A saída da Sony de Physint, novo jogo de espionagem de Hideo Kojima, ganhou uma explicação de bastidor. A PlayStation teria abandonado o projeto por uma combinação de custos crescentes, prazos perdidos, preocupação com o retorno financeiro e falta de exclusividade permanente, segundo pessoas familiarizadas com o desenvolvimento ouvidas pela Bloomberg.
O relato publicado nesta sexta-feira (11) acrescenta justamente a peça que faltava à história. A Sony confirmou nesta semana que deixaria a colaboração com a Kojima Productions, enquanto Kojima afirmou que recebeu em junho um aviso inesperado de que a PlayStation Studios pretendia cancelar o projeto. Depois de três meses procurando outro parceiro, Physint acabou nas mãos da Xbox.
Agora, pela primeira vez, aparecem detalhes sobre o que teria levado a Sony a tomar essa decisão.

Death Stranding ficou abaixo das metas da PlayStation
Segundo a Bloomberg, um dos fatores considerados pela Sony foi o desempenho comercial dos dois jogos de Death Stranding.
Fontes ouvidas pelo jornalista Jason Schreier afirmam que tanto o primeiro título quanto Death Stranding 2: On the Beach ficaram abaixo das expectativas de receita da PlayStation.
É uma distinção importante: a reportagem não afirma que os jogos foram fracassos ou que deram prejuízo. O que as fontes dizem é que a receita gerada ficou abaixo das projeções internas da companhia.
O primeiro Death Stranding construiu uma audiência grande ao longo dos anos e chegou a diferentes plataformas. A própria Kojima Productions anunciou em 2025 que o título havia alcançado mais de 20 milhões de jogadores somando PlayStation, PC, Xbox, iOS e Amazon Luna.
Já Death Stranding 2 nasceu como uma produção ainda mais ambiciosa e foi lançado inicialmente no PS5 em junho de 2025.

A informação também ajuda a colocar em contexto uma mudança recente da própria Sony. Como o Overdrive mostrou, a companhia teria decidido reduzir os lançamentos de grandes exclusivos single-player do PlayStation no PC, priorizando novamente o valor de seu próprio hardware.
Physint já teria perdido prazos
O desempenho de Death Stranding não teria sido o único problema.
De acordo com as fontes da Bloomberg, Physint já havia perdido prazos internos e caminhava para ficar bem acima do orçamento planejado, mesmo estando ainda a vários anos do lançamento.
Não foram revelados o orçamento originalmente aprovado, quanto já havia sido investido ou quais etapas do cronograma ficaram para trás.
O prazo longo do projeto, porém, já era conhecido. Quando falou sobre Physint anteriormente, Kojima indicou que o jogo ainda levaria vários anos para ficar pronto. O título pretende marcar seu retorno ao gênero de ação e espionagem que ajudou a popularizar com Metal Gear.
A proposta também vai além de simplesmente produzir outro jogo de furtividade. Kojima quer aproximar cinema e videogame, trabalhando com atores e profissionais da indústria audiovisual em uma produção descrita como altamente cinematográfica.
Tudo isso aumenta tanto a ambição quanto o custo potencial do projeto.
Sony não queria gastar centenas de milhões sem ter exclusividade permanente
A terceira peça talvez seja a mais importante para entender a decisão.
Segundo a Bloomberg, a PlayStation estava relutante em comprometer centenas de milhões de dólares em um novo jogo que não permaneceria para sempre exclusivo de seu próprio hardware.
A Kojima Productions mantém o controle de suas propriedades intelectuais, algo que permitiu ao primeiro Death Stranding chegar posteriormente a outras plataformas.
Na prática, a Sony poderia arcar com boa parte do investimento necessário para desenvolver Physint e ainda assim assistir à franquia alcançar outras plataformas posteriormente.
Esse ponto se torna ainda mais relevante diante da nova estratégia da companhia para jogos single-player, que estaria colocando novamente a exclusividade do PlayStation no centro da decisão de investimento.

Por que a conta funciona para a Xbox?
Curiosamente, os mesmos fatores que teriam afastado a Sony parecem menos problemáticos para a Microsoft.
A Bloomberg relata que a Xbox vê Physint como uma oportunidade de investimento por vários motivos, incluindo justamente o PC.
A Microsoft já trabalha com lançamentos simultâneos ou amplamente integrados entre Xbox e Windows. Segundo a reportagem, a empresa pretende publicar Physint em Xbox e PC.
Isso significa que a Microsoft consegue participar financeiramente das duas plataformas desde o início, enquanto a nova estratégia da Sony para seus grandes jogos single-player reduziria o benefício de financiar uma produção que pudesse acabar chegando ao PC por outra editora.
A situação também aprofunda uma relação que já existia. A Microsoft publica OD, projeto experimental de terror da Kojima Productions que sobreviveu às recentes reestruturações e cortes da Xbox.
Kojima já contou que outras empresas consideraram a ideia de OD “louca” antes de a Microsoft aceitar bancar o projeto.
Acordo vai além de Physint
Essa relação agora ficou consideravelmente maior.
Em seu anúncio oficial, a Xbox confirmou que assumiu Physint e disse que a colaboração com a Kojima Productions também será ampliada para cinema e televisão.
A Kojima Productions também publicou um comunicado próprio confirmando que o desenvolvimento de Physint continua.
“À medida que avançamos com o desenvolvimento de Physint, continuamos comprometidos em redefinir o gênero de ação e espionagem para jogadores do mundo todo.”Hideo Kojima, em comunicado da Kojima Productions
A declaração oficial não aborda orçamento, atrasos ou desempenho financeiro de Death Stranding. Esses pontos vêm da apuração da Bloomberg e foram atribuídos a pessoas familiarizadas com o projeto, que falaram sob condição de anonimato.
Sony e Kojima contam histórias diferentes sobre a saída
A própria linguagem utilizada pelos envolvidos também chama atenção.
Publicamente, a PlayStation descreveu o episódio como uma decisão de “se afastar” da colaboração e afirmou continuar admirando a visão de Kojima.
Kojima foi mais direto: segundo ele, a Kojima Productions recebeu inesperadamente em meados de junho a informação de que a PlayStation Studios iria cancelar o projeto.
O estúdio então passou aproximadamente três meses procurando uma nova empresa disposta a assumir a produção até fechar com a Microsoft.
É justamente por isso que esta nova apuração muda a leitura do caso. Quando a notícia surgiu, não havia qualquer explicação pública sobre a decisão. Agora, as informações apontam não para uma única causa, mas para uma combinação de risco financeiro, atrasos, aumento previsto de custos, desempenho dos projetos anteriores e divergência sobre exclusividade.
Physint não foi cancelado
Apesar da turbulência nos bastidores, Physint continua em desenvolvimento. A Xbox confirmou oficialmente que será a nova publisher, enquanto Kojima afirma que a proposta de criar uma experiência de ação e espionagem permanece intacta.
A empresa ainda não anunciou uma data de lançamento. O projeto segue distante do mercado, e a troca de parceiro no meio do desenvolvimento adiciona novas perguntas sobre cronograma, tecnologia e orçamento.
Também não houve confirmação pública sobre uma futura versão para PlayStation. A Bloomberg afirma que os planos atuais da Microsoft incluem Xbox e PC, mas nem a Xbox nem a Kojima Productions detalharam todas as plataformas no comunicado oficial. O que agora parece mais claro é por que a Sony decidiu sair.
Para a PlayStation, Physint teria se transformado em uma aposta de centenas de milhões de dólares, com atrasos, risco de ultrapassar o orçamento e sem a garantia de permanecer exclusivamente dentro de seu ecossistema. Para a Microsoft, a mesma produção virou uma oportunidade de estreitar uma relação com um dos criadores mais conhecidos da indústria.
E, depois de quase três décadas de colaboração entre Kojima e PlayStation, essa diferença de cálculo colocou um dos projetos mais aguardados do diretor justamente nas mãos de sua maior concorrente.
Fontes: Bloomberg, Xbox Wire e Kojima Productions.
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