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ReviewBeyond The Evil
7/10

Beyond The Evil cria um mistério envolvente, mas confunde pistas com obstáculos

Terror brasileiro transforma uma casa em cena de crime e aposta na observação, embora o excesso de cadeados e o ritmo irregular enfraqueçam a investigação

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Ficha de avaliação

Beyond The Evil é um terror psicológico brasileiro que aposta na investigação, na exploração de ambientes e na resolução de enigmas. O mistério envolvente e a atmosfera inquietante são seus principais acertos, mas a repetição de puzzles e o ritmo irregular prejudicam a experiência.

Prós e contras · Ficha técnica

Prós

  • Atmosfera de terror psicológico bem construída
  • Mistério envolvente que incentiva a investigação
  • Exploração de ambientes com pistas e objetos interativos
  • Boa utilização do silêncio e dos efeitos sonoros
  • Mudança de dinâmica na reta final acrescenta tensão

Contras

  • Atmosfera de terror psicológico bem construída
  • Mistério envolvente que incentiva a investigação
  • Exploração de ambientes com pistas e objetos interativos
  • Boa utilização do silêncio e dos efeitos sonoros
  • Mudança de dinâmica na reta final acrescenta tensão

Ficha técnica

  • GAMEBeyond The Evil
  • PLATAFORMAPS5, PS5

Como avaliamos: política de reviews

Tópicos

Existe uma diferença entre encontrar uma pista e encontrar a senha de um cadeado. A primeira faz o jogador se sentir um detetive; a segunda, quando aparece em excesso, pode transformá-lo em alguém que revira cada gaveta até o jogo permitir que a história continue. Beyond The Evil conhece os dois lados dessa experiência. Seu maior acerto é fazer uma casa aparentemente comum esconder um caso cada vez mais perturbador. Seu limite é não conseguir transformar toda descoberta em uma dedução satisfatória.

Desenvolvido pelo estúdio brasileiro BlackHawk Games e publicado pela QUByte Interactive, o terror em primeira pessoa coloca o investigador particular Gary Nephew diante de um pedido de socorro que termina mal. Estamos na Pensilvânia, em 2019. Uma ligação desconexa leva Gary a uma propriedade isolada, onde a investigação de uma morte abre caminho para documentos suspeitos, experiências laboratoriais e o desaparecimento de integrantes da família Juniper.

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A edição lançada para PlayStation 5 em 29 de outubro chega após uma revisão importante do jogo original de 2023. O resultado é um suspense compacto que prefere provocar desconfiança a oferecer armas ou confrontos constantes. Funciona sobretudo quando exige atenção ao ambiente, mas tropeça quando pede mais paciência do que raciocínio.

O terror começa quando a casa deixa de parecer um lugar seguro

O cotidiano é uma escolha esperta para o cenário. Em vez de depender de criaturas surgindo a cada esquina, Beyond The Evil coloca a dúvida em objetos que poderiam estar em qualquer residência: uma correspondência esquecida, uma gaveta fechada, uma fotografia ou um documento que não parece combinar com a versão conhecida dos fatos. O jogo estabelece a sensação de que alguma coisa muito séria aconteceu ali sem precisar revelar imediatamente o quê.

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Gary investiga em primeira pessoa e pode pegar, girar e examinar objetos para procurar impressões digitais, anotações, números e sinais de passagem. Essa proximidade faz diferença. Uma pista não é só um brilho distante que precisa ser coletado: muitas vezes, ela depende de olhar para um detalhe ou perceber que certo documento tem utilidade fora do contexto em que foi encontrado.

O desenho do cenário também tira proveito da ausência de combate tradicional. Como não existe uma arma constantemente pronta para resolver qualquer ameaça, entrar em uma sala desconhecida pede atenção. A tensão vem da possibilidade de descobrir algo desagradável, do silêncio que antecede uma revelação e do cuidado com o que se examina. Não é um terror de reflexos rápidos; é um jogo sobre desconfiar do próximo cômodo.

O risco dessa proposta está na densidade de objetos. Quanto mais coisas podem ser examinadas, mais importante se torna distinguir o que constitui uma pista legítima do que serve apenas para preencher o espaço. Beyond The Evil é convincente quando um detalhe muda o entendimento da cena. É menos convincente quando a ação vira uma inspeção sistemática de tudo o que pode receber um comando.

Captura de tela oficial de Beyond The Evil para PlayStation
Beyond The Evil é convincente quando um detalhe muda o entendimento da cena.

Um bom enigma exige interpretação, não uma caça interminável por números

Boa parte da progressão utiliza fechaduras, cofres, chaves físicas e combinações numéricas. O princípio é adequado para uma aventura investigativa: encontrar uma informação em um lugar, relacioná-la a outro e finalmente ter uma razão para abrir uma porta. Os melhores desafios constroem uma ligação perceptível entre causa e solução. Quando o número procurado está escondido num bilhete que também ajuda a explicar os acontecimentos, resolver o mecanismo tem um propósito além de avançar.

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Mas Beyond The Evil nem sempre estabelece essa ligação com a mesma elegância. Há uma diferença entre exigir que o jogador preste atenção e fazê-lo vasculhar novamente um ambiente porque uma combinação estava menos visível do que deveria. O primeiro caso premia observação; o segundo interrompe a narrativa. A repetição de fechaduras e pequenos bloqueios também pode dar aos capítulos uma cadência previsível: investigar uma sala, encontrar um código, abrir outra passagem e começar a busca outra vez.

A versão revisada reorganiza quebra-cabeças e abandona parte das tarefas mais repetitivas da edição antiga, uma decisão acertada para a proposta. Ainda assim, a estrutura permanece muito dependente de encontrar o item correto. O jogo oferece momentos de dedução, mas não constrói um sistema investigativo suficientemente aberto para permitir interpretações ou hipóteses diferentes. O jogador descobre a resposta pensada pelo roteiro, em vez de efetivamente montar seu próprio caso.

É nesse ponto que a comparação com a nossa análise de Next of Kin: Epiphany ajuda a entender a diferença de abordagem. Enquanto um sistema de interrogatórios pode transformar evidências em confronto de versões, Beyond The Evil está mais preocupado em transformar evidências em acesso a novos ambientes. As duas propostas são legítimas; a segunda só precisa evitar que os mecanismos pareçam mais importantes do que o mistério.

A investigação da família Juniper é melhor do que seu protagonista

O caso ganha interesse ao apresentar Matthew Juniper e as informações relacionadas ao irmão Dresden. Os rastros deixados pela família conectam a cena inicial a algo maior do que um homicídio isolado. O parceiro Lukas Smith, que auxilia Gary à distância, também oferece um contraponto útil: o investigador recolhe materiais, enquanto as informações recebidas ajudam a reorganizar suspeitas e direcionar a busca.

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O roteiro acerta ao permitir que a escala da ameaça cresça a partir de descobertas relativamente pequenas. Uma carta pode abrir uma dúvida; uma informação sobre a família pode transformar essa dúvida em suspeita; um registro de pesquisa muda o significado de tudo o que parecia apenas estranho. O melhor da história está nessa mudança gradual de contexto, não em um susto específico.

Gary, porém, funciona melhor como ponto de vista do que como personagem. Seu trabalho justifica a presença nos cenários, mas a investigação raramente encontra um conflito interno tão forte quanto o problema que ele tenta resolver. Sem um protagonista memorável, as revelações acabam carregando quase sozinhas o peso emocional da narrativa. Os outros envolvidos despertam mais curiosidade pelo que escondem do que pela complexidade das relações que constroem.

As decisões próximas ao desfecho oferecem resultados diferentes e dão algum motivo para revisitar o caso, embora não transformem a campanha inteira numa história em que cada pequena escolha altera o destino. O impacto está concentrado na reta final. Isso não é necessariamente ruim para uma aventura curta, mas limita a sensação de que estivemos conduzindo a investigação à nossa maneira.

Beyond The Evil 20261025190253
Seu trabalho justifica a presença nos cenários, mas a investigação raramente encontra um conflito interno tão forte quanto o problema que ele tenta resolver.

Quando observar deixa de ser suficiente, o jogo encontra outra forma de tensão

Um dos movimentos mais interessantes aparece na mudança de dinâmica associada ao capítulo final. Matthew deixa de ser apenas um nome reconstruído por papéis e pistas, e o jogo passa a trabalhar com uma ameaça mais presente. A nova estrutura dessa parte inclui esconderijos e recursos para acompanhar a posição do perigo, o que altera a relação com os ambientes.

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Até então, a maior parte do risco estava naquilo que Gary poderia descobrir. Agora, o espaço também importa por onde é possível passar, quando se deve parar e de que maneira evitar ser encontrado. O mesmo costume de examinar os cômodos muda de significado: conhecer a disposição dos móveis pode ser tão importante quanto encontrar uma anotação. É uma boa forma de converter atenção em sobrevivência sem abandonar por completo a proposta de terror sem combate convencional.

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A transição, contudo, evidencia um problema de ritmo. A investigação passou boa parte do tempo ensinando o jogador a parar e examinar os menores detalhes; pedir agilidade e cautela diante de uma ameaça ativa muda o tipo de pressão quase de uma vez. O contraste funciona dramaticamente, mas também mostra como o jogo se apoia em dois modos de tensão que nem sempre convivem com a mesma naturalidade.

O PS5 recebe uma atmosfera eficiente, mas falta clareza na apresentação

Os melhores elementos audiovisuais estão na iluminação restrita e no som. Um corredor escuro não precisa estar cheio de eventos para provocar incômodo. O efeito nasce da hesitação antes de entrar, do vazio de uma residência que deveria ter sinais de vida e dos ruídos que ganham importância porque a tela nem sempre mostra de onde vêm.

Beyond The Evil 20261025193217
Em outros momentos, a apresentação rígida e o acabamento mais simples reduzem a força de uma revelação ou fazem uma interação parecer mecânica demais.

Esse uso de espaço e silêncio combina com o formato de produção independente. A direção visual não precisa competir com grandes jogos de terror; precisa convencer o jogador a observar. Parte dos objetos e cenários consegue isso. Em outros momentos, a apresentação rígida e o acabamento mais simples reduzem a força de uma revelação ou fazem uma interação parecer mecânica demais.

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O problema mais sensível, especialmente em uma experiência de sofá e televisão, é a leitura. Se a solução de um enigma depende de notas, impressões ou números em fechaduras, a informação visual deve ser clara. Textos pequenos, áreas muito escuras e detalhes discretos podem aumentar a dificuldade sem acrescentar profundidade. Escuridão deve esconder ameaças; não a informação necessária para resolver um puzzle.

Há textos em português brasileiro na edição de PlayStation, um recurso importante numa aventura tão dependente de leitura. A campanha também não tenta preencher dezenas de horas com uma estrutura artificial. Seu formato mais concentrado favorece o mistério, embora os bloqueios sucessivos façam algumas sequências parecerem mais longas do que realmente são.

Entre os terrores de exploração já analisados pelo Overdrive, The Alighieri Circle oferece outra interpretação de como um ambiente pode conduzir uma história sem depender de combates. Beyond The Evil troca o simbolismo sobrenatural por uma investigação policial com raízes em experimentos científicos. Sua personalidade está justamente no esforço de fazer a descoberta de objetos comuns parecer perigosa.

AssuntosPlayStation
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