A PlayStation termina a semana com duas notícias ruins sobre seus jogos. Physint, novo projeto de Hideo Kojima, agora tem a Xbox como publicadora, depois que a própria Sony desistiu do jogo. Na quinta-feira (10), Marvel’s Wolverine chegou às análises com notas abaixo do que se esperava da Insomniac. Os dois casos pesam sobre Hermen Hulst, o executivo que responde pelos jogos próprios da empresa. Eles também se juntam a uma lista de cancelamentos e estúdios fechados que já não cabe na conta da má sorte. Diante desse histórico, fica difícil defender a permanência de Hulst no cargo.
Hulst é cofundador da Guerrilla Games, casa de Killzone e Horizon. Em novembro de 2019, assumiu a PlayStation Studios no lugar de Shuhei Yoshida. No meio de 2024, chegou a dividir com Hideaki Nishino o cargo de CEO da Sony Interactive Entertainment. O arranjo durou menos de um ano. Desde abril de 2025, Nishino comanda a empresa sozinho, enquanto Hulst segue como CEO do Studio Business Group e responde a ele. Os jogos dos estúdios internos continuam passando pela mesa do holandês.

A aposta nos jogos como serviço deixou um rastro de cancelamentos
Em 2022, a PlayStation anunciou a meta de ter pelo menos dez jogos como serviço no ar até 2026. O prazo chegou, e o balanço assusta. A Naughty Dog cancelou The Last of Us Online no fim de 2023, depois de anos de desenvolvimento. Em 2024, a Sony fechou o London Studio em meio a uma rodada de 900 demissões. Meses depois, veio Concord, retirado das lojas duas semanas após a estreia, com reembolso para quem comprou. Ainda em 2024, um e-mail de Hermen Hulst aos funcionários confirmou o fechamento da Firewalk, responsável pelo jogo.
A lista não parou aí. Em janeiro de 2025, a Sony cancelou dois projetos online em produção na Bluepoint e na Bend Studio. A Bend, aliás, não lança um jogo inédito desde Days Gone, de 2019. Fairgames, apresentado em 2023 pela Haven Studios, perdeu a fundadora Jade Raymond em maio de 2025. A saída veio semanas depois de um teste externo que preocupou a equipe, e o jogo segue sem data. Somando tudo, equipes experientes gastaram anos em produtos que morreram na gaveta ou mal passaram de duas semanas no ar.
Bluepoint e Bungie mostram o custo das escolhas erradas
A Bluepoint talvez seja o caso mais difícil de defender. Especialista em remakes, o estúdio texano entregou versões muito elogiadas de Shadow of the Colossus e Demon’s Souls. A Sony comprou a empresa em 2021, e Hulst celebrou a aquisição publicamente nas redes sociais. Em vez de manter a equipe nos remakes, a PlayStation a colocou em um God of War como serviço, cancelado em 2025. Em fevereiro deste ano, o executivo comunicou o fechamento da Bluepoint e citou custos em alta e um mercado mais difícil. No mesmo mês, a Sony revelou um remake da trilogia grega de God of War. É exatamente o tipo de projeto em que a Bluepoint era referência.

A Bungie completa o quadro. A Sony comprou o estúdio por US$ 3,6 bilhões na gestão de Jim Ryan, mas a conta ficou para a divisão de Hulst. Em maio, os resultados anuais da empresa trouxeram uma baixa contábil de cerca de 120 bilhões de ienes ligada à Bungie. O valor fica próximo de US$ 765 milhões. A perda reflete a queda de Destiny 2 e a estreia de Marathon abaixo do esperado, em março. Em junho, Hermen Hulst anunciou demissões que atingiram a maior parte do time de Destiny e parte da equipe de Marathon. Um aviso enviado ao estado de Washington, onde fica a sede da Bungie, prevê ao menos 292 cortes.
Horizon Hunters Gathering leva a crise para a antiga casa de Hermen Hulst
Em fevereiro, a Sony anunciou Horizon Hunters Gathering, jogo cooperativo online da Guerrilla, estúdio que Hulst ajudou a fundar. Segundo reportagem de Jason Schreier publicada em agosto pela Bloomberg, a maior parte da equipe de Amsterdã vinha trabalhando no projeto. Após testes fechados com retorno negativo, o estúdio começou em junho a refazer o jogo. O plano é tirar os elementos de jogo como serviço e fazer um cooperativo mais tradicional, com modo história e escopo bem menor. A equipe tem até dezembro para convencer os executivos da Sony. Enquanto isso, parte dos desenvolvedores migrou para outro projeto, que a empresa também vai avaliar no fim do ano.

A sequência de Horizon Forbidden West, por sua vez, está nas mãos de uma equipe pequena. Ainda segundo a Bloomberg, o jogo segue a anos de ficar pronto. Como Forbidden West saiu em 2022, a espera pelo próximo capítulo principal caminha para passar de cinco anos. Ou seja, a principal franquia da Guerrilla ficou em segundo plano para abrir espaço a uma aposta que luta para sobreviver. E tudo isso aconteceu no estúdio que Hulst conhece melhor do que ninguém.
Deixar Physint ir para a Xbox contradiz o discurso de Hermen Hulst
A PlayStation revelou Physint em um State of Play de janeiro de 2024, com Hulst apresentando a parceria. O projeto marca a volta do criador de Metal Gear Solid à ação e espionagem, com ambição de produção cinematográfica. Segundo Kojima, a PlayStation Studios avisou em meados de junho, de forma inesperada, que cancelaria o jogo. Após cerca de três meses em busca de um novo parceiro, o estúdio fechou com a Xbox, que anunciou o acordo nesta semana. O contrato se soma ao de OD, que já tinha a Xbox como publicadora, e inclui colaborações em cinema e TV. A Sony, em comunicado, falou em decisão difícil e destacou as três décadas de relação com Kojima. Não explicou, porém, o motivo do cancelamento.

A cronologia deixa a decisão ainda mais difícil de entender. Em fevereiro, no e-mail sobre o fechamento da Bluepoint, o próprio Hulst citou Death Stranding 2, de Kojima. Para ele, o jogo mostrava o compromisso da PlayStation com narrativas de qualidade. Em maio, segundo a Bloomberg, o executivo avisou os funcionários que os jogos narrativos da empresa ficariam restritos aos consoles PlayStation. Com isso, a Sony abandonou a estratégia de lançá-los no PC, iniciada em 2020 com Horizon Zero Dawn, já sob o comando dele. Em junho, a mesma divisão abriu mão do novo jogo de Kojima.
Cancelar um projeto ainda distante do lançamento pode até ser prudente, e Kojima já tinha indicado que Physint levaria anos para sair. O problema é que a PlayStation revelou o jogo com destaque e colocou o chefe dos estúdios na apresentação. Agora, vê o projeto seguir para a principal concorrente. Para uma empresa que acabou de reforçar a aposta em exclusivos, é um recado difícil de explicar aos fãs.
Acertos de Hermen Hulst perdem força com a recepção de Wolverine
Seria injusto pintar a gestão do executivo apenas com tons escuros. A Team Asobi cresceu sob seu comando e venceu o prêmio de Jogo do Ano no The Game Awards 2024 com Astro Bot. Ghost of Yotei fez sucesso de crítica e vendas em 2025. Já Saros, da Housemarque, estreou em abril deste ano com nota 88 no Metacritic. Nas finanças, a Sony registrou lucro operacional recorde na divisão de games entre abril e junho, com alta de 37%.
Marvel’s Wolverine deveria reforçar essa lista. Anunciado em 2021, o jogo da Insomniac chega ao PS5 na próxima terça-feira (15). Hoje, tem média 78 no Metacritic, com mais de 100 análises. O número fica abaixo dos três jogos da série Marvel’s Spider-Man do estúdio, que marcaram 87, 85 e 90. GameSpot, GamesRadar+ e Eurogamer aparecem no agregador com o equivalente a 60, e a Giant Bomb, com 50. Os textos costumam elogiar a interpretação de Logan e a apresentação. As reclamações passam por combate repetitivo, ritmo irregular e uma estrutura linear que soa datada.

Uma média de 78 ainda indica um jogo bem recebido, e muita gente pode gostar do que vai encontrar. O que pesa é a expectativa. Wolverine era a aposta mais segura da PlayStation para 2026, vinda de um dos estúdios mais consistentes da empresa. Ainda assim, chegou abaixo do padrão da casa, e a defesa de Hulst perde um dos seus melhores argumentos.
A avaliação de dezembro é o momento certo para trocar o comando
As próximas decisões importantes chegam em dezembro, quando a Sony avalia o novo Horizon Hunters Gathering e o outro projeto da Guerrilla. God of War Laufey, marcado para 16 de fevereiro de 2027, será o próximo grande teste dos estúdios internos. A Naughty Dog, por outro lado, ainda não lançou um jogo inédito nesta geração, e Intergalactic: The Heretic Prophet segue sem data oficial.
Nem todos os erros nasceram na gestão de Hulst. O plano de jogos como serviço saiu em 2022, quando Jim Ryan presidia a Sony Interactive Entertainment. A compra da Bungie também leva a assinatura do antigo chefe. Ainda assim, cabia a Hulst decidir quais projetos seguir e por quanto tempo insistir em cada um. As apostas que exigiam direção firme renderam cancelamentos e uma baixa contábil de centenas de milhões de dólares. Por isso, as escolhas de dezembro deveriam ficar com alguém sem vínculo com essas apostas.
Hulst conhece a casa e merece crédito pelo que funcionou. Só que quase sete anos bastam para avaliar uma gestão, e o saldo não justifica mais uma rodada no comando. A PlayStation já fechou estúdios, cancelou projetos e viu um jogo de Kojima parar na concorrente. Está na hora de Hermen Hulst sair.
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