao ar no domingo (20), pela HBO, deixando claro que a adaptação continua interessada em provocar no público da série uma sensação equivalente à de quem viveu essa história no jogo. Era um dos capítulos mais aguardados desde a oficialização da produção, e não por acaso.

Cheio de ação, tensão e peso dramático, o episódio confirma mais uma vez a força do trabalho de Craig Mazin e também o alcance emocional do universo criado por Neil Druckmann. The Last of Us segue provando que seus personagens e conflitos funcionam muito além da linguagem dos videogames. Não é preciso estar com um controle nas mãos para sentir o que essa história quer causar.

Mais uma vez, vale o aviso: esta crítica não traz spoilers do jogo além do que já foi mostrado na série.

Através do Vale carrega o peso de um momento decisivo

O título do episódio faz referência a Through the Valley, música de Shawn James que aparece ao final do capítulo em uma versão cantada por Ashley Johnson. A escolha não é aleatória. Ashley, que interpretou Ellie nos jogos e já havia aparecido na série como a mãe da personagem, entra aqui como parte de um fechamento que ecoa diretamente o estado emocional de Ellie depois de tudo o que acontece.

Essa inserção funciona porque o episódio inteiro gira em torno de uma missão muito específica e nada simples: adaptar um dos momentos mais marcantes e dolorosos da última década nos videogames. E a série consegue.

Mesmo sabendo exatamente para onde a história caminhava, a sensação de agonia se manteve durante todo o episódio. Isso só acontece porque o roteiro sabe construir a tensão com paciência, segurando o encontro entre Abby e Joel de um jeito que ainda funciona mesmo para quem já conhece o desfecho. O impacto não depende só da surpresa. Depende da forma.

A série continua expandindo o que o jogo sugeria

Uma das decisões mais claras desta adaptação é tratar a série não apenas como reprodução do jogo, mas como espaço de expansão. O segundo episódio reforça isso de maneira direta.

No material original, por exemplo, não existe uma invasão de infectados a Jackson da forma como vemos aqui. Joel está com Tommy no encontro com Abby, e Ellie permanece com Dina até a neve passar. A série reorganiza essas peças e amplia o escopo do episódio, criando uma dimensão ainda maior para a tragédia que está no centro do capítulo.

São mudanças relevantes, e algumas delas certamente vão influenciar o caminho da narrativa daqui para frente.

A HBO transforma Jackson em espetáculo e terror

Esse é o tipo de episódio que também reforça como foi importante The Last of Us cair nas mãos da HBO. O valor de produção aparece em todos os níveis. A fotografia, os cenários, a escala da ação e o trabalho técnico da equipe fazem Jackson parecer ao mesmo tempo real, grandiosa e vulnerável.

A sequência da fuga de Abby na montanha, em meio à neve e aos infectados, é especialmente forte. Há um senso físico de risco ali, e o fato de parte dessas cenas ter sido filmada em nevasca real só ajuda a perceber o nível de entrega da produção. O making of que acompanha o episódio ajuda a dimensionar ainda melhor esse esforço.

A invasão de Jackson amplia a sensação de colapso

As cenas da invasão funcionam muito bem porque não parecem apenas um acréscimo de ação. Elas ajudam a transformar esse episódio em algo ainda mais devastador. Jackson deixa de ser só um refúgio ameaçado e vira um campo de guerra.

É nesse momento que o episódio encontra uma escala rara para a série. A comunidade luta, explode infectados, improvisa defesa e tenta sobreviver ao caos. Há uma energia de grande batalha ali, em um nível que lembra certos momentos em que produções televisivas de alto orçamento realmente decidem ocupar a tela com tudo o que têm.

A aparição do Baiacu e o confronto com Tommy ajudam a reforçar isso. A sequência do lança-chamas funciona muito bem e ainda conversa com a memória do jogo de forma natural, sem parecer fan service vazio.

Elenco sustenta o episódio onde ele mais precisava

Um capítulo com esse peso dependia muito da entrega dos atores, e o elenco responde bem ao desafio. Pedro Pascal continua firme como Joel e entende o tom exato que o personagem pede nesses momentos. Kaitlyn Dever mostra por que Abby exigia uma presença tão específica, e a forma como conduz a personagem nesta virada da história sustenta boa parte do episódio.

Bella Ramsey encontra um registro importante para Ellie, transmitindo revolta, dor e perplexidade em uma medida que funciona dentro da proposta da série. É claro que comparações com o jogo vão surgir, mas aqui vale lembrar que estamos diante de outra construção, com outra linguagem e outra interpretação da personagem.

A cena central é fiel no essencial, mas muda no entorno

A cabana, os amigos de Abby, o taco de golfe, a sensação de impotência: o núcleo emocional da sequência está todo ali. A série entende bem quais elementos são indispensáveis para que esse momento continue tendo o peso que carrega.

Ainda assim, há mudanças importantes ao redor dessa estrutura.

A ausência de Tommy altera a dinâmica

No jogo, Tommy está com Joel quando ambos encontram Abby. Aqui, esse lugar é reorganizado. A decisão de deixar Tommy em Jackson durante o ataque provavelmente nasce da necessidade de dar a ele uma função mais ativa na defesa da comunidade, mas isso muda parte do impacto que o personagem carrega na história original.

É uma alteração curiosa, e só os próximos episódios vão mostrar se essa redistribuição realmente fortalece a adaptação ou se reduz algo importante no percurso emocional dele.

A série entrega mais cedo elementos ligados a Abby

Outra mudança relevante está na forma como a adaptação vem tratando Abby. A série já havia revelado antes informações que, no jogo, são trabalhadas de outra maneira. Aqui, isso continua.

A personagem fala de maneira muito mais aberta sobre o passado ligado ao pai e aos acontecimentos de Salt Lake City. É uma diferença grande de abordagem. Em vez de preservar esse lado por mais tempo, a série prefere antecipar parte do contexto, talvez para reorganizar a forma como o público acompanha essa trajetória.

Ainda é cedo para medir o efeito completo dessa decisão, mas ela revela com clareza que Druckmann e Mazin não estão interessados em repetir a mesma arquitetura narrativa.

O episódio encontra escala sem perder dor

O que torna Através do Vale tão forte é justamente o equilíbrio entre espetáculo e devastação íntima. O episódio cresce em escala, abre espaço para ação de alto nível e transforma Jackson em cenário de horror, mas nunca perde de vista que seu centro é emocional.

A tragédia que move o capítulo não fica menor porque o mundo ao redor explode. Pelo contrário: ela ganha ainda mais força por acontecer em meio a um colapso coletivo. O episódio é grande visualmente, mas continua muito preciso onde realmente importa.


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