A terceira temporada de A Casa do Dragão não levou a série ao auge de Game of Thrones, mas recuperou algo que eu já estava perdendo: a vontade de voltar a Westeros todo domingo. Mais focado, urgente e disposto a entregar consequências, o novo ano corrigiu os problemas que tornaram a temporada anterior tão frustrante.
Eu terminei o segundo ano decepcionado. Ainda havia ótimas atuações, uma produção gigantesca e alguns capítulos fortes, mas a sensação predominante era a de uma história sempre preparando o próximo movimento. Quando esse movimento finalmente parecia próximo, os créditos apareciam e empurravam a recompensa para dois anos depois.
Na terceira temporada, o conflito principal também ocupou praticamente todos os oito episódios e, em alguns momentos, a trama permaneceu concentrada nos mesmos impasses. A diferença esteve no caminho. A série passou a colocar acontecimentos relevantes entre o ponto de partida e o destino, fazendo com que cada domingo trouxesse alguma mudança real para a guerra.
A segunda temporada perdeu a sensação de que a história avançava
Minha principal reclamação com a segunda temporada nunca foi simplesmente a falta de batalhas. Game of Thrones construiu alguns de seus melhores episódios com pessoas conversando em salões, negociando alianças ou trocando ameaças. A diferença é que aquelas conversas geralmente mudavam relações e aconteciam sob a pressão de um mundo no qual qualquer decisão poderia terminar em morte.
O segundo ano de A Casa do Dragão teve momentos excelentes, como a Batalha de Pouso das Gralhas e a Semeadura Vermelha. O problema esteve na distância entre esses picos. Faltaram ação, urgência e, principalmente, a percepção de que a Dança dos Dragões estava avançando depois de a primeira temporada terminar com a morte de Lucerys.
Daemon representa bem esse desequilíbrio. Um dos pilares da série passou quase toda a temporada em Harrenhal, preso a visões e conflitos internos. O arco tinha uma função: obrigá-lo a encarar os próprios fantasmas e aceitar Rhaenyra como rainha. Ainda assim, a execução se estendeu além do necessário, repetiu ideias e deixou um dos personagens mais importantes da produção isolado da guerra durante episódios demais.
O último capítulo concentrou essa frustração. A temporada terminou com exércitos marchando, personagens se preparando e a promessa de que a grande guerra estava prestes a começar. Não houve uma batalha importante entre Pretos e Verdes nem uma morte capaz de alterar o tabuleiro.
Ryan Condal explicou que a Batalha da Goela precisava de mais tempo e recursos para alcançar a escala pretendida, o que levou o confronto para o terceiro ano. A justificativa de produção faz sentido e pode ser lida na entrevista concedida pelo showrunner após o final. Para quem estava assistindo, porém, permaneceu a impressão de que uma temporada de oito episódios havia terminado antes do próprio clímax.
A terceira temporada precisava responder imediatamente à frustração deixada por esse desfecho. Por isso, abriu justamente com a Batalha da Goela e colocou a morte de Jacaerys e Vermax no primeiro episódio. A sequência funciona porque a escala não está separada da história. A perda do herdeiro muda Rhaenyra, atinge Baela, deixa Rhaena sob o peso de sua participação no desastre e altera a sucessão dos Pretos.

Uma semana depois, Rhaenyra toma Porto Real, senta-se no Trono de Ferro e executa Otto Hightower. Em apenas dois capítulos, a série entrega uma batalha, uma morte central e uma mudança de poder que reorganiza todas as frentes da guerra. Para mim, o segundo episódio da terceira temporada confirma que a história não passaria mais um ano inteiro guardando seus acontecimentos importantes para depois.
Mais ação devolveu a urgência mesmo quando o conflito parecia parado
Existe uma aparente contradição na terceira temporada. Rhaenyra conquista Porto Real logo no começo, enquanto a ameaça instalada em Tumbleton cresce durante quase todo o restante do ano. Visto apenas por esses dois pontos, o enredo também poderia parecer parado. Na prática, os episódios usam esse intervalo como uma linha de tensão que aperta um pouco mais a cada semana.
Ormund Hightower fortalece a reivindicação de Daeron. Rhaenyra descobre que conquistar a capital era mais simples do que governá-la. Aegon e Larys atravessam as Terras Fluviais enquanto procuram uma forma de sobreviver. Aemond mergulha na influência de Alys Rivers em Harrenhal. Criston Cole continua sua campanha, e Daemon tenta conter conspirações sem deixar de alimentar os próprios conflitos com a rainha.
Nem toda essa movimentação precisa de milhares de soldados em tela. A urgência nasce da certeza de que os personagens estão tomando decisões e pagando por elas. Até os capítulos mais políticos carregam a possibilidade de uma revolta, uma execução, uma traição ou o surgimento de um novo pretendente ao Trono de Ferro.
A ação também foi distribuída com muito mais inteligência. A Batalha da Goela abre a temporada. A tomada de Porto Real muda o poder já no segundo episódio. O sexto capítulo apresenta o massacre conhecido como Baile do Açougueiro e encerra a trajetória de Criston Cole. O sétimo reúne quatro dragões em confronto. Por fim, Tumbleton fecha o ano com fogo, traição e mortes.
Esse desenho é praticamente o oposto do segundo ano. A temporada anterior abriu caminhos e parou diante da grande batalha. A terceira começou com uma batalha que matou seu jovem herdeiro e terminou com outro confronto capaz de destruir as certezas construídas nos episódios anteriores.
A Batalha de Tumbleton traz Daemon para a linha de frente, revela a traição de Ulf e mata Ormund Hightower e Roderick Dustin. Fora do campo, o retorno de Aegon ao lado de Sunfyre ameaça a legitimidade de Rhaenyra, enquanto a morte de Helaena abre uma ferida política e emocional que seguirá para a temporada final. O capítulo não encerra a guerra, mas muda profundamente suas condições.
Para mim, esse é o uso correto da ação em Westeros. O espetáculo impressiona, mas cada batalha também precisa arrancar alguma coisa dos personagens. Jace, Criston, Ormund, Roderick e Helaena não são baixas colocadas apenas para aumentar a contagem de corpos. Suas mortes alteram famílias, alianças, sucessões e a relação do povo com quem ocupa o trono.
Dragões, magia e personagens importantes voltaram ao centro da série
O ponto que mais me conquistou foi a forma como a temporada finalmente abraçou aquilo que diferencia A Casa do Dragão da série original. Em Game of Thrones, os três dragões de Daenerys cresceram ao longo dos anos e foram tratados durante muito tempo como criaturas raras, distantes do centro político de Westeros. Aqui, a história acontece no auge do poder Targaryen. Existem dragões adultos por todos os lados, ligados a diferentes pessoas e prontos para serem usados numa guerra familiar.
Deixar essas criaturas por muito tempo em segundo plano significava desperdiçar a principal particularidade da Dança dos Dragões. A terceira temporada entendeu isso. Vermax e Sheepstealer entram no caos da Goela. Syrax, Seasmoke, Caraxes e Sheepstealer se enfrentam mais adiante. Sunfyre retorna quando Aegon parece completamente derrotado. Dreamfyre finalmente ganha uma aparição completa, e Silverwing transforma Tumbleton num inferno depois da traição de Ulf.

O confronto entre quatro dragões no sétimo episódio não é uma cena perfeita. Algumas decisões dos personagens e o comportamento das criaturas permitem questionamentos. Mesmo assim, como fã, foi importante ver a série materializar a ideia contida no próprio nome da guerra. Os dragões deixaram de funcionar apenas como armas acionadas quando o roteiro precisava de uma explosão. Eles ganharam instintos, vínculos próprios e um grau de imprevisibilidade que nem seus cavaleiros conseguem dominar completamente.
A temporada também mergulhou mais fundo no lado mágico de Westeros. Helaena deixou de ser somente a personagem que pronunciava frases misteriosas no fundo de uma cena. Seus sonhos passaram a ocupar o ponto de vista da narrativa, antecipando o filho arrancado de seus braços, Dreamfyre diante da multidão no Fosso dos Dragões, a ameaça dos Caminhantes Brancos e, por meio da tapeçaria, sua própria queda.

As visões de Helaena, a presença de Alys Rivers, a força estranha de Harrenhal e o peso das profecias devolveram ao universo aquela sensação de que existe algo antigo e inexplicável por trás da disputa política. Eu gosto de Westeros justamente quando castelos, exércitos e coroas convivem com sonhos capazes de atravessar gerações. A série passou a confiar mais nesse elemento sem abandonar as consequências humanas da guerra.
Os personagens centrais também receberam momentos compatíveis com sua importância. Daemon foi a maior correção. Depois de passar a segunda temporada praticamente preso em Harrenhal, ele voltou a circular pelo tabuleiro, confrontou Rhaena, mentiu para protegê-la, investigou ameaças em Porto Real, entrou novamente em choque com Rhaenyra e liderou o ataque a Tumbleton. Ele continuou impulsivo, brutal e moralmente difícil, mas voltou a ser imponente e necessário para a história.
Aegon ganhou um dos grandes momentos do ano ao reencontrar Sunfyre quando parecia pronto para morrer. Helaena se tornou o coração mágico e trágico da temporada. Ormund cresceu como ameaça em Tumbleton. Até a morte de Criston recebeu espaço para encerrar sua trajetória com peso. A série não dependeu somente de Rhaenyra para carregar todos os episódios; voltou a parecer um conjunto de personagens capazes de tomar o centro da narrativa quando necessário.
Ainda existem problemas. Algumas viagens parecem rápidas demais, certas conveniências de roteiro incomodam e nem todas as mudanças em relação a Fogo & Sangue funcionam com a mesma força. A transformação de Rhaenyra também deve continuar dividindo quem acompanha a adaptação. Eu não colocaria esta temporada ao lado dos melhores anos de Game of Thrones.
Mesmo assim, ela levou esse universo de volta a um bom nível. Houve tensão, fantasia, consequências, cenas épicas e a sensação de que o episódio seguinte realmente importava. A Warner Bros. Discovery informou que a temporada alcançou média superior a 33 milhões de espectadores globais por episódio. Audiência não mede qualidade nem prova que toda a confiança foi recuperada, mas mostra que o interesse por Westeros continua enorme.
Minha medida é mais simples. Depois da segunda temporada, eu me perguntava se A Casa do Dragão conseguiria sustentar sua história até o fim. Depois da terceira, quero ver a temporada final. Recuperar essa expectativa foi a maior vitória que a série poderia alcançar.
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