A Hazelight Studios construiu uma trajetória muito própria dentro da indústria. Em um cenário em que tantas produções tentam abraçar o máximo de públicos possível, o estúdio de Josef Fares preferiu seguir outro caminho e apostar forte em experiências cooperativas pensadas para dois jogadores. Foi assim com A Way Out e, principalmente, com It Takes Two, vencedor do The Game Awards de 2021 mesmo disputando espaço com nomes muito maiores em alcance e orçamento.
Split Fiction chega justamente como mais um passo dessa identidade tão bem definida. Revelado oficialmente em 12 de dezembro de 2024, durante o The Game Awards, depois de vários vazamentos, o jogo apareceu com um trailer vibrante de gameplay narrado por Josef Fares e com lançamento marcado para 6 de março de 2025. Desde a apresentação, já ficava claro que a proposta seguiria a vocação do estúdio para experiências cooperativas, mas agora com uma nova camada de ambição.
Para esta análise, a experiência foi no PlayStation 5, em uma campanha jogada ao lado do meu amigo Guilherme. Nossa jornada por esse caos interdimensional durou cerca de 15 horas, tempo mais do que suficiente para perceber que a Hazelight talvez tenha entregado aqui seu trabalho mais criativo até agora.
História e personagens
Split Fiction gira em torno de duas protagonistas com personalidades e universos muito diferentes. Mio tem ligação direta com a ficção científica, enquanto Zoe representa a fantasia. Essa oposição não está só no conceito geral do jogo, mas também molda a estrutura da campanha, que alterna os dois estilos ao longo dos capítulos.

As duas começam a aventura como completas desconhecidas, empurradas para situações extremas por um evento específico que as obriga a sobreviver juntas dentro de mundos que parecem sair de suas próprias narrativas. O que começa como uma convivência forçada, marcada por desconfiança e tensão, aos poucos evolui para uma relação mais forte.
Esse crescimento funciona bem porque o jogo entende que não precisa exagerar na exposição para vender a aproximação entre elas. A amizade surge de forma gradual, conforme cada desafio superado derruba uma barreira. O vínculo cresce durante a jornada, e a sensação é de que a campanha usa bem o tempo para fazer essa relação amadurecer.
Gameplay e progressão mantêm o ritmo sempre alto
A jogabilidade de Split Fiction parece uma evolução natural do que a Hazelight já havia construído em It Takes Two. A diferença é que aqui a troca constante entre ficção científica e fantasia deixa o ritmo ainda mais acelerado. O jogo raramente para por muito tempo e dificilmente dá espaço para monotonia. É ação atrás de ação, ideia atrás de ideia.
Com cerca de uma hora de campanha, já fica fácil entender a lógica da progressão. O jogo quer surpreender o tempo todo, alternando cenários, mecânicas e habilidades de forma quase ininterrupta. Isso funciona muito bem porque mantém a sensação de novidade sempre viva.
Outro acerto importante está na forma como Mio e Zoe não se diferenciam apenas como personagens, mas também no jeito de jogar. Cada uma recebe habilidades específicas em momentos diferentes da campanha, e isso faz com que a experiência coop de fato dependa de colaboração. Não basta só estar com outra pessoa no mesmo jogo. É preciso se comunicar, observar e entender como as habilidades das duas se complementam.

Essa escolha torna a campanha ainda mais valiosa e aumenta muito a vontade de revisitar a jornada depois, invertendo os papéis para ver como determinadas seções funcionam do outro lado.
Criatividade impressiona do começo ao fim
Algumas áreas surpreendem tanto que a reação natural é parar por alguns segundos só para admirar o que está acontecendo. Em vários momentos da campanha, a sensação foi justamente essa: ficar olhando para a tela e pensando em como alguém teve aquela ideia e, mais importante, conseguiu fazer aquilo funcionar tão bem.
Existem trechos que parecem simples à primeira vista, mas escondem soluções muito inteligentes. Em outros, a campanha exige sincronia total, saltos precisos, leitura rápida de cenário e adaptação a regras que mudam o tempo todo. Tudo isso é feito de forma muito criativa, quase sempre sem parecer excesso gratuito.
A sensação de descoberta é constante, e o design de fases deixa claro o cuidado da equipe em transformar cada nova área em algo memorável. Quase sempre existe uma mecânica inédita, uma surpresa visual ou uma brincadeira com o próprio formato do jogo.
Histórias secundárias ampliam ainda mais a experiência
Em determinados pontos da campanha, as protagonistas encontram portais que funcionam como histórias secundárias. Essas seções paralelas são um dos maiores acertos do jogo. Elas funcionam como janelas para ideias descartadas, versões alternativas de conceitos ou experimentos criativos que poderiam ter seguido outros caminhos.
Além de ampliarem o universo do jogo, esses trechos ajudam a reforçar ainda mais a sensação de variedade. São interrupções muito bem-vindas dentro da campanha principal, sempre com ideias fortes o bastante para parecer conteúdo de destaque, e não mero extra.
Humor e referências ajudam o jogo a ganhar personalidade
Split Fiction também acerta ao não se levar sério demais. O jogo é cheio de brincadeiras, piadas e referências a outras obras e franquias. Algumas delas são bem fáceis de perceber, enquanto outras aparecem de maneira mais discreta. Durante a jogatina, foi muito divertido parar por alguns segundos só para comentar se aquilo era ou não uma referência ao que estávamos pensando.
Esse tipo de detalhe ajuda bastante a dar ainda mais carisma ao pacote. Não é o que sustenta o jogo, mas certamente contribui para deixá-lo mais vivo e mais gostoso de acompanhar.
Desempenho no PlayStation 5 é excelente
Ao longo de cerca de 15 horas no PlayStation 5, o desempenho foi extremamente sólido. O jogo roda com muita estabilidade e oferece uma experiência bastante suave do começo ao fim.

Mesmo com apenas um modo focado em 60 FPS nos consoles, a resolução se mantém muito boa durante toda a campanha, garantindo imagens limpas e detalhadas. Isso faz diferença principalmente em um jogo tão dinâmico, em que legibilidade visual e fluidez importam muito.
Seja em momentos mais calmos de exploração, seja em sequências intensas de ação, Split Fiction se manteve estável. Em um momento da indústria em que tantos lançamentos chegam acompanhados de problemas técnicos relevantes, é muito bom ver um jogo desse porte funcionar tão bem logo de saída.
Bugs aparecem pouco, mas existem
Em relação a bugs, a experiência foi positiva na maior parte do tempo, embora alguns problemas tenham aparecido. Em um dos primeiros capítulos, por exemplo, houve um momento em que atravessamos o chão e caímos sem parar no limbo do cenário. Em outro trecho, meu amigo ficou preso em uma área e tivemos que reiniciar a partir do último checkpoint.
Nada disso comprometeu de fato a campanha, mas são pequenas falhas que ainda assim merecem ser citadas.
Friend’s Pass e cross-play são grandes acertos
O Passe de Amigo continua sendo uma das melhores ideias da Hazelight e funciona muito bem em Split Fiction. O sistema permite que apenas uma pessoa tenha a cópia completa do jogo, enquanto a outra baixa gratuitamente a versão específica para jogar junto.
O download já está disponível nas principais lojas digitais, como Steam, Xbox Store e PlayStation Store. Se os dois jogadores estiverem na mesma plataforma, basta o dono do jogo convidar o amigo para o lobby. Já no caso de plataformas diferentes, é necessário adicionar o outro jogador pela conta da EA usando o ID online. Depois disso, o convite pode ser feito normalmente.

É um sistema simples, funcional e que faz total sentido em um jogo desse tipo. O cross-play também é muito bem-vindo, porque amplia bastante as possibilidades de jogar com amigos sem se prender ao mesmo ecossistema.
O que não funcionou tão bem
Apesar de eu ter gostado muito da experiência, existem alguns pontos que poderiam ter sido melhores. O primeiro deles está na reta final. Embora o jogo mantenha um nível alto de qualidade até o fim, senti que as etapas mais avançadas não foram tão inventivas e empolgantes quanto as primeiras horas.
Ainda há qualidade ali, mas a sensação de frescor perde um pouco da força. O impacto das primeiras grandes surpresas acaba sendo difícil de repetir no mesmo nível mais adiante.
Outro ponto é o aproveitamento limitado do DualSense. Para um jogo tão criativo, é uma pena que o controle do PS5 não seja usado de maneira mais marcante. O feedback háptico e os gatilhos adaptáveis poderiam ter ajudado bastante na imersão.
Também senti falta de mais portais de histórias secundárias. Existem 12 dessas seções, e elas são excelentes. O problema é que acabam cedo demais. Depois do último portal, a campanha ainda segue por um bom tempo sem apresentar nada parecido. Ter mais dessas ideias espalhadas pelo restante da jornada teria deixado o jogo ainda mais memorável.

Vale a pena jogar Split Fiction?
Sim, e com folga. Split Fiction reafirma a Hazelight como uma das grandes especialistas em jogos cooperativos. A campanha é criativa, variada, divertida e muito bem ritmada. A alternância entre ficção científica e fantasia impede que a experiência fique previsível, enquanto a cooperação entre as protagonistas dá sentido real à proposta para dois jogadores.
Mais importante do que isso, o jogo nunca parece depender só do conceito para funcionar. Há substância de sobra em sua execução. As ideias são boas, o ritmo é forte, o desempenho técnico é excelente e a campanha consegue criar momentos realmente memoráveis.
Mesmo com pequenas limitações, como a reta final um pouco menos brilhante e o uso tímido do DualSense, o saldo final é extremamente positivo.

