Quando se pensa em um jogo de aventura e puzzle, uma freira na Rússia do século XIX não é exatamente a primeira imagem que vem à mente. Ainda assim, é justamente essa combinação incomum que faz INDIKA chamar atenção desde os primeiros minutos.
Desenvolvido pelo estúdio russo Odd Meter e dirigido por Dmitry Svetlow, o jogo acompanha Indika, uma jovem freira encarregada de levar uma carta do monastério onde vive até outro local. A missão parece simples, mas o desconforto aparece rápido. Logo no início, fica claro que Indika é rejeitada pelas outras freiras, e essa hostilidade faz o jogador questionar as verdadeiras intenções por trás da tarefa.
Aos poucos, o jogo revela uma protagonista marcada por culpa, desejo, repressão e dúvidas. Diferente das demais residentes do monastério, Indika carrega uma humanidade que parece incomodar aquele ambiente. Em um mundo regido por rigidez moral, talvez seu maior “pecado” seja justamente ser humana.
Uma história sobre fé, culpa e contradição
Durante sua jornada, Indika passa a ser acompanhada por dois companheiros incomuns: Ilya, um criminoso fugitivo que acredita ter testemunhado Deus, e o próprio diabo, que vive dentro da cabeça da protagonista.

A relação entre eles define o tom da obra. Ilya representa uma fé absoluta, quase desesperada, movida pela busca de redenção e milagre. O diabo, por outro lado, surge como uma presença provocadora, pragmática e cheia de contradições. Ele expõe os “pecados” de Indika, questiona sua fé e ironiza a ideia de divino.
É nessa tensão que INDIKA encontra seu maior charme. Os diálogos são carregados de debates sobre ética, moralidade, culpa, livre-arbítrio e a eterna disputa entre bem e mal. O jogo evita respostas fáceis e prefere colocar o jogador no meio desse conflito, sem transformar ninguém em dono da verdade.
O melhor de INDIKA está nos diálogos
Ao contrário de muitas obras que tratam fé e razão de forma simplista, INDIKA busca aprofundar suas discussões. O jogo evita reduções óbvias e constrói conversas que passam por filosofia, religião e crítica social com uma maturidade rara nos games.
Há ecos de autores como Nietzsche e de debates clássicos sobre Deus, pecado e moralidade. Ainda assim, o texto não parece uma aula. Ele funciona porque nasce dos personagens e das situações que eles vivem.
Indika, nesse meio, não é apenas alguém dividida entre dois extremos. Ela tem sua própria fé, suas próprias contradições e uma visão de mundo em formação. Em alguns momentos, discorda. Em outros, se deixa contaminar pela dúvida. Essa oscilação torna sua jornada mais interessante e transforma uma entrega aparentemente simples em uma história de autodescoberta.
A Rússia surrealista do século XIX
INDIKA se passa em uma versão alternativa da Rússia do século XIX. O jogo não deixa claro o ano exato, mas espalha pistas históricas pelos cenários, diálogos e documentos. Há referências a tensões políticas, guerras, desigualdade e ideias socialistas em ascensão, com imagens e símbolos que remetem a figuras como Karl Marx.
Esse contexto ajuda a dar profundidade ao mundo, mas o jogo não se limita ao realismo histórico. Pelo contrário. Sua ambientação trabalha principalmente com o surrealismo, distorcendo elementos cotidianos até o absurdo.

Igrejas, fábricas, vilarejos e estruturas industriais aparecem em escalas exageradas, criando uma sensação constante de familiaridade e estranhamento. É um mundo reconhecível, mas sempre deslocado, como se tudo estivesse sendo filtrado pela mente atormentada da protagonista.
Visualmente, INDIKA é um jogo marcante. Não faltam momentos em que a vontade é simplesmente parar e observar a composição dos cenários.
Jogabilidade deixa a desejar, mas tem bons momentos
O ponto mais delicado de INDIKA é justamente sua parte mais “videogame”. Em termos simples, estamos diante de uma aventura narrativa com puzzles. O problema é que muitos desses quebra-cabeças são funcionais, mas pouco inspirados.

A maior parte envolve empurrar objetos, acionar mecanismos ou interagir com elementos do cenário em uma ordem específica. Eles se encaixam bem no ambiente e raramente quebram a atmosfera, mas também não chegam a desafiar muito.
Em vários momentos, fica a sensação de que os puzzles existem apenas para interromper a caminhada e dar algum respiro à narrativa. Isso não arruína a experiência, mas limita o impacto da jogabilidade.
Quando o jogo foge desse padrão, o resultado melhora. Trechos de perseguição, momentos com maquinários e pequenas variações de controle ajudam a dar mais ritmo à jornada. São passagens breves, mas mostram que INDIKA poderia ter ousado mais nesse aspecto.
Vale a pena jogar INDIKA?
Sim, especialmente se você busca uma experiência narrativa diferente, com forte identidade visual e temas pouco explorados nos games. INDIKA não é um jogo para quem espera puzzles complexos ou ação constante. Sua força está na escrita, na atmosfera e na coragem de discutir fé, culpa e contradição sem entregar respostas fáceis.
É uma obra estranha, contemplativa e, em vários momentos, desconfortável. Mas é justamente isso que a torna especial.

