A Última Casa parte de uma situação simples e fácil de entender: uma família acorda depois de uma tempestade e descobre que não consegue mais sair de casa. As portas não abrem, as janelas não quebram, a internet desapareceu e os vizinhos, vistos do outro lado da rua, parecem enfrentar exatamente o mesmo problema. Sem qualquer explicação sobre o que está acontecendo, Jason e Ann precisam encontrar uma maneira de proteger os filhos e administrar os recursos disponíveis enquanto esperam por um resgate que pode nunca chegar.
Dirigido por Louis Leterrier e estrelado por Wagner Moura e Greta Lee, o filme começa como um suspense de confinamento que funciona justamente pela simplicidade da proposta. Em vez de revelar imediatamente a origem da ameaça, a história acompanha a adaptação da família ao novo cotidiano e transforma ações rotineiras em problemas de sobrevivência. Comida passa a ser racionada, equipamentos começam a falhar e diferentes partes da residência precisam ser adaptadas conforme os dias passam.
Essa primeira parte é também a mais interessante porque o roteiro encontra bons conflitos sem precisar recorrer ao espetáculo. O problema aparece quando A Última Casa começa a acelerar demais a própria história, avançando semanas, meses e anos sem desenvolver com o mesmo cuidado as transformações emocionais de seus personagens. O resultado é um filme que consegue apresentar boas situações, mas raramente permanece tempo suficiente nelas para explorar tudo o que poderia.
A sobrevivência é a melhor parte de A Última Casa
Jason é apresentado como um engenheiro desempregado que também gosta de pescar, e o filme utiliza essas duas características de maneira funcional. À medida que os recursos diminuem, ele tenta encontrar soluções para produzir comida, proteger a casa e manter a família segura. Ann também participa diretamente dessas adaptações, principalmente quando passa a pensar em formas de cultivar alimentos dentro da residência.
É nesse aspecto mais prático que A Última Casa encontra uma identidade própria. A casa deixa de ser apenas o cenário onde a história acontece e começa a acompanhar a situação dos personagens. Cômodos são modificados, equipamentos improvisados aparecem e o desgaste provocado pelos anos transforma o espaço de forma gradual. A sensação é de que aquela residência realmente precisou ser reorganizada para comportar uma família obrigada a permanecer ali por tempo indeterminado.

A direção de arte ajuda bastante nesse processo. O mesmo espaço que inicialmente parece confortável e organizado vai ficando mais deteriorado e improvisado conforme a situação se prolonga. A passagem de tempo aparece nas paredes, nos objetos acumulados e na maneira como os ambientes são utilizados, o que permite entender visualmente o quanto a vida dos personagens mudou.
O roteiro, no entanto, não consegue realizar uma transformação tão convincente quando o assunto são as pessoas que vivem ali. Graham e Ruth passam parte importante da infância completamente isolados do restante da sociedade, mas o impacto disso raramente é explorado com a profundidade esperada. Eles crescem sem escola, amigos ou qualquer contato real com o mundo exterior, enquanto a história utiliza essa passagem de tempo mais como ferramenta narrativa do que como oportunidade para aprofundar os personagens.
Quando Graham chega à adolescência e começa a questionar as decisões do pai, por exemplo, existe um conflito que faz sentido dentro da proposta. O problema é que a mudança acontece depois de saltos temporais tão grandes que parte importante da relação entre os dois ficou fora de cena. Ruth também recebe algumas características que ganham importância posteriormente, principalmente seu interesse por criaturas marítimas, mas o filme não dedica tempo suficiente para que esse aspecto pareça realmente integrado ao desenvolvimento da personagem.
Wagner Moura e Greta Lee fazem o que podem com um roteiro apressado
Wagner Moura encontra seus melhores momentos quando Jason ainda tenta racionalizar tudo o que está acontecendo. O personagem parece acreditar que qualquer problema pode ser resolvido desde que consiga entender suas regras, e essa necessidade de agir se torna importante para a forma como ele exerce o papel de pai durante o confinamento.
Com o passar do tempo, essa responsabilidade começa a se transformar em obsessão. Jason continua tentando manter a família segura, mas a necessidade de controlar todas as situações passa a afetar a relação com Ann e com os filhos. Moura consegue transmitir bem o desgaste do personagem, principalmente nos momentos em que ele já não consegue esconder o cansaço ou a insegurança diante das crianças.

O problema é que algumas dessas mudanças aparecem de forma rápida demais. A montagem avança tanto entre um momento e outro que certos conflitos parecem começar antes de o filme ter mostrado tudo o que os causou. Há cenas em que Jason passa de um comportamento relativamente controlado para uma reação muito mais intensa sem que exista uma preparação suficiente, o que prejudica o trabalho do ator.
Greta Lee enfrenta uma dificuldade semelhante. Ann participa diretamente da sobrevivência da família e funciona como uma espécie de equilíbrio diante da postura cada vez mais rígida de Jason, mas o roteiro oferece menos espaço para acompanhar seu próprio desgaste. Algumas mudanças emocionais surgem quase prontas, principalmente depois dos grandes saltos temporais, e isso faz com que parte da interpretação dependa mais do esforço da atriz do que da construção da personagem.
Ainda assim, Moura e Lee conseguem tornar a relação entre Jason e Ann mais convincente do que o roteiro permite. Há uma familiaridade entre os dois que funciona bem nas cenas menores, principalmente quando precisam tomar decisões sobre os filhos ou lidar com a frustração de não saber quando aquela situação vai terminar. É justamente por isso que fica a sensação de que A Última Casa poderia ter aproveitado melhor os dois protagonistas se tivesse dedicado mais tempo à deterioração daquela relação.
A montagem não acompanha a passagem do tempo
A Última Casa dura quase duas horas, mas existe uma sensação constante de que o filme está tentando avançar rapidamente para o próximo acontecimento. Nos primeiros minutos, a rotina dentro da casa é apresentada com algum cuidado. Os personagens conversam com os vizinhos por meio de cartazes, tentam manter hábitos familiares e procuram maneiras de continuar vivendo enquanto acreditam que o problema será resolvido em pouco tempo.
Quando a situação começa a se prolongar, a montagem passa a condensar períodos cada vez maiores. Dias viram semanas, semanas viram meses e, posteriormente, anos. Esse recurso permite que o filme mostre as consequências mais amplas do confinamento, mas também retira tempo justamente das relações que deveriam sustentar a história.

Existe uma diferença entre informar que os personagens estão presos há anos e fazer o público sentir o peso desses anos. A Última Casa consegue mostrar isso fisicamente por meio do cenário, mas não emocionalmente. Os personagens envelhecem, os filhos crescem e a casa muda, mas muitas das relações permanecem pouco definidas porque grande parte de sua transformação aconteceu fora de cena.
Isso prejudica especialmente os momentos em que o filme tenta aumentar a carga dramática. Discussões familiares, perdas e decisões importantes aparecem com frequência, mas nem sempre carregam o peso esperado porque a história segue rapidamente para a próxima situação. Algumas cenas que poderiam marcar uma mudança importante na dinâmica entre os personagens acabam funcionando apenas como mais um evento dentro de uma sequência muito acelerada.
O mistério perde força quando começa a ser explicado
A ameaça que mantém a família presa é apresentada de forma eficiente no início. A chuva dificulta a visão do lado de fora, movimentos estranhos aparecem através das janelas e existe sempre a sensação de que alguma coisa está observando a casa. Leterrier trabalha bem com reflexos, sombras e elementos do cenário para sugerir uma presença sem mostrar claramente o que existe do outro lado.
Essa falta de informação coloca os personagens e o público na mesma posição. Jason e Ann precisam tomar decisões sem entender exatamente o que estão enfrentando, enquanto qualquer detalhe observado pela janela pode ser importante. O suspense funciona porque há espaço para imaginar diferentes explicações.

Quando o filme começa a revelar mais sobre as criaturas e sobre a origem daquela situação, parte desse interesse desaparece. A ameaça ganha uma forma mais convencional e os efeitos visuais passam a ocupar um espaço maior na narrativa. O que antes parecia imprevisível começa a seguir regras mais familiares de filmes de monstros e ficção científica.
O design das criaturas também não ajuda. Elas cumprem sua função dentro das cenas de ação, mas não possuem uma presença visual forte o bastante para justificar a mudança de abordagem. Conforme aparecem mais, o filme perde parte da atmosfera construída durante a primeira metade.
Essa mudança fica especialmente evidente no terceiro ato. A preocupação com comida, espaço, recursos e deterioração da casa dá lugar a confrontos mais diretos. Leterrier possui experiência com grandes cenas de ação e consegue organizar essas sequências de forma clara, mas elas não são tão interessantes quanto os problemas apresentados anteriormente.
A ameaça de uma família ficar sem comida ou morrer dentro de uma casa que está sendo tomada pela água funciona melhor porque está diretamente ligada às regras que o filme passou boa parte do tempo estabelecendo. Quando tudo se transforma em um confronto mais tradicional contra criaturas, A Última Casa perde parte daquilo que o diferenciava.
O filme apresenta boas ideias, mas não aprofunda nenhuma delas
Além do suspense de sobrevivência, A Última Casa tenta discutir isolamento, relações familiares, mudança climática, adaptação e a maneira como os seres humanos enxergam aquilo que não conhecem. São temas que possuem relação entre si, mas o roteiro raramente consegue desenvolver qualquer um deles de forma mais profunda.
A associação com o isolamento vivido durante a pandemia é inevitável. A família passa anos limitada ao mesmo espaço, tenta manter uma rotina e observa o mundo através das janelas enquanto procura sinais de que a vida normal ainda existe. O filme utiliza essa experiência como base para a situação dos personagens, mas não faz muito além da comparação mais evidente.

A discussão ambiental também ganha importância conforme a história avança. A água ocupa um papel central, a natureza transforma o bairro e as criaturas começam a ser relacionadas a uma ideia maior sobre adaptação e convivência entre espécies. O problema está na maneira como essa mensagem surge no final.
Ruth passa a enxergar a ameaça de forma diferente da família, e seu interesse anterior por criaturas marítimas serve como preparação para essa mudança. Ainda assim, o desenvolvimento da personagem não é suficiente para que toda a resolução dependa de sua nova perspectiva sem parecer apressada.
A conclusão busca apresentar uma mensagem sobre empatia e sobre a posição dos seres humanos dentro da natureza, mas chega a essa discussão depois de tratar as criaturas durante grande parte do filme principalmente como uma ameaça. A mudança poderia funcionar se tivesse sido construída de forma mais gradual, mas acaba simplificando uma história que havia apresentado questões mais interessantes sobre medo, sobrevivência e comportamento.
A narração também deixa essa intenção ainda mais explícita. Em vez de confiar completamente nas imagens e nas decisões dos personagens, o filme utiliza a voz em off para reforçar ideias que já estavam claras. Esse excesso de explicação enfraquece um pouco mais o encerramento porque transforma aquilo que poderia ser uma interpretação em uma mensagem praticamente entregue ao público.
Reta final
A Última Casa começa com uma boa premissa e encontra sua melhor versão quando acompanha uma família tentando sobreviver dentro de um espaço que deveria representar segurança. O trabalho de produção da residência, as soluções improvisadas e a maneira como os recursos diminuem ao longo do tempo criam situações que conseguem manter o interesse durante boa parte da projeção.
Wagner Moura e Greta Lee também encontram bons momentos, principalmente quando o filme permite que os dois trabalhem os conflitos de Jason e Ann sem depender imediatamente de uma nova ameaça. Mesmo assim, os grandes saltos temporais e a montagem acelerada impedem que a relação entre os personagens alcance o mesmo nível de desenvolvimento do cenário onde eles estão presos.
A mudança para uma ficção científica mais convencional ainda enfraquece o suspense. As criaturas não são tão interessantes quanto a incerteza criada antes de sua aparição, e o terceiro ato troca problemas de sobrevivência bem construídos por cenas de ação menos marcantes. A tentativa de encerrar tudo com uma mensagem ambiental também chega sem o desenvolvimento necessário para justificar o peso que recebe.
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