Watch Dogs: como uma promessa gigante desgastou a franquia

Maior estreia de uma nova franquia na história da Ubisoft, jogo chegou a 10 milhões de unidades, mas ficou marcado pelo downgrade e pela quebra de confiança com o público

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Em junho de 2012, a Ubisoft encerrou sua conferência na E3 com um jogo que ninguém conhecia. Um homem de sobretudo atravessava uma Chicago chuvosa enquanto usava o celular para controlar semáforos, invadir câmeras e provocar acidentes. Informações pessoais surgiam sobre a cabeça de cada pedestre, como se a cidade inteira estivesse conectada a uma única rede.

PlayStation 4 e Xbox One ainda nem tinham sido anunciados, mas Watch Dogs parecia antecipar a geração seguinte. A iluminação, os reflexos, a chuva e a movimentação das ruas estavam acima do que os mundos abertos daquele período costumavam apresentar.

Dois anos depois, em 27 de maio de 2014, o jogo chegou às lojas e vendeu mais de 4 milhões de cópias na primeira semana. Até o fim daquele ano, alcançou 10 milhões de unidades em sell-in. Mesmo com esses números, passou a ser lembrado como um dos maiores casos de downgrade da indústria.

A explicação envolve mais do que a perda de efeitos gráficos. A Ubisoft adiou o lançamento, elevou a expectativa e passou meses negando diferenças que os jogadores conseguiam ver. Quando o jogo finalmente saiu, uma história irregular e um protagonista pouco carismático não conseguiram mudar a conversa.

A demonstração da E3 virou a principal referência

Watch Dogs começou a ser produzido em 2009 pela Ubisoft Montreal. O projeto usava o codinome Nexus e deu origem à Disrupt, engine desenvolvida a partir de trabalhos relacionados à franquia Driver. Outros estúdios da Ubisoft passaram a apoiar a produção conforme o projeto cresceu.

A apresentação de 2012 rodava em um PC de alto desempenho e funcionava como uma vertical slice, um trecho curto e cuidadosamente preparado para representar a visão do jogo. Esse tipo de demonstração é comum na indústria e não significa, por si só, que o material seja falso. O problema foi a forma como a Ubisoft continuou usando aquela versão para promover o lançamento.

O jogo também precisava funcionar no PlayStation 3 e no Xbox 360, além de PC, PS4, Xbox One e, posteriormente, Wii U. Na prática, a equipe tinha de adaptar a mesma Chicago a máquinas com capacidades muito diferentes.

O lançamento estava marcado para 19 de novembro de 2013, próximo da chegada dos novos consoles. Em 15 de outubro, pouco mais de um mês antes da data, a Ubisoft adiou Watch Dogs para 2014. Segundo a BBC, as ações da empresa caíram mais de 25% após a mudança no calendário e a revisão das projeções financeiras.

Yves Guillemot, CEO da Ubisoft, afirmou que o tempo adicional permitiria atingir a qualidade esperada. A equipe usou os meses extras para revisar atividades e recuperar ideias descartadas, mas a comunicação não explicou como o jogo havia mudado desde a E3. Para o público, o adiamento aumentou a expectativa de que a versão final corresponderia ao material de 2012.

O downgrade dominou o período antes do lançamento

Em março de 2014, comparações entre a demonstração e os vídeos mais recentes começaram a circular em fóruns e redes sociais. As diferenças apareciam na iluminação, nos reflexos, na chuva, nas sombras e na densidade das ruas.

A Ubisoft poderia ter explicado que a apresentação rodava em um PC potente e que recursos mudaram durante a produção de um mundo aberto para várias plataformas. Em vez disso, negou que Watch Dogs tivesse sofrido downgrade.

Entre o início da polêmica e o lançamento havia quase três meses. A empresa manteve a negativa até a chegada do jogo, que rodava em 900p no PS4 e 792p no Xbox One. O resultado ainda era visualmente competente para 2014, mas já não correspondia à referência estabelecida na E3.

Poucas semanas depois, modders encontraram configurações gráficas desativadas na versão de PC, incluindo arquivos com referências à E3. Um usuário conhecido como TheWorse reuniu parte desses recursos em um mod que recuperava efeitos de chuva, profundidade de campo, iluminação e sombras dos faróis.

O mod não reconstruía toda a apresentação de 2012 e apresentava resultados diferentes conforme o computador. Ainda assim, confirmou que parte dos efeitos continuava presente nos arquivos do jogo.

A Ubisoft reconheceu as configurações antigas e afirmou que elas haviam sido desativadas por questões de estabilidade, desempenho, fidelidade visual e qualidade geral. A justificativa era tecnicamente possível, mas entrou em choque com a negativa usada pela empresa nos meses anteriores.

O jogo tinha problemas além dos gráficos

As avaliações de Watch Dogs foram positivas. A versão de PS4 terminou com média 80 no Metacritic, enquanto Xbox One e PC ficaram com 78 e 77, respectivamente. A recepção indicava um bom jogo de ação em mundo aberto, embora abaixo da expectativa criada pela campanha.

Aiden Pearce, porém, dividiu o público. O hacker inicia uma caçada depois da morte da sobrinha e usa o sistema de vigilância de Chicago para perseguir os responsáveis. A história tenta apresentá-lo como um justiceiro obcecado, mas raramente explora as contradições do personagem.

Aiden fala pouco, reage quase sempre com o mesmo tom e mantém distância até nos momentos em que a trama precisa criar empatia. Personagens como Jordi Chin, Clara Lille e T-Bone acabam demonstrando mais personalidade durante suas participações.

A premissa também permitia uma história mais interessante. O celular de Aiden revela profissão, renda, problemas de saúde e segredos dos pedestres. Câmeras acompanham a população, enquanto empresas e criminosos disputam o controle dos dados. Havia espaço para discutir privacidade, vigilância e o poder de quem administra essas informações.

A campanha aborda esses temas, mas retorna com frequência à vingança familiar. O hackeamento tem importância direta na jogabilidade, porém recebe menos profundidade no roteiro.

Chicago é a parte que melhor sustenta a proposta. A cidade tem bairros distintos, clima pesado e ruas que combinam com a atmosfera da história. Os perfis dos pedestres reforçam a sensação de que todas as pessoas estão expostas pelo ctOS, mesmo quando as informações não afetam uma missão.

O hackeamento também funciona bem durante perseguições. Alterar semáforos, levantar barreiras, explodir tubulações e alternar entre câmeras dá ao jogador opções que outros mundos abertos da época não ofereciam.

O multiplayer de invasão aproveita ainda melhor essas ideias. Outro jogador entra na partida, mistura-se aos pedestres e tenta roubar dados enquanto o alvo procura comportamentos suspeitos. O modo transforma o cenário em um jogo de observação e continua sendo uma das mecânicas mais lembradas da série.

Watch Dogs vendeu muito, mas prejudicou a própria franquia

Watch Dogs não foi um fracasso comercial. Mais de 800 mil cópias foram reservadas antes da estreia, e as 4 milhões de unidades vendidas ao consumidor na primeira semana representaram o melhor lançamento de uma nova propriedade intelectual na indústria, segundo a Ubisoft.

Em julho de 2014, a empresa informou que havia enviado mais de 8 milhões de cópias ao mercado. O total passou de 9 milhões em outubro e chegou a 10 milhões até o trimestre encerrado em dezembro. O último número era de sell-in, termo usado para unidades comercializadas pela Ubisoft aos canais de distribuição.

No Reino Unido, o jogo estabeleceu o recorde de maior estreia de uma nova franquia. A marca durou cerca de três meses e meio, até ser superada por Destiny em setembro.

O desempenho garantiu uma sequência, mas o primeiro jogo havia associado a marca ao downgrade. Quando Watch Dogs 2 chegou, em novembro de 2016, a Ubisoft apresentou um protagonista mais carismático, sistemas de hackeamento ampliados e um tom menos pesado. A recepção foi melhor, mas as vendas iniciais ficaram abaixo das expectativas.

Com o tempo, Watch Dogs 2 também ultrapassou 10 milhões de unidades, segundo dados divulgados pela Ubisoft em 2020. O resultado mostrou que o jogo encontrou público no longo prazo, embora a estreia não tenha repetido a força do primeiro.

Watch Dogs: Legion tentou outra mudança em outubro de 2020. A possibilidade de recrutar praticamente qualquer personagem de Londres substituiu o protagonista fixo, mas dificultou a construção de vínculos com o elenco. A franquia não recebeu um capítulo principal desde então.

O que aconteceu com Watch Dogs em 2026

A Ubisoft nunca anunciou o fim da série, mas também não revelou Watch Dogs 4. Em janeiro de 2026, Tom Henderson, do Insider Gaming, afirmou que a propriedade estaria “completamente morta” dentro da empresa após o desempenho de Legion. A informação não foi confirmada oficialmente.

Em julho, o Insider Gaming publicou que a Ubisoft prepara uma versão atualizada de Watch Dogs: Legion, com conteúdo e missões adicionais gravados recentemente. O projeto ainda não foi anunciado, e não está claro se será apresentado como edição definitiva, relançamento ou atualização.

O filme baseado em Watch Dogs também continua em produção. O longa é dirigido por Mathieu Turi e tem Sophie Wilde, Tom Blyth e Markella Kavenagh no elenco. As filmagens principais terminaram em setembro de 2024, e Blyth confirmou posteriormente a realização de gravações adicionais. A adaptação contará uma história original no universo da série e segue sem data de estreia.

A franquia ainda consegue atrair jogadores. Em julho de 2026, Watch Dogs 2 voltou a registrar mais de 16 mil usuários simultâneos no Steam após receber um desconto de 95%. O aumento não confirma um novo jogo, mas demonstra que existe interesse pelo catálogo.

Vale a pena jogar Watch Dogs hoje?

Watch Dogs ainda vale a pena pela ambientação de Chicago, pelas perseguições baseadas em hackeamento e pelo multiplayer de invasão. Também ajuda a entender por que o downgrade se tornou uma discussão tão importante durante a transição para PS4 e Xbox One.

As limitações aparecem na repetição de atividades, na direção dos veículos e no ritmo da campanha. Aiden Pearce ganhou defensores ao longo dos anos, mas continua menos acessível do que Marcus Holloway, protagonista de Watch Dogs 2.

No PC, mods podem melhorar iluminação, chuva, texturas e outros efeitos. Nenhum deles reproduz perfeitamente a demonstração da E3, e a compatibilidade varia entre os projetos.

Para quem pretende jogar apenas um título da franquia, Watch Dogs 2 é a opção mais completa. O primeiro continua indicado para quem prefere uma história mais sombria e a ambientação de Chicago.

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