Quando o remake de um clássico absoluto foi anunciado, fui tomado por emoção e preocupação ao mesmo tempo. Se, por um lado, Metal Gear Solid 3: Snake Eater finalmente ganharia uma releitura, por outro, o projeto chegava sem Hideo Kojima, a mente criativa por trás do original.
Depois de 21 anos, cá estava eu de volta a Tselinoyarsk, pronto para revisitar a selva soviética que aprendi a admirar com o tempo e com as várias reedições do jogo, especialmente Subsistence e, depois, a HD Collection. Eu não esperava sentir isso de novo, mas bastaram poucas horas para que eu me apaixonasse por Metal Gear Solid Delta: Snake Eater.
É impressionante como um remake pode provocar quase o mesmo arrebatamento do original, ainda que sua base de gameplay e história venha diretamente do game de 2004. Em meio a tantas discussões sobre a profundidade desta nova versão, minha leitura é clara: Delta é uma carta de amor aos fãs, um aceno generoso a quem vai conhecer a franquia agora e, acima de tudo, um jogo que honra o legado do original. E talvez esse fosse mesmo o limite ideal deste projeto. Sem Kojima, qualquer tentativa de expansão narrativa mais ousada poderia soar deslocada.
Dito isso, Metal Gear Solid Delta: Snake Eater não é um remake 1:1, como muita gente afirma. Há mudanças importantes na forma como ele é jogado, percebido e sentido. E é justamente isso que faz dele uma releitura mais interessante do que parece à primeira vista.
Gameplay de Metal Gear Solid Delta ainda impressiona duas décadas depois
Mesmo depois de duas décadas, a jogabilidade de Metal Gear Solid 3 ainda é capaz de surpreender. Os controles do original, naturalmente, já pediam atualização para a geração atual, inclusive para quem sempre gostou do jogo. E foi exatamente isso que o remake fez.
A grande virtude de Metal Gear Solid Delta é preservar a espinha dorsal do gameplay original. Todas as ideias revolucionárias que Hideo Kojima imprimiu ali, mesmo dentro das limitações técnicas da época, continuam presentes. E continuam funcionando.
Snake Eater ainda carrega aquela alma revolucionária que ajudou a redefinir os jogos de ação e furtividade. O remake entende isso e evita mexer no que realmente importava.
Uma proto-sandbox com enorme liberdade de abordagem
Quando pensamos em jogos de mundo aberto, logo vem à cabeça a ideia de liberdade de ação dentro de um espaço amplo. Por limitações de hardware, Snake Eater não seguia exatamente esse formato, mas já flertava com isso por meio de áreas interligadas e múltiplas formas de atravessá-las. Era, em essência, uma proto-sandbox muito antes de essa linguagem virar padrão na indústria.
Essa variedade de abordagens continua impressionante. Você pode passar pelas áreas como um fantasma, rendendo inimigos, interrogando soldados e coletando itens valiosos como munições, granadas, silenciadores e informações úteis. Também é possível partir para o confronto direto e transformar a selva em campo de guerra, mesmo que a proposta do jogo seja claramente furtiva.
Dentro desse design brilhante, há ainda espaço para uma IA de inimigos bastante exigente. Senti os adversários mais atentos no modo Normal e ainda mais agressivos no Extremo. Joguei mais de 40 horas, fiz a platina e completei o difícil desafio Foxhound, que exige terminar a campanha em menos de cinco horas, sem mortes, sem alertas e sem continues. Então, sim, acho que posso falar com alguma segurança sobre como essa IA funciona.
Os controles de Metal Gear Solid Delta: Snake Eater entregam uma experiência mais ajustada à forma como jogamos hoje. E é aí que entra um dos principais argumentos para não chamar esta versão de remake 1:1.
A movimentação de Snake está mais polida, mais precisa e mais natural. A resposta de ações como rolamento, evasão e agachamento passa uma sensação de refinamento real. Para parte dos jogadores mais antigos, essas diferenças podem parecer discretas, mas elas existem e fazem diferença na prática, especialmente no posicionamento e na leitura dos espaços.
Profundidade de design continua sendo um dos maiores trunfos
Dentro dessa estrutura de gameplay, Snake Eater ainda guarda algumas das situações mais criativas e divertidas do gênero. É possível render inimigos e apontar a arma para pontos sensíveis, como a cabeça ou partes íntimas, provocando reações desesperadas e até fazendo com que eles soltem itens.
Alguns soldados, porém, resistem e não entregam o que você quer com facilidade. Nesses casos, o jogo abre espaço para soluções mais extremas, sempre dentro daquela lógica de improviso e experimentação que faz parte da identidade da série.
Em resumo, Metal Gear Solid Delta preserva a genialidade do gameplay original, mas entrega uma experiência mais refinada e mais confortável para o jogador contemporâneo.
Performance é o principal ponto fraco do remake
Se existe um fator mais claramente negativo em Metal Gear Solid Delta: Snake Eater, ele está na performance. Reconstruído na Unreal Engine 5, o jogo não mantém estabilidade total, algo que já virou crítica recorrente em vários projetos recentes feitos nessa engine.
Minha experiência foi em um PlayStation 5 base. No geral, as quedas de frame foram poucas e discretas, mas elas existem. O momento em que mais percebi isso foi na sequência próxima à cachoeira da caverna em que encontramos Eva, já mais para o fim da campanha, quando a oscilação ficou mais evidente.
Por outro lado, não tive problemas com bugs, crashes ou falhas graves. Também vale destacar o excelente design de som, que ajuda bastante na imersão.
Até 09 de setembro de 2025, a Konami já havia lançado três patches, versões 1.01, 1.02 e 1.03, com correções relatadas pela comunidade. Nenhum deles, porém, resolvia diretamente a questão da performance, embora a desenvolvedora tenha indicado que trabalhava nisso.

Narrativa muda na forma, não na essência
Um dos motivos centrais para não tratar Delta como “mais do mesmo” está na maneira como sua narrativa se apresenta. E aqui vale uma distinção importante: narrativa não é apenas enredo.
A história continua sendo a mesma, com as reviravoltas que envolvem Naked Snake, Eva, The Boss e Ocelot. Só que o modo como essa história chega ao jogador muda bastante por causa das tecnologias atuais. Novas capturas de movimento, iluminação refeita, expressões faciais mais detalhadas e enquadramentos visualmente mais ricos alteram a forma como cada cena é absorvida.
Nada disso apaga o legado de Kojima. Pelo contrário: a escrita original continua guiando tudo, mas agora ganha uma camada visual que reforça o subtexto e amplia a dramaticidade. Cenas já icônicas se tornam ainda mais impactantes.
O que ganha força nesta nova versão
Entre os aspectos que mais se beneficiam dessa atualização técnica, destacam-se:
- o voyeurismo de Snake
- o carisma juvenil de Ocelot
- a brutalidade teatral de Volgin
- as ambiguidades morais de The Boss
- as nuances sensuais de Eva
Tudo isso ressurge com mais força, sem trair o espírito do original.
Vale a pena jogar Metal Gear Solid Delta: Snake Eater?
Metal Gear Solid Delta: Snake Eater é um remake especial porque respeita a obra original e, ao mesmo tempo, renova a forma de vivê-la. E, no fim, é isso que importa: a experiência que o jogo entrega.
Mesmo depois de 21 anos, Delta conseguiu me fazer sentir algo muito próximo do primeiro contato com esse clássico. Não se trata de escolher entre original e remake. Trata-se de reativar um vínculo afetivo com um dos grandes jogos da história.
Para mim, essa paixão renasceu. Metal Gear Solid Delta é hoje a experiência definitiva para revisitar um clássico incrível, além de funcionar muito bem como porta de entrada para novas gerações conhecerem uma das franquias mais importantes dos games.
O jogo ainda cria uma ponte interessante com Metal Gear Solid V: The Phantom Pain ao inserir um easter egg que conversa diretamente com o futuro da cronologia. É o tipo de adição que faz sentido e mostra como a Konami pode continuar explorando esse legado.
Dado o bom desempenho comercial do remake, não seria surpresa ver novos projetos seguindo a cronologia da narrativa. E, olhando para frente, faria sentido ver Peace Walker ganhar tratamento semelhante. Da mesma forma, continua sendo urgente tirar Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots do limbo, já que ele segue como peça fundamental para a conclusão da saga.
No fim das contas, Metal Gear Solid Delta: Snake Eater não reinventa o original, mas também não se limita a repeti-lo. Ele entende por que esse jogo se tornou inesquecível e atualiza sua forma de existir para um novo tempo.

