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Antes de sair para um test-drive no modo carreira de BeamNG.drive, convém ler a letra miúda: se você danificar o carro e decidir não comprá-lo, vai pagar pelo estrago. É um aviso bastante razoável para uma concessionária. Vindo de um jogo cuja grande atração é jogar carros de um penhasco, chega a ser desaforo. E funciona. Basta saber de quem é a conta para começar a dar um pouco mais de espaço ao meio-fio.
A graça é que o meio-fio já merecia respeito no modo livre, quando ninguém cobrava nada. Pegar de lado com a roda da frente pode entortar a suspensão. O carro continua andando, o motor ainda responde, mas, ao soltar o analógico, ele puxa para um lado. Talvez dê para terminar a entrega. Para fugir de uma viatura, as perspectivas são piores. É o tipo de acidente que rende um vídeo ruim e um ótimo jogo de direção.
No PlayStation 5, BeamNG.drive preserva essa diferença entre um carro feio e um carro ruim de dirigir. A edição chega em acesso antecipado, com carreira, rali, exploração livre e tela dividida. O que falta aparece sobretudo ao largar o volante para montar o próximo teste: operar a oficina inteira com um DualSense dá bem mais trabalho do que pilotar.

A roda que ficou no lugar pode ser o problema
A melhor maneira de entender a física é esquecer por um instante o carro inteiro. Em BeamNG.drive, as peças são representadas por pontos ligados entre si. Essas ligações cedem, entortam ou se rompem conforme a força que recebem. Um toque pode levar o para-lama embora e poupar a direção; outro, menos vistoso, pode deixar uma roda presa num ângulo que exige correção até na reta. Vale olhar para onde os pneus apontam antes de comemorar que o motor pegou.
O mesmo cuidado vale antes da primeira pancada. A Ibishu Pigeon, uma picapinha com uma única roda dianteira na versão básica, torna uma mudança brusca de direção uma péssima ideia. É divertido colocá-la numa curva fechada e descobrir quão cedo é preciso tirar o pé para fazer o contorno sobre três rodas. Com um carro esportivo, a vontade seria medir a velocidade de saída. Na Pigeon, passar por ali sem deitar de lado já resolve a tarde.

No outro extremo da garagem está o Cherrier Percheron, caminhão em que a cabine tem suspensão própria e o banco do motorista também. Por dentro, a câmera acompanha o assento: a cabine mergulha numa freada, o horizonte oscila e dá para entender por que convém pisar no freio antes da próxima esquina. Por fora, vê-se o movimento da cabine em relação ao chassi. Trocar a câmera nesse caminhão diz mais sobre sua construção do que uma página de especificações.
É aí que a oficina começa a fazer sentido, inclusive para quem não distingue um tipo de amortecedor de outro. No modo livre, dá para mudar a altura da suspensão ou a pressão dos pneus e voltar ao mesmo obstáculo. Manter o trajeto e alterar uma coisa por vez é mais interessante do que instalar todas as melhorias disponíveis. A recompensa é notar uma diferença e saber o que você fez para provocá-la.
Tem dia em que estacionar bem paga mais
A carreira dá outro valor a essas descobertas. Há dinheiro para ganhar com entregas, carros para comprar, seguro e reparos. Numa entrega de carga, até a posição final do veículo pode render um bônus ou uma penalidade. Chegar à doca sem arranhar a lateral e alinhar o caminhão com cuidado exige tanto controle quanto uma boa derrapagem. A diferença é que aqui vale a pena terminar a manobra devagar.
Essa é a parte mais interessante da carreira, e também seu limite. O dinheiro dá um bom motivo para cuidar do primeiro carro e escolher onde gastar. Já o trajeto de uma entrega comum não fica automaticamente interessante porque há uma recompensa no fim. Quando a estrada oferece pouco a fazer, sobra tempo para sentir falta da liberdade de parar, trocar de veículo e inventar coisa melhor. O modo livre ainda é onde o jogo se renova com mais facilidade.
Para quem prefere receber um desafio pronto, o rali acerta em cheio. Em Utah há um percurso inteiro em cascalho, com um navegador chamando as curvas. Ouvir a indicação antes de enxergar a saída muda o ponto de freada. O som mais importante ali nem é o do motor: é a voz do sujeito ao lado avisando o que vem depois. E, neste simulador, ele está mesmo sentado no banco do passageiro. Seu peso entra na distribuição de massa do carro.

No sofá, é prudente entrar de ré na briga
O melhor argumento para reunir os amigos é o Derby. A regra cabe numa frase: vence o último veículo que ainda conseguir andar. Num carro com motor dianteiro, oferecer a traseira ao adversário pode ser um bom negócio; acertá-lo de frente talvez faça mais estrago, inclusive em você. Uma carroceria irreconhecível ainda está na disputa se as rodas obedecerem. De repente, o sujeito que entrou de ré na confusão parece o mais sensato da sala.
A tela dividida comporta até quatro jogadores no mesmo PS5. Cada um pode escolher suas assistências de câmbio, embreagem e acelerador, de modo que ninguém precisa aprender a trocar marcha para participar da brincadeira. Há futebol com carros, arrancada e perseguição, além da exploração livre. Nesta última, dá até para abandonar o próprio veículo e entrar no do amigo. A carona não vale ponto nenhum. Dependendo de quem estiver dirigindo, já é desafio suficiente.

Ao volante o controle dá conta. Na oficina, nem tanto
Para dirigir, o DualSense oferece o que interessa: gatilhos para dosar o pé, sensibilidade ajustável e a opção de remapear os comandos. O tutorial First Drive tem a boa ideia de ensinar a recuperar o carro e colocar outro no mapa. São duas lições bem mais úteis aqui do que uma aula sobre traçado ideal. O problema vem quando uma ideia simples exige administrar o trânsito, escolher outra configuração de veículo e voltar ao mesmo ponto para comparar os resultados. Entre o menu radial e as telas de configuração, é fácil gastar mais tempo preparando a experiência do que descobrindo a resposta.
Há também um limite para o tamanho da bagunça. No modo livre e na tela dividida, o próprio jogo recomenda remover veículos quando a taxa de quadros permanece abaixo de 25 fps. É uma saída sensata para recuperar a fluidez, embora desmontar um engavetamento contrarie justamente o motivo de tê-lo armado. No PS5 também ficam de fora os mods, o editor de mapas e a realidade virtual. A ausência que mais pesa é a dos mods: dá para mexer bastante nos carros da garagem, mas não trazer para ela um modelo criado pela comunidade.



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