Fundada em 2008, a Don’t Nod construiu sua reputação apostando em narrativas sensíveis, personagens falhos e escolhas com peso dramático. Desde Remember Me, o estúdio já demonstrava interesse em contar histórias de forma menos convencional, mas foi com Life is Strange que encontrou sua identidade mais reconhecível. Lost Records: Bloom & Rage nasce muito desse reencontro com o próprio passado. Não como cópia direta, mas como uma obra que entende de onde veio e tenta transformar essa bagagem em algo novo.
Lançado em duas partes, com a Tape 1 chegando em 18 de fevereiro e a Tape 2 em 15 de abril de 2025 para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC, o jogo apresenta uma narrativa que cruza memória, trauma e amizade com um tom contemplativo desde os primeiros minutos. A análise foi feita na versão de PlayStation 5, onde o título chegou pelo catálogo da PlayStation Plus.
O enredo aposta em mistério, memória e feridas antigas
A história se passa em Velvet Cove, no estado de Michigan, e acompanha quatro amigas que voltam a se encontrar 27 anos depois de romperem completamente o contato. Nora, Swann, Kat e Autumn viveram, no verão de 1995, uma amizade intensa e formadora, dessas que parecem definitivas enquanto existem. Só que um acontecimento traumático mudou tudo e criou entre elas um pacto silencioso de afastamento. O reencontro no presente faz esse passado voltar à superfície.

No centro da narrativa está Swann, personagem controlada pelo jogador tanto no passado quanto no presente. É através dela que o jogo reconstrói os laços entre o grupo e começa a revelar, com bastante calma, os contornos do mistério envolvendo Velvet Cove e o chamado Abismo. A primeira metade da campanha escolhe deliberadamente a lentidão, quase sempre priorizando atmosfera e construção de personagem em vez de respostas rápidas.
Isso pode afastar quem espera uma trama mais imediata. Ao mesmo tempo, é justamente essa escolha que ajuda a dar mais peso emocional ao que vem depois.
A força está na escrita das relações
Um dos maiores acertos do jogo está na forma como a Don’t Nod escreve vínculos humanos. Cada personagem tem identidade clara, conflitos próprios e uma dinâmica muito específica com Swann. O afeto entre essas garotas não precisa ser verbalizado o tempo inteiro para existir. Ele aparece em silêncios, pequenas conversas, gestos contidos e na forma como a memória reorganiza o que aconteceu.
Esse cuidado dá à campanha uma base emocional sólida e evita que a história pareça apenas um suspense adolescente estilizado.
As escolhas voltam a ser o coração da experiência
É impossível olhar para Lost Records: Bloom & Rage sem pensar em Life is Strange, e o jogo nem tenta fugir disso. A semelhança aparece no tom melancólico, no ritmo mais observador e na maneira como as escolhas afetam tanto a narrativa quanto o nível de intimidade entre os personagens. Há inclusive pequenos ecos mais diretos, quase como acenos para quem acompanha o estúdio há anos.
Mas o jogo não vive apenas dessa associação. As decisões têm função real dentro da experiência. Algumas mudam o tom de certas cenas e a proximidade entre Swann e as amigas. Outras interferem em pontos mais estruturais da história.
O passado segue vivo o tempo todo
O sistema de afinidade ajuda bastante a dar forma a isso. O jogador pode estreitar laços com determinadas personagens, equilibrar relações ou simplesmente deixar algumas conexões esfriarem. O resultado é uma narrativa em que o passado não funciona só como pano de fundo. Ele é matéria viva.

As escolhas feitas em 1995 reverberam 27 anos depois, influenciando não apenas a relação entre as quatro amigas, mas também a forma como cada uma lida com o que foi perdido, escondido ou mal resolvido. Ao fim de cada fita, o resumo estatístico das decisões funciona quase como um espelho, mostrando o que foi alterado e sugerindo o quanto pequenas mudanças poderiam levar a trajetórias diferentes.
A campanha encontra força na atmosfera
Um dos maiores méritos de Lost Records: Bloom & Rage está no tom. A Don’t Nod sabe trabalhar muito bem a sensação de nostalgia, mas evita transformar isso em caricatura. Velvet Cove não é só um cenário bonito embalado por referências aos anos 1990. Há ali uma tristeza suspensa, um desconforto constante, como se a cidade soubesse mais do que mostra.
Essa construção ajuda bastante o mistério e mantém a curiosidade viva mesmo quando a história anda devagar. Também funciona a maneira como o jogo mistura drama adolescente com algo mais sombrio e indefinido. Não é um suspense feito de viradas espalhafatosas. É uma narrativa que prefere infiltrar inquietação aos poucos, obrigando o jogador a conviver com perguntas antes de receber respostas. Quando isso funciona, funciona muito bem.
A campanha não é longa, ficando em torno de nove a dez horas, mas consegue parecer maior pela densidade emocional que carrega. Existe coesão entre as duas fitas e uma noção clara de unidade, como se o jogo soubesse exatamente qual experiência quer entregar. Esse senso de direção ajuda bastante a sustentar o interesse até o fim.
Nem tudo funciona no mesmo nível no PlayStation 5
Se a parte narrativa é segura, o mesmo não pode ser dito do desempenho técnico. No PlayStation 5, Lost Records: Bloom & Rage apresenta quedas de framerate perceptíveis, especialmente em áreas com vegetação mais densa e em cenas abertas em ambientes naturais. Como o jogo já roda a 30 quadros por segundo, qualquer oscilação acaba ficando ainda mais visível.
Também há bugs menores espalhados pela campanha. O mais incômodo aconteceu em uma cena da Tape 2, quando uma conversa simplesmente se recusou a avançar, obrigando o reinício a partir do último checkpoint. Em outro momento que deveria ser dramático, uma personagem ficou parada de forma estranha em meio a um incêndio, criando um efeito involuntariamente cômico.
Nada disso destrói a experiência, mas são ruídos desnecessários em um jogo tão dependente de atmosfera e envolvimento emocional.

Vale a pena jogar Lost Records: Bloom & Rage?
Vale, especialmente para quem gosta de aventuras narrativas que priorizam personagem, diálogo e construção emocional acima de ação ou ritmo acelerado. Lost Records: Bloom & Rage não tem pressa de impressionar em cinco minutos. Ele quer tempo. Quer que o jogador observe, escute e monte aos poucos a dimensão do que aconteceu com aquelas quatro garotas.
Para uma parte do público, isso pode soar lento demais. Para outra, é justamente esse tipo de entrega que anda fazendo falta.
Há um respeito muito claro pelo legado da Don’t Nod, mas sem a sensação de mera reciclagem. O jogo encontra voz própria quando deixa o mistério respirar e confia na força do seu elenco. Mesmo com tropeços técnicos, é uma experiência que toca em temas delicados com cuidado e cria vínculo real com suas personagens.

