Não esperava que Mouse: P.I. For Hire fosse me oferecer uma experiência tão incrível assim. Desde que ele foi lançado, minha expectativa era de que se tratasse de um jogo em um formato modesto, apesar de sua apresentação ter me impressionado bastante logo em seu anúncio, em maio de 2023.
No geral, Mouse: P.I. For Hire é um boomer shooter estilizado que combina combate clássico de FPS com uma identidade audiovisual extremamente marcante. Inspirado na animação rubber hose dos anos 1930 e na estética do cinema noir, o jogo constrói uma experiência que mistura ação frenética, humor inteligente e atmosfera cinematográfica — além de um level design surpreendentemente criativo para um game de escopo indie.
A desenvolvedora Fumi Games consegue entregar uma experiência pra lá de acertada ao misturar referências como Cuphead, Doom e filmes clássicos do gênero noir.
São muitos os aspectos que definem sua experiência incrível e, sem mais delongas, vamos falar dos principais — e também de alguns problemas.
Direção artística e identidade visual
Um dos maiores triunfos de Mouse: P.I. For Hire é sua apresentação.
O visual inspirado em cartoons clássicos e na linguagem de estúdios como a Fleischer Studios cria uma estética única dentro do gênero FPS.
O uso de preto e branco, filtros que simulam película antiga, granulação e tremores de frame reforça a sensação de estar assistindo a um desenho animado da era de ouro da animação.

Essa estética é ainda enriquecida por uma forte influência do cinema noir, com cenários urbanos sombrios, iluminação contrastada e uma narrativa que remete a clássicos policiais do gênero, como O Falcão Maltês (The Maltese Falcon/1941).
O resultado é um universo estiloso, cheio de personalidade e extremamente carismático.
Outro destaque é a possibilidade de utilizar filtros cinematográficos para aproveitar ainda mais o jogo. Para quem é fã desses gêneros, é possível escolher entre três opções de áudio e filtro visual, deixando a experiência ainda mais fiel à proposta de Mouse: P.I. For Hire.
Trilha sonora jazzística
Ah… por falar em áudio, vale muito lembrar que o game possui uma sensacional trilha sonora de jazz, formada por clássicos de artistas como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e por aí vai. A trilha sonora reforça ainda mais a atmosfera noir do jogo.
Gameplay e estrutura de combate
No campo da jogabilidade, Mouse: P.I. For Hire adota fundamentos clássicos dos boomer shooters: movimentação rápida, combate agressivo e um arsenal variado.
Os controles são precisos e responsivos, proporcionando a sensação de fluidez esperada pelos fãs do gênero.
Embora o jogo reutilize diversos tipos de inimigos ao longo da campanha, o level design inteligente evita que os confrontos se tornem repetitivos.

As arenas apresentam variações constantes de layout, verticalidade e dinâmica de combate, incentivando o jogador a adaptar estratégias e explorar diferentes armas e habilidades. Essa abordagem cria encontros variados mesmo quando os oponentes são familiares.
As arenas são um destaque à parte, pois possuem estruturas ajustadas ao tema de cada fase.
Encontros com chefes marcantes
Os combates contra os bosses são ótimos e marcantes. Cada um deles oferece uma mecânica própria que precisa ser vencida para que o jogador avance, o que traz também um fator nostálgico da época em que os games ofereciam mais do que simplesmente atirar nos chefões para vencê-los.
Narrativa, personagens e atmosfera
A narrativa abraça completamente o espírito noir, acompanhando um detetive em uma trama permeada por corrupção, conspirações e comentários políticos sutis.

O humor surge de forma elegante e inteligente, sem quebrar o tom da história.
A atuação de Troy Baker dá ainda mais personalidade ao protagonista. Baker, que já interpretou personagens memoráveis no mundo dos games (incluindo The Last of Us — mais uma vez rouba a cena aqui, entregando uma voz que talvez nunca tenha feito antes, mas que soa perfeita para o clima noir.
A ambientação é reforçada por uma trilha sonora jazzística que evoca o clima dos clássicos do gênero. A narrativa também se apoia no histórico movimento ultraconservador dos anos 1930, período que resultou na ascensão do Fascism, funcionando também como uma espécie de crônica para os dias atuais.
Para muita gente, a trama pode não se desenvolver de forma tão profunda ou satisfatória. Ainda assim, vale lembrar que o gênero noir sempre foi marcado por uma veia narrativa carregada de cinismo e pessimismom, algo que não falta em Mouse: P.I. For Hire.
Problemas técnicos
Apesar de suas muitas qualidades, Mouse: P.I. For Hire apresenta alguns problemas técnicos.
Durante minha experiência, ocorreram bugs de gameplay, quedas ocasionais de desempenho e problemas com troféus. Alguns desses problemas foram posteriormente corrigidos pelos desenvolvedores.
Em certos momentos, a ausência de um mapa também gerou uma leve sensação de desorientação. Ainda assim, isso raramente prejudica o ritmo da progressão, principalmente porque o jogo possui uma feature de orientação que ajuda o jogador a encontrar o caminho correto (basta você se lembrar de que ela existe).
Vale a pena jogar Mouse P.I. For Hire?
Mouse: P.I. For Hire é um game autoral que ousa muito — e acerta na mesma medida.
Ele surge como um sopro de criatividade em uma indústria que arrisca cada vez menos, já que erros hoje em dia podem ser fatais para grandes produções.
O jogo é altamente indicado para jogadores que querem experimentar algo diferente, procuram experiências marcantes, são fãs de boomer shooters, gostam de cinema noir e apreciam animação clássica. Ou simplesmente para quem quer passar boas horas se divertindo no videogame.
Ah, e vale lembrar: minha aventura durou mais de 12 horas no PlayStation 5, algo que eu definitivamente não esperava de um jogo indie.
