Uma lata de feijão quer ser passada no caixa de um supermercado abandonado. Ela não pretende salvar o mundo, derrotar as sombras (os “vilões” do jogo!) ou explicar por que os humanos desapareceram. Só quer ouvir o bipzinho da máquina. Teeto aceita o serviço, porque esse é o tipo de problema que surge quando animais e objetos domésticos ganham consciência ao mesmo tempo.
Esse pedido secundário resume boa parte do que a Eat Pant Games faz bem em sua estreia. Teeto pertence à mesma família de platformers 3D de Banjo-Kazooie, Spyro e Super Mario 64, com uma dose evidente de Kirby nas transformações. Ainda assim, sua personalidade aparece nos detalhes: os NPCs falam com sotaques neozelandeses, os colecionáveis mais simpáticos se chamam Michael e algumas habilidades parecem ter sido criadas porque a piada era boa demais para ser descartada.
O protagonista é um blob azul criado por Nory, uma coelha de pelúcia que passa a aventura em suas costas. Os dois partem atrás das criaturas sombrias que surgiram após um acidente responsável pelo desaparecimento da humanidade. A história conecta os quatro atos e guarda algumas respostas para a reta final, mas Teeto nunca depende do mistério para manter o interesse. A curiosidade vem das fases, dos personagens e da possibilidade de absorver algum objeto completamente absurdo.
Feito por um casal, Teeto entrega um collectathon seguro sobre o que quer ser. Suas limitações óbvias aparecem no controle, na câmera e em alguns encontros com chefes, mas raramente apagam a criatividade das transformações ou a vontade de procurar mais um segredo antes de atravessar a porta de saída.
As transformações dão sentido a cada desvio
Teeto começa com as ferramentas esperadas de um mascote de plataforma. Ele pode dar pulo duplo, planar, mergulhar para frente e usar um ataque giratório contra as sombras. O conjunto cobre bem a exploração, embora a movimentação leve algum tempo para entrar na mão. Os saltos parecem um pouco mais soltos do que deveriam, principalmente ao tentar corrigir a trajetória no ar ou aterrissar em plataformas pequenas.
A mochila de Nory guarda a mecânica que sustenta o restante da campanha. Teeto absorve objetos encontrados nos cenários e incorpora suas propriedades. Ao absorver uma flor, ganha um cipó para se prender em pontos específicos. A forma de pedra rompe paredes e pisos rachados. Fogo derrete blocos de gelo, eletricidade ativa mecanismos e poderes magnéticos movimentam peças de metal.



Existem formas mais estranhas. Uma delas transforma Teeto em um sofá capaz de disparar almofadas. Sua utilidade é bastante específica, mas o jogo ganha muito por permitir que uma ideia tão boba sobreviva até a versão final.
As habilidades aparecem com frequência suficiente para evitar que pareçam ferramentas descartáveis. Uma transformação pode resolver o obstáculo principal de uma fase, abrir um caminho opcional ou levar até um Vionite escondido. Os pontos de absorção também costumam ficar perto das áreas em que cada poder será usado, reduzindo buscas longas e retornos desnecessários.
O limite de carregar uma forma por vez cria os momentos menos elegantes desse sistema. Abandonar uma habilidade e encontrar um colecionável que dependia dela alguns minutos depois pode obrigar o jogador a refazer parte do caminho. Há fases nas quais a transformação necessária reaparece perto do obstáculo, mas isso não ocorre sempre. Para um jogo interessado em fazer o jogador examinar cada canto, punir a curiosidade com uma nova volta não parece a melhor decisão.
Ainda assim, as transformações mudam a maneira de atravessar os níveis com uma frequência agradável. Teeto não fica muito tempo repetindo o mesmo truque. Quando uma habilidade começa a parecer previsível, outra assume o espaço e obriga o jogador a olhar o cenário de maneira diferente.
Os Baby Michaels são melhores que uma barra de progresso
Teeto espalha estrelas, Vionites e Baby Michaels por suas fases. As estrelas funcionam como moeda para comprar roupas no hub, enquanto os Vionites abrem caminho para os atos seguintes e são concedidos por exploração, objetivos secundários e pequenos desafios.
Os Michaels são outra história. Eles representam tentativas anteriores de Nory de criar Teeto e aparecem escondidos em diferentes partes de cada nível. Todos compartilham o mesmo nome, mas possuem roupas e características próprias. Há Michael com drone, Michael com chapéu melhor, Michael executivo (que inclusive me lembrou Michael Scott) e várias (mesmo!) outras versões.

Resgatar esses personagens também modifica o hub. Os Michaels passam a ocupar uma ilha própria, onde podem ser observados e até arremessados em uma cesta de basquete. O espaço fica mais movimentado conforme a coleção cresce, oferecendo uma recompensa mais simpática do que ver um número subir no menu.
Em sua jornada, Teeto encontra animais falantes, objetos preocupados com problemas cotidianos e grupos envolvidos em atividades difíceis de explicar sem estragar a graça. Em determinado momento, é possível esbarrar em criaturas gravando um podcast em uma caverna. Em outro, o trabalho consiste em reunir duas boias de piscina apaixonadas.
A escrita raramente força a piada. Algumas situações funcionam pela estranheza do cenário, outras pela interpretação do elenco, e os sotaques neozelandeses dão às conversas um ritmo próprio. A dublagem original está entre os pontos mais consistentes da produção, sobretudo quando alguém diz um absurdo com a maior seriedade do mundo. Faz falta uma opção de vozes em português, mas todos os textos e menus estão localizados para PT-BR, então acompanhar a campanha não é um problema.

As fases mudam antes que a coleta vire uma obrigação
As fases de Teeto alternam entre caminhos lineares, pequenas áreas abertas e estruturas formadas por zonas interligadas. Cada uma guarda Vionites, Michaels e tarefas opcionais, mas a Eat Pant Games evita repetir o mesmo layout apenas trocando floresta por praia ou gelo por esgoto.
Um quintal transforma o chão em uma superfície eletrificada e força Teeto a permanecer em pontos elevados. Uma estação subterrânea funciona como um labirinto dividido em áreas menores. Outra fase abandona temporariamente a perspectiva tradicional e assume o formato de uma sequência musical em 2D, lembrando alguns dos melhores momentos de Rayman Legends.
Também há perseguições com a câmera voltada para o protagonista, trechos laterais e pequenas mudanças de escala. Nem toda ideia recebe o mesmo tempo, mas essa troca constante dá ritmo à campanha e ajuda cada cenário a preservar alguma característica própria.

Teeto leva cerca de 6 a 8 horas para terminar, dependendo da quantidade de colecionáveis procurados. É um tamanho adequado para o que o jogo oferece. A campanha termina antes que as transformações se tornem previsíveis e deixa espaço para revisitar fases sem transformar o caminho até 100% em uma maratona.
A busca completa poderia ser melhor organizada. A interface indica quantos itens foram encontrados, e os portais ajudam a conferir o progresso, mas localizar os últimos Vionites pode exigir várias voltas sem uma pista clara sobre o objetivo restante. Um mapa ou uma descrição mais específica das tarefas não concluídas reduziria essa procura às cegas.
O combate também não sustenta explorações prolongadas. As sombras possuem pouca variedade e geralmente caem com um único ataque. Elas funcionam como pequenas interrupções entre plataformas e puzzles, raramente como ameaças capazes de mudar a maneira de jogar. Teeto possui três corações, mas itens de cura aparecem com frequência, e existe uma opção para desativar o dano caso o jogador queira concentrar toda a atenção na exploração.

Por fim, os chefes tentam aumentar a pressão no encerramento de cada ato. Alguns aproveitam bem as transformações e usam padrões divertidos como o Senhor Gnomy, um gnonomo que tal coisa. Outros criam picos de dificuldade que parecem deslocados em uma campanha tão tranquila. Quando câmera, controles soltos e ataques mais exigentes se encontram na mesma arena, o desafio passa a depender menos de entender o chefe e mais de administrar as limitações do jogo.
A câmera entrega as limitações da estreia
Teeto tem uma direção de arte clara e funcional. Colecionáveis saltam aos olhos, os elementos interativos são fáceis de identificar e cada transformação muda o visual do protagonista de forma simpática. As animações também vendem bem a elasticidade do blob, especialmente nos mergulhos, nas quedas e nas trocas de forma.

A câmera, no entanto, é menos confiável. Em espaços fechados, ela se aproxima demais ou esconde o ponto de aterrissagem, e algumas lutas obrigam o jogador a corrigir o enquadramento enquanto tenta acompanhar os ataques do chefe. Não acontece o tempo todo, mas costuma aparecer justamente quando a fase exige mais precisão.
O controle também reforça essa irregularidade. Teeto pode parecer leve demais no ar e rígido ao tentar corrigir a direção perto do chão. Com o tempo, dá para entender melhor seu peso, mas alguns erros continuam parecendo resultado de uma disputa entre física e câmera, não de um salto mal calculado.
O coop local combina com a bagunça
Teeto pode ser jogado sozinho ou em coop local com tela dividida. O segundo jogador controla um Teeto rosa com o mesmo conjunto de movimentos e transformações, sem assumir um papel secundário ou limitado.
A estrutura das fases aceita bem duas pessoas. Os jogadores podem seguir caminhos diferentes em áreas mais abertas, procurar colecionáveis simultaneamente e cooperar em obstáculos simples. A tela dividida pode deixar algumas sequências mais caóticas, especialmente quando ambos avançam em direções opostas, mas isso combina com a proposta informal do jogo.

Não há o tipo de quebra-cabeça elaborado de It Takes Two, nem desafios construídos exclusivamente para a dupla. O coop funciona como uma maneira de compartilhar a campanha, e essa simplicidade ajuda Teeto a servir como opção para famílias ou para uma sessão mais tranquila no sofá. Há muito tempo os platformers 3D deixaram de tratar multiplayer local como prioridade, então sua presença aqui tem peso.
Vale a pena jogar Teeto?

Teeto é excelente e vale a pena para quem sente falta de collectathons 3D compactos e aceita algumas arestas em troca de personalidade. As transformações mantêm as fases variadas, os Baby Michaels tornam a coleta divertida de verdade e o coop local combina muito bem com a aventura.
Quem procura plataformas exigentes encontrará pouco desafio fora dos chefes. Completionistas também podem se irritar com a falta de pistas melhores para localizar os Vionites restantes, enquanto câmera e controle impedem que algumas sequências alcancem a precisão dos jogos usados como referência.
Esses problemas seguram Teeto, mas não apagam o cuidado da Eat Pant Games. Nory, por exemplo, é dublada por Ali Duncan, uma das criadoras do jogo ao lado do marido, e sua interpretação dá à coelhinha cientista um tom amigável e casual. O sotaque neozelandês deixa as conversas ainda mais marcantes e combina com o humor cotidiano da personagem.
Há boas ideias espalhadas por quase todas as fases e uma disposição rara para transformar uma piada sobre Michaels ou uma lata de feijão em parte importante da identidade do jogo. Para a estreia de uma equipe de duas pessoas, Teeto é um resultado genuíno e merece chegar a muito mais gente. O game está disponível para PS5, PC e Nintendo Switch, com compatibilidade no Nintendo Switch 2.





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