É curioso que um dos respiros mais inventivos para um gênero tão consolidado quanto o soulslike venha de um jogo independente sobre um caranguejo em busca da própria casa. Anunciado em 2022, Another Crab’s Treasure causou estranheza em parte da comunidade justamente por parecer leve demais para um estilo normalmente associado a mundos sombrios, chefes brutais e atmosfera opressiva.
Só que a Aggro Crab, estúdio independente dos Estados Unidos, entendeu muito bem onde poderia mexer na fórmula. Em vez de tentar copiar a FromSoftware sem identidade própria, o jogo aposta em uma aventura submarina colorida, bem-humorada e cheia de crítica social, acompanhando Kril, um caranguejo que parte em busca de sua concha após perdê-la para um tubarão agiota.
A premissa parece absurda, mas funciona. Conforme a jornada avança, Another Crab’s Treasure mistura combate desafiador, humor ácido, personagens carismáticos e uma leitura bem afiada sobre consumismo, lixo e exploração. É um soulslike diferente, mas nunca menos sério em suas boas ideias.
Um “Shellkiro” no fundo do mar
É no combate que Another Crab’s Treasure mostra a que veio. A inspiração em Sekiro: Shadows Die Twice é clara, principalmente pela importância da postura, do aparo e da leitura dos ataques inimigos. A diferença é que tudo aqui passa pela ideia da concha.
Kril usa um garfo para atacar e diferentes objetos como proteção. Latas, copos, embalagens, bolinhas, dedais e outras tralhas espalhadas pelo oceano viram escudos improvisados. Essa mecânica é o grande charme do jogo. O que em outro contexto seria apenas lixo, aqui se transforma em ferramenta de sobrevivência.

A concha pode ser usada de forma defensiva, como abrigo contra ataques, mas também ganha função mais técnica quando o jogador desbloqueia habilidades de aparo. A partir daí, o combate fica muito mais interessante, exigindo precisão para quebrar a postura dos inimigos e abrir espaço para golpes críticos.
Conchas mudam o ritmo da gameplay
Há dezenas de conchas disponíveis, cada uma com peso, resistência e habilidades próprias, chamadas de Conchabilidades. Uma lata de refrigerante pode liberar bolhas contra inimigos. Uma xícara de café favorece ataques mais rápidos. Outras opções ajudam mais na defesa ou em estilos de jogo específicos.
Esse sistema dá variedade real ao combate. Jogadores que preferem agilidade podem buscar conchas mais leves, enquanto quem gosta de uma abordagem mais segura pode optar por peças mais resistentes. Durante minha jornada, privilegiei velocidade e esquiva, mas o jogo oferece espaço para diferentes estilos.
As conchas também ajudam na movimentação. Em descidas, Kril pode rolar pelo cenário, algo útil tanto para explorar quanto para escapar de inimigos em momentos de pressão. É uma mecânica simples, mas muito bem encaixada na proposta.
Exploração tem boas ideias, mas orientação poderia ser melhor
Another Crab’s Treasure não é um mundo aberto, mas oferece áreas relativamente amplas e cheias de caminhos alternativos. A verticalidade ajuda bastante nesse aspecto. Com o anzol e outras habilidades, Kril consegue alcançar pontos antes inacessíveis, encontrar recursos e desbloquear novas possibilidades de progressão.
A exploração é importante porque o jogo espalha itens valiosos pelo oceano. Microplásticos funcionam como moeda para melhorar atributos, cristais de Umami liberam habilidades, e tesouros inoxidáveis ajudam a evoluir armas no ferreiro.

O problema está na orientação. O mapa poderia ser mais interativo e claro. Em muitos momentos, a bússola dá uma noção básica do caminho, mas isso nem sempre basta. Em uma parte mais avançada da campanha, quando é preciso encontrar itens específicos, a falta de direcionamento começa a pesar e torna a busca mais cansativa do que deveria.
Dificuldade desafia sem afastar
Como todo soulslike, Another Crab’s Treasure precisa ser analisado também pela dificuldade. A boa notícia é que o jogo é desafiador, mas não tão punitivo quanto alguns dos nomes mais famosos do gênero.
Morri várias vezes durante a campanha, especialmente no primeiro ato, mas raramente senti que o jogo estava sendo injusto. Conforme você entende o ritmo dos inimigos, aprende a aparar no momento certo e investe melhor seus pontos em vitalidade e ataque, os combates passam a fluir de forma muito mais satisfatória.

O jogo também oferece um modo guiado, pensado para quem quer reduzir a dificuldade e aproveitar a jornada com menos pressão. Testei essa opção em uma segunda run e ela torna Kril mais resistente, mas sem remover totalmente o desafio. É uma boa solução para ampliar o público sem esvaziar a proposta.
Desempenho instável e câmera atrapalham
No Xbox Series S, versão usada nesta análise, Another Crab’s Treasure roda a 1080p e mira 60 FPS, mas apresenta instabilidades. Em áreas mais abertas, a taxa pode cair para algo em torno de 55 FPS. Na maior parte do tempo isso não atrapalha combate ou exploração, mas é perceptível.
Também encontrei bugs pontuais. Em uma ocasião, o jogo travou com queda forte de desempenho e problemas no áudio, exigindo reinício. Em outro momento, durante uma luta contra chefe, o inimigo entrou em um comportamento estranho e ficou girando de forma contínua. Ao reiniciar, tudo voltou ao normal.
A câmera é o problema mais incômodo. Em ambientes fechados, o sistema de foco no inimigo pode atrapalhar bastante, especialmente quando empurra a visão para paredes ou obstáculos. Em um jogo que depende tanto de timing e leitura de ataque, isso pode gerar frustração.
Som e trilha sonora dão outro tom ao gênero
Um dos maiores acertos do jogo está no som. Enquanto muitos soulslikes apostam em tensão constante e trilhas opressivas, Another Crab’s Treasure prefere um clima mais leve, fluido e até relaxante, sem perder a sensação de perigo.
A trilha sonora combina muito bem com a ambientação submarina e, em vários momentos, remete a animações clássicas com fundo marítimo. O resultado é curioso: você está sofrendo contra inimigos e chefes, mas envolto em uma atmosfera colorida e quase acolhedora.
Essa escolha ajuda o jogo a se diferenciar. Ele entende que pode ser difícil sem precisar ser sombrio o tempo todo.
Narrativa usa humor para falar de temas sérios
A história de Another Crab’s Treasure é mais inteligente do que parece. Por trás da jornada maluca de Kril, existe uma crítica bem clara ao consumismo, à poluição e à forma como comunidades inteiras passam a sobreviver em meio aos restos deixados por outros.

O lixo humano no fundo do mar vira recurso, moradia, arma e estrutura social. A partir disso, o jogo fala de desigualdade, exploração, luta de classes e sobrevivência, mas sem perder o humor. É uma abordagem rara, especialmente em um gênero que costuma tratar suas histórias com seriedade pesada.
Os personagens são carismáticos, as piadas funcionam e o mundo tem personalidade. A Aggro Crab consegue falar de temas relevantes sem transformar o jogo em discurso, usando a própria lógica daquele universo para sustentar suas críticas.
Visual colorido também é parte da inovação
Os gráficos não são espetaculares em termos técnicos, mas combinam perfeitamente com a proposta. O jogo é colorido, expressivo e cheio de identidade visual. Os chefes têm bons designs, os cenários são criativos e o uso de lixo como elemento de mundo é muito bem explorado.
Essa direção de arte também ajuda a renovar a sensação de jogar um soulslike. Em vez de castelos em ruínas, florestas amaldiçoadas e criaturas grotescas no sentido tradicional, temos um oceano vibrante, sujo, engraçado e ameaçador ao mesmo tempo.
É uma mudança de tom que faz bem ao gênero.

Vale a pena jogar Another Crab’s Treasure?
Sim. Another Crab’s Treasure é uma das surpresas mais criativas dentro do soulslike recente. Ele respeita pilares importantes do gênero, como desafio, combate técnico e progressão cuidadosa, mas encontra uma identidade própria ao misturar conchas, humor, crítica social e uma ambientação submarina cheia de personalidade.
Os problemas de desempenho, câmera e orientação incomodam em alguns momentos, mas não apagam o brilho da experiência. É um jogo inventivo, divertido e muito mais inteligente do que sua aparência inicialmente sugere.

