A inteligência artificial generativa já faz parte da rotina de grande parte dos profissionais envolvidos na produção de games. Um novo levantamento divulgado pela Computer Entertainment Supplier’s Association (CESA) aponta que 85,8% dos desenvolvedores consultados usam ferramentas de IA generativa no trabalho.
O dado fica ainda mais significativo quando a frequência é analisada: 63% afirmaram utilizar IA diariamente, enquanto outros 22,8% disseram recorrer à tecnologia de vez em quando.
A pesquisa foi divulgada nesta quinta-feira (17) junto da edição preliminar do CESA Game Industry Report 2026, distribuída durante a Tokyo Game Show 2026.

Quantos desenvolvedores de games já usam IA?
O levantamento chamado Game Developers’ Employment and Career Formation 2026 foi realizado pela internet entre maio e agosto de 2026.
A CESA recebeu 1.349 respostas. O público pesquisado inclui profissionais como produtores, diretores, engenheiros, artistas, game designers, profissionais de áudio e testadores, além de participantes ligados ao ensino e estudantes.
Quando questionados sobre o uso de IA generativa no trabalho, as respostas ficaram assim:
- 63,0%: usam diariamente;
- 22,8%: usam às vezes;
- 8,6%: estão testando ou avaliando a tecnologia;
- 4,8%: nunca utilizaram;
- 0,7%: utilizavam anteriormente, mas deixaram de usar.
Entre os exemplos de ferramentas considerados pela pesquisa estão ChatGPT, GitHub Copilot, geradores de imagens e serviços capazes de produzir assets.
Usar IA não significa colocar conteúdo gerado diretamente no jogo
O número de 85,8% pode sugerir que assets produzidos por IA estejam sendo colocados em massa nos jogos, mas os próprios dados do levantamento mostram uma situação mais complexa.
Em uma questão de múltipla escolha sobre o destino do material produzido com IA, 517 respostas indicaram que os resultados não eram implementados diretamente no produto final. Outras 501 apontaram uso apenas como ferramenta de apoio à produção.
Já 285 respostas indicaram algum tipo de implementação do conteúdo gerado no produto.
Ou seja, a adoção de IA é muito maior do que a presença direta de assets gerados por IA dentro dos jogos.
Essa diferença ajuda a explicar por que empresas podem dizer que utilizam inteligência artificial internamente sem necessariamente colocar imagens, personagens ou textos gerados diretamente pela tecnologia no produto lançado ao público.
O principal ganho é economizar tempo
Entre os benefícios percebidos pelos profissionais, a redução do tempo necessário para produzir conteúdo apareceu como a resposta mais popular, com 1.083 menções.
Eficiência no trabalho e expansão de ideias também aparecem entre os ganhos apontados pelos participantes.
Uma segunda pesquisa da CESA, desta vez direcionada às próprias empresas associadas, reforça essa tendência.
Das 48 companhias que responderam à questão sobre o que esperam ganhar com IA generativa:
- 38 citaram maior eficiência e produtividade;
- 30 esperam reduzir o tempo de desenvolvimento;
- 29 citaram redução de custos de desenvolvimento e operação;
- 24 esperam melhorar localização e expansão global;
- 22 citaram criação de novas ideias e formas de expressão;
- 21 esperam melhorar a qualidade de produtos e serviços;
- 20 veem a tecnologia como uma forma de enfrentar a falta de profissionais.

Supervisão humana ainda aparece como regra
A CESA também perguntou às empresas quais medidas estão sendo adotadas para controlar o uso da tecnologia.
A prática mais mencionada foi a revisão, correção ou supervisão feita por pessoas. Também aparecem políticas que limitam quais ferramentas podem ser utilizadas e regras para impedir que resultados gerados pela IA sejam incorporados diretamente sem revisão.
Para Tsutomu Masuda, diretor executivo da CESA, os resultados mostram que a tecnologia está sendo adotada de maneira cada vez mais ampla nos ambientes de desenvolvimento.
A associação, porém, também chama atenção para problemas relacionados a direitos autorais e outros direitos sobre conteúdos utilizados por sistemas generativos.
A discussão já provocou situações delicadas dentro da indústria. Recentemente, a Level-5 admitiu o uso de IA generativa em vídeos de Professor Layton e Yo-kai Watch e pediu desculpas após a repercussão.
Na direção oposta, a Game Science declarou que pretende manter IA generativa longe do design e da produção de assets de Black Myth: Zhong Kui.
Square Enix também experimenta IA durante o desenvolvimento
O uso da tecnologia como ferramenta intermediária já aparece em experiências de grandes empresas japonesas.
Durante a CEDEC 2026, por exemplo, um game designer da Square Enix mostrou um experimento de criação de um protótipo de RPG de ação utilizando IA generativa para auxiliar diferentes partes do processo, incluindo código, modelos, sons e outras etapas da produção.

Esse tipo de aplicação está no centro da discussão atual: a tecnologia pode servir para prototipagem, programação, pesquisa, revisão e automação sem necessariamente substituir o trabalho artístico final.
O diretor de Clair Obscur: Expedition 33, Guillaume Broche, já demonstrou preocupação com outro extremo dessa evolução. Ele disse imaginar um futuro em que seja possível criar um jogo inteiro por IA em poucos segundos, embora tenha questionado a qualidade de experiências produzidas dessa maneira.
O uso de IA realmente saltou de 51% para 85,8% em um ano?
Não é possível fazer essa comparação diretamente.
O relatório da CESA divulgado em 2025 apontou que aproximadamente 51% das empresas japonesas consultadas utilizavam IA ou IA generativa no desenvolvimento de jogos.
Já o número de 85,8% divulgado agora mede respostas de profissionais sobre o próprio uso da tecnologia no trabalho.
As unidades pesquisadas e as amostras são diferentes. Portanto, os dois números mostram que a presença da IA aumentou dentro da indústria, mas não representam uma série histórica equivalente capaz de demonstrar que a adoção passou exatamente de 51% para 85,8%.
Essa distinção é especialmente importante porque o uso de uma ferramenta por um único profissional já pode contar como adoção individual, enquanto uma pesquisa realizada no nível das empresas mede outra coisa.
A IA generativa já virou padrão no desenvolvimento de games?
Os dados da CESA indicam que a IA generativa deixou de ser uma experiência restrita a poucos profissionais e passou a ocupar espaço frequente nos fluxos de trabalho da indústria japonesa de games.
Ao mesmo tempo, a pesquisa não mostra uma substituição generalizada de artistas, programadores ou outros profissionais por conteúdo gerado automaticamente.
Pelo contrário: supervisão humana, uso como assistência e restrições sobre a implementação direta dos resultados continuam aparecendo com força.
Casos controversos também seguem surgindo. O Overdrive já mostrou, por exemplo, a reação negativa ao videoclipe de Stellar Blade produzido com auxílio de IA generativa.
A edição completa do CESA Game Industry Report 2026, com cerca de 460 páginas, será publicada no início de dezembro.

Fontes
Atualizado em 17 de setembro de 2026.

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