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Para ir mais longe no espaço, humanos talvez precisem levar a própria gravidade

Novo estudo propõe um enorme habitat espacial giratório, enquanto pesquisas da NASA e ESA mostram por que meses sem a gravidade da Terra cobram um preço alto do corpo humano

Astronauta Bob Hines faz exercício no equipamento ARED dentro da Estação Espacial Internacional
Astronauta Bob Hines usa o Advanced Resistive Exercise Device, equipamento que simula exercícios com pesos na Estação Espacial Internacional. Imagem: NASA.
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Podemos construir foguetes mais potentes, carregar mais combustível e desenvolver motores capazes de reduzir o tempo de uma viagem até Marte. Mas existe um problema que nenhuma dessas tecnologias resolve sozinha: o corpo humano não foi feito para viver durante meses ou anos praticamente sem peso.

Na microgravidade, músculos enfraquecem, ossos perdem minerais, líquidos corporais se redistribuem e o sistema cardiovascular deixa de trabalhar contra a força que enfrentou durante toda a evolução humana. Segundo a NASA, ossos responsáveis por sustentar o peso do corpo podem perder, em média, entre 1% e 1,5% de sua densidade mineral por mês durante voos espaciais.

É por isso que uma ideia que durante décadas pareceu pertencer mais à ficção científica voltou ao centro de pesquisas e projetos de engenharia: em vez de adaptar continuamente o corpo à ausência de peso, por que não fazer a nave produzir sua própria gravidade?

Um estudo publicado na edição de outubro de 2026 da revista científica Acta Astronautica leva justamente essa proposta a uma escala gigantesca.

Astronauta Bob Hines faz exercício no equipamento ARED dentro da Estação Espacial Internacional
Astronauta Bob Hines usa o Advanced Resistive Exercise Device, equipamento que simula exercícios com pesos na Estação Espacial Internacional. Imagem: NASA.

O corpo começa a mudar quando a gravidade desaparece

A primeira coisa a esclarecer é que os astronautas da Estação Espacial Internacional não estão em um lugar onde a gravidade deixou de existir.

A estação e tudo dentro dela estão continuamente em queda ao redor da Terra. Como estrutura e tripulação caem juntas, surge a condição conhecida como microgravidade, na qual os astronautas parecem flutuar.

Para o organismo, porém, essa mudança é profunda.

A NASA classifica alterações nos campos gravitacionais entre os principais riscos fisiológicos que precisam ser enfrentados em missões humanas de longa duração.

Sem a carga constante existente na Terra, os ossos começam a perder minerais. Músculos responsáveis por sustentar o corpo também trabalham muito menos e podem perder massa e força.

O sistema cardiovascular precisa se adaptar. Líquidos corporais que normalmente são puxados para as pernas se deslocam em direção à parte superior do corpo, enquanto equilíbrio, coordenação e orientação espacial também precisam funcionar em condições completamente diferentes.

A própria NASA destaca que uma missão para Marte colocaria os astronautas diante de três ambientes gravitacionais diferentes: microgravidade durante a viagem, aproximadamente um terço da gravidade terrestre na superfície marciana e novamente 1 g quando retornassem à Terra.

Duas horas de exercícios por dia não são por estética

É por isso que fazer exercícios é praticamente parte do trabalho de um astronauta.

Segundo a NASA, tripulantes da Estação Espacial Internacional fazem em média duas horas de exercícios por dia.

Um dos principais equipamentos é o Advanced Resistive Exercise Device, conhecido pela sigla ARED.

Como levantar uma barra convencional não funcionaria da mesma maneira em microgravidade, o equipamento utiliza sistemas mecânicos para produzir resistência e reproduzir parte das cargas encontradas em exercícios realizados na Terra.

Os astronautas também usam bicicleta ergométrica e esteira.

Isso ajuda a reduzir a perda muscular e óssea, mas consome espaço dentro da estação, exige manutenção e ocupa uma parcela considerável da rotina.

Em uma nave que viaje durante anos, isso se transforma em uma questão ainda mais importante.

Marte transforma o problema em algo muito maior

Uma tripulação enviada a Marte poderia passar aproximadamente seis meses viajando em cada direção, dependendo da trajetória e da tecnologia utilizada.

Ao chegar, esses astronautas não poderiam simplesmente descansar durante semanas enquanto o organismo se adapta.

Seria necessário caminhar, operar equipamentos, montar estruturas, realizar experimentos e estar fisicamente preparado para emergências.

Marte tem aproximadamente 38% da gravidade encontrada na superfície da Terra.

A grande questão é que ainda não sabemos exatamente como o organismo humano responderia após anos vivendo permanentemente sob uma gravidade parcial desse tipo.

A Lua traz uma pergunta parecida em escala ainda mais extrema, porque sua gravidade representa apenas aproximadamente 16% da terrestre. O Overdrive mostrou recentemente como novas descobertas feitas pela NASA na superfície lunar também ajudam a entender os riscos que futuras bases terão de enfrentar.

A solução mais radical é fazer a nave inteira girar

Existe uma maneira relativamente simples, pelo menos do ponto de vista da física, de produzir algo semelhante à gravidade dentro de uma nave:

fazê-la girar.

Imagine uma enorme roda no espaço. Os astronautas viveriam próximos à borda interna dessa estrutura.

Conforme o habitat gira, o piso exerce força sobre seus ocupantes e produz uma aceleração que pode criar a sensação de peso.

Não significa que uma nova força gravitacional esteja sendo criada como ocorre em um planeta. A sensação surge por causa da aceleração produzida pela rotação.

A NASA estuda conceitos desse tipo há décadas. Em um projeto apresentado pelo programa NIAC, pesquisadores chegaram a propor uma estrutura espacial de escala quilométrica capaz de girar entre uma e duas vezes por minuto para produzir aproximadamente 1 g.

Quanto menor a nave, mais rápido ela precisa girar

A aceleração produzida depende principalmente de duas variáveis: o raio da estrutura e sua velocidade de rotação.

Isso cria uma relação importante: quanto maior for o habitat, mais lentamente ele pode girar para produzir a mesma aceleração.

Raio aproximadoRotação necessária para cerca de 1 g
10 metroscerca de 9,5 rpm
100 metroscerca de 3 rpm
400 metroscerca de 1,5 rpm
1 quilômetromenos de 1 rpm

Uma pequena nave girando quase dez vezes por minuto poderia ser extremamente desconfortável.

Movimentos da cabeça e deslocamentos dentro da estrutura geram efeitos relacionados à força de Coriolis, que podem interferir no sistema vestibular e causar tontura, desorientação e enjoo.

A própria NASA aponta que velocidades de rotação de poucos RPM já podem provocar desconforto, razão pela qual projetos de gravidade artificial tendem a crescer rapidamente de tamanho.

Novo estudo propõe um habitat com cerca de 400 metros de raio

É justamente esse problema que o estudo publicado em outubro de 2026 na Acta Astronautica tenta enfrentar.

O trabalho, assinado por Brenton Fournier, apresenta uma arquitetura chamada Tensentric.

O conceito utiliza uma estrutura dominada por componentes sob tensão, com um núcleo central conectado a um anel habitável.

Em vez de depender de uma enorme estrutura rígida semelhante a um prédio convencional, o sistema distribui suas cargas através de elementos tensionados.

Segundo o estudo, estruturas dessa família com aproximadamente 400 metros de raio seriam fisicamente viáveis com materiais disponíveis atualmente ou considerados de curto prazo.

Isso significa uma instalação com aproximadamente 800 metros de diâmetro.

O tamanho parece absurdo até percebermos sua vantagem: um habitat dessa escala poderia produzir aproximadamente 1 g girando por volta de apenas 1,5 vez por minuto.

O artigo não afirma que uma estação dessas esteja prestes a ser construída. O objetivo é demonstrar a viabilidade estrutural da arquitetura e estudar como ela escala.

Construção, lançamento, proteção contra radiação, montagem orbital, custos e inúmeros outros subsistemas continuam sendo desafios separados.

Cientistas já usam centrífugas para estudar gravidade artificial

A gravidade artificial não existe apenas em ilustrações de futuras estações espaciais.

NASA, ESA e outras instituições utilizam centrífugas para investigar como o organismo reage a diferentes níveis de aceleração.

Um dos exemplos mais interessantes fica no centro de pesquisa :envihab, do Centro Aeroespacial Alemão, o DLR.

Homem deitado em centrífuga de braço curto usada em pesquisas de gravidade artificial
Centrífuga de braço curto do DLR é utilizada em pesquisas da ESA e da NASA sobre possíveis formas de combater os efeitos da microgravidade. Imagem: ESA.

A chamada short-arm centrifuge gira voluntários para fazer com que sangue e outros fluidos sejam novamente direcionados em direção às pernas.

A proposta é estudar se sessões de gravidade artificial poderiam combater vários efeitos da microgravidade ao mesmo tempo.

Isso abre uma possibilidade muito mais simples do que construir uma nave inteira em forma de roda.

Talvez não seja necessário girar a nave inteira

Uma futura espaçonave poderia permanecer em microgravidade durante a maior parte do tempo e carregar apenas uma pequena centrífuga para os tripulantes.

Os astronautas entrariam no equipamento diariamente, de maneira semelhante à rotina atual de exercícios na ISS.

Essa é uma das possibilidades investigadas em experimentos terrestres.

Na Europa, o projeto BRAVE — Bed Rest with Artificial gravity and resistive Vibration Exercise colocou 24 voluntários durante dois meses em condições destinadas a reproduzir parte dos efeitos encontrados no espaço.

Segundo a Agência Espacial Europeia, alguns participantes também utilizaram uma centrífuga de braço curto e realizaram exercícios sob gravidade artificial.

Voluntário participa de experimento europeu sobre gravidade artificial e efeitos de longos períodos no espaço
Pesquisa BRAVE acompanha voluntários para entender como exercícios e gravidade artificial podem reduzir efeitos semelhantes aos encontrados em missões espaciais. Imagem: ESA/V. Faivre-Rampant.

Um experimento espacial de 2026 encontrou outra pista

Existe ainda uma questão fundamental: quanto de gravidade precisamos?

Talvez não seja necessário reproduzir exatamente os 1 g encontrados na superfície terrestre.

Um estudo publicado em 2026 na revista Life Sciences in Space Research analisou camundongos submetidos a diferentes níveis de gravidade durante uma missão de 32 dias na Estação Espacial Internacional.

Os animais ficaram expostos a quatro condições:

  • microgravidade;
  • 0,33 g;
  • 0,67 g;
  • 1 g.

Os pesquisadores observaram que a exposição contínua a 1 g preservou os padrões de marcha dos animais, enquanto os resultados melhoravam conforme a quantidade de gravidade aumentava.

Os animais submetidos a 0,67 g apresentaram resultados melhores que aqueles mantidos em 0,33 g.

É necessário cuidado com a interpretação: camundongos não são seres humanos, e esses dados não significam que 0,67 g seja um valor mágico para astronautas.

O experimento reforça, porém, a possibilidade de existir uma relação entre a quantidade de gravidade recebida e a proteção contra determinados efeitos do voo espacial.

Isso pode mudar completamente uma viagem a Marte

Se futuras pesquisas mostrarem que algumas horas de gravidade artificial por dia são suficientes, as primeiras naves interplanetárias podem utilizar apenas pequenas centrífugas.

Se o corpo precisar permanecer sob gravidade durante praticamente todo o tempo, a arquitetura muda completamente.

Nesse cenário, habitats giratórios grandes passam a fazer muito mais sentido.

Também seria possível construir dois módulos ligados por uma estrutura ou cabo e fazê-los girar ao redor de um ponto comum.

Existem várias possibilidades, mas todas partem da mesma pergunta: qual é a menor quantidade de gravidade necessária para manter um ser humano saudável durante anos?

E por que não acelerar continuamente a nave?

Existe outra maneira de produzir a sensação de peso sem qualquer rotação.

Uma nave que acelerasse continuamente a aproximadamente 9,8 metros por segundo ao quadrado faria seus ocupantes sentirem algo semelhante à gravidade terrestre.

É uma consequência do princípio da equivalência.

O motor ficaria na região considerada “baixo” e os astronautas poderiam caminhar normalmente pelo interior da espaçonave enquanto ela acelera.

Na metade da viagem, a nave poderia se virar e passar a desacelerar.

Fisicamente, funciona.

O problema está na engenharia.

Manter uma espaçonave grande acelerando continuamente a 1 g exigiria capacidades de propulsão e energia muito além das utilizadas atualmente em missões humanas.

Por isso, a rotação continua entre as alternativas mais concretas estudadas para gravidade artificial de longa duração.

O espaço está exigindo estruturas cada vez mais ambiciosas

A discussão também acontece em um momento no qual empresas e agências começam a planejar infraestruturas cada vez mais complexas fora da Terra.

O Overdrive mostrou recentemente como o Google começou a testar chips de inteligência artificial diretamente no espaço, em um projeto que estuda inclusive os desafios de energia, radiação e dissipação de calor em órbita.

A NASA também colocou em operação o telescópio espacial Roman e sua câmera de aproximadamente 300 megapixels, outro exemplo de como a infraestrutura espacial está crescendo em complexidade.

Para máquinas, muitos desses desafios podem ser enfrentados com materiais especializados, redundância e eletrônica resistente.

Para humanos existe uma exigência adicional: precisamos levar conosco um ambiente em que o próprio corpo continue funcionando.

Então as naves do futuro serão enormes rodas?

Não necessariamente.

A primeira aplicação prática da gravidade artificial pode ser muito menos cinematográfica.

Pode ser uma pequena centrífuga usada algumas vezes por dia, dois módulos conectados e girando em conjunto ou apenas uma seção rotativa de uma nave convencional.

Grandes habitats com centenas de metros ou quilômetros provavelmente fariam mais sentido em um futuro no qual seres humanos permaneçam no espaço durante anos ou até de forma permanente.

Mas existe uma mudança curiosa na própria lógica da exploração espacial.

Durante boa parte da história dos voos espaciais, o desafio foi descobrir como escapar da gravidade da Terra.

Para viajar realmente longe, o próximo grande problema talvez seja exatamente o contrário:

descobrir como levar a gravidade conosco.

Perguntas frequentes

É possível criar gravidade artificial no espaço?

Sim. Uma estrutura giratória pode produzir aceleração capaz de criar uma sensação semelhante ao peso. Também seria possível obter esse efeito acelerando continuamente uma espaçonave.

Uma nave giratória realmente cria gravidade?

Ela não cria um campo gravitacional como o de um planeta. A rotação produz aceleração, fazendo com que os ocupantes sintam o piso pressionando seus corpos de maneira semelhante ao que ocorre sob gravidade.

Qual é a gravidade de Marte?

A gravidade da superfície marciana corresponde a aproximadamente 38% da terrestre.

Astronautas perdem ossos no espaço?

Sim. A NASA afirma que ossos que sustentam o peso corporal podem perder, em média, entre 1% e 1,5% de sua densidade mineral por mês durante voos espaciais sem contramedidas adequadas.

Quanto tempo os astronautas se exercitam no espaço?

Tripulantes da Estação Espacial Internacional fazem aproximadamente duas horas de exercícios por dia para reduzir perda muscular, óssea e condicionamento cardiovascular.

Já existe uma nave com gravidade artificial?

Não existe atualmente uma grande espaçonave tripulada operacional que forneça continuamente gravidade artificial semelhante à terrestre. A tecnologia continua sendo estudada por meio de centrífugas, experimentos biológicos e projetos conceituais.

Fontes

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