Três rastros luminosos atravessam um céu repleto de estrelas, enquanto manchas avermelhadas de nebulosas aparecem ao fundo e a Via Láctea se estende pela imagem. À primeira vista, o registro parece reunir vários acontecimentos raros. Na verdade, ele mostra um fenômeno que se repete todos os anos: os meteoros das Orionídeas, formados por partículas deixadas pelo cometa Halley em suas antigas passagens pelo Sistema Solar.
Tópicos
- Veja a fotografia original dos meteoros do cometa Halley
- Como o fotógrafo conseguiu reunir três meteoros numa imagem?
- Por que o cometa Halley provoca meteoros mesmo estando distante?
- A chuva de meteoros ainda pode ser vista no Brasil neste fim de semana?
- É possível fotografar as Orionídeas com uma câmera comum?
- Uma lembrança do Halley antes do reencontro de 2061
- Fontes e créditos
A fotografia foi produzida pelo astrofotógrafo Tim McCollum na madrugada de 21 de outubro de 2026, sobre a cidade de Toccoa, no estado americano da Geórgia. Divulgado nesta sexta-feira (23) pelo Space.com, o trabalho foi feito próximo ao auge anual da chuva de meteoros, que ocorreu entre 21 e 22 de outubro.
O mais interessante está nos bastidores: os três meteoros não precisaram cruzar o céu ao mesmo tempo. McCollum reuniu diferentes exposições obtidas ao longo de aproximadamente uma hora, preservando tanto os riscos passageiros quanto detalhes pouco perceptíveis a olho nu. É uma composição fotográfica de registros reais, não uma cena flagrada em um único disparo.

Veja a fotografia original dos meteoros do cometa Halley
Na imagem feita em 2026, os três rastros parecem partir de uma mesma região do firmamento. O efeito tem explicação astronômica: quando várias partículas entram na atmosfera seguindo trajetórias aproximadamente paralelas, sua perspectiva no céu faz com que pareçam divergir de um ponto chamado radiante. No caso das Orionídeas, ele fica nas proximidades de Betelgeuse, estrela brilhante da constelação de Órion.
Clique aqui para abrir a fotografia de Tim McCollum em tamanho maior ou veja a reportagem original do Space.com, publicada em 23 de outubro. O crédito da fotografia é de Tim McCollum; a reprodução editorial da imagem exige autorização do titular dos direitos.
Também há outros elementos que tornam a cena incomum. À direita aparecem as Três Marias, estrelas que formam o cinturão de Órion. Próxima a elas está a região da Nebulosa de Órion, onde estrelas estão em formação. A Nebulosa da Roseta e diferentes aglomerados estelares completam a composição. O fundo é atravessado pela faixa de estrelas e poeira do plano da nossa galáxia.
Essas estruturas têm brilho e cores que uma fotografia de longa exposição consegue destacar. Isso não significa que um observador em um quintal enxergará as nebulosas com a mesma intensidade: a câmera acumula luz durante vários segundos, enquanto a percepção visual humana funciona de outra maneira.
Como o fotógrafo conseguiu reunir três meteoros numa imagem?
Entre 3h e 4h da madrugada, no horário local de Toccoa, McCollum apontou uma câmera Canon EOS Ra, modelo dedicado à astrofotografia, para a área próxima ao radiante das Orionídeas. Ele utilizou uma lente Canon RF 28–70 mm f/2 e realizou diversas exposições de cerca de 30 segundos, de acordo com a descrição técnica publicada pelo Space.com.
Um rastreador de estrelas acompanhou o movimento aparente do céu. Esse equipamento compensa, dentro dos limites da montagem, a rotação terrestre, ajudando a manter os astros definidos ao longo das exposições. É especialmente útil quando o objetivo inclui estrelas, nebulosas e nuvens de poeira, e não apenas o instante em que um meteoro aparece.
Na edição, o fotógrafo combinou os registros com o programa PixInsight, bastante utilizado em astrofotografia. Assim, três meteoros observados em momentos diferentes passaram a dividir uma única paisagem celeste. A técnica exige uma legenda transparente: trata-se de uma imagem composta, e não de prova de que três fragmentos cruzaram o enquadramento simultaneamente.
Esse processo também explica por que uma fotografia pode apresentar muito mais estrelas que uma pessoa enxergaria no local. Um meteoro dura apenas instantes, mas a sucessão de imagens dá ao fotógrafo mais oportunidades de registrar esses flashes e recuperar o cenário em que aconteceram.
Por que o cometa Halley provoca meteoros mesmo estando distante?
É comum associar o nome do Halley à passagem do próprio cometa perto da Terra, mas não é isso que está ocorrendo agora. O 1P/Halley não aparece na fotografia. Os riscos luminosos são produzidos por grãos de poeira e pequenos fragmentos que ele perdeu ao se aproximar do Sol em viagens anteriores.
Ao longo de suas voltas, o cometa deixa material espalhado pela órbita. Quando a Terra atravessa essa região, parte das partículas encontra a atmosfera terrestre a velocidades elevadas. Segundo a NASA, os meteoros das Orionídeas podem atingir cerca de 66 quilômetros por segundo. A interação com o ar produz o aquecimento e a luz que conhecemos popularmente como estrelas cadentes.
Não são estrelas se desprendendo do céu. Na maioria dos casos, os fragmentos são pequenos e se desintegram em altitude. Os rastros mais brilhantes podem deixar uma luminosidade residual durante alguns instantes, fenômeno particularmente característico das Orionídeas.
A história se repete duas vezes por ano com material associado ao Halley: em outubro, os detritos originam as Orionídeas; em maio, dão origem às Eta Aquáridas. A órbita do cometa leva aproximadamente 76 anos para ser completada. Depois de sua última passagem em 1986, o próximo retorno ao Sistema Solar interno é esperado para 2061, conforme o registro da NASA sobre o 1P/Halley.

A chuva de meteoros ainda pode ser vista no Brasil neste fim de semana?
Sim, mas com menos atividade que no pico. A NASA informa que as Orionídeas continuam ativas até 7 de novembro de 2026. Portanto, ainda existe a possibilidade de observar meteoros nas madrugadas seguintes, inclusive no fim de semana de 24 e 25 de outubro. Isso não significa que a quantidade registrada no auge será repetida: taxas de 10 a 20 meteoros por hora são referências para céu muito escuro e condições ideais, não uma previsão garantida para cada cidade.
Há um obstáculo importante agora: a Lua está cada vez mais iluminada. Segundo o calendário lunar do Overdrive, seu disco chega a aproximadamente 90,6% de iluminação em 23 de outubro e 95,9% no dia 24, antes da Lua cheia de 26 de outubro. Esse brilho pode apagar os meteoros mais fracos. A presença de nuvens e a poluição luminosa também interferem bastante.
O Observatório Nacional confirmou que as Orionídeas podem ser vistas em todo o Brasil e destacou a segunda metade da madrugada como a janela de maior interesse durante o pico. Órion serve como referência, mas vale acompanhar uma área ampla do céu: os rastros podem surgir longe da constelação. No Hemisfério Sul, olhar para a região norte e nordeste, sem manter os olhos fixos no radiante, é uma estratégia útil.
Para horários, condições de observação e orientações específicas para o país, o Overdrive já publicou um guia completo da chuva de meteoros Orionídeas de 2026. Como o horário em que a Lua se põe muda de acordo com o dia e a cidade, é importante conferir essa informação e a previsão de nuvens antes de planejar a saída.
É possível fotografar as Orionídeas com uma câmera comum?
Sim, embora a combinação de câmera, céu escuro e paciência tenha mais peso do que tentar acertar o instante de um meteoro. Em vez de reagir quando aparece um risco de luz, a ideia é deixar o equipamento fotografando continuamente uma parte extensa do firmamento. Um tripé firme é indispensável; uma lente grande-angular e luminosa ajuda a incluir mais céu.
- Enquadre o céu aberto: procure um lugar seguro, sem postes ou outras fontes de luz direta, e deixe uma parte generosa do enquadramento acima do horizonte.
- Use controles manuais: tente exposições na faixa de 10 a 30 segundos, ajustando o tempo ao movimento das estrelas, à lente e à existência de rastreador. Sensibilidades como ISO 800 a 3200 podem servir como ponto de partida, mas precisam ser testadas.
- Garanta foco e estabilidade: faça foco manual em uma estrela brilhante, confirme a nitidez ampliando a imagem e evite tocar na câmera a cada disparo.
- Fotografe em sequência: um disparador intervalométrico ou função equivalente aumenta a chance de capturar um meteoro. Registrar em RAW preserva margem para ajustar exposição e balanço de branco.
Se diferentes rastros forem reunidos depois, o correto é informar que se trata de uma composição, como ocorreu no trabalho de McCollum. Essa distinção permite valorizar a técnica sem confundir o leitor sobre o momento exato em que cada fenômeno aconteceu.
Uma lembrança do Halley antes do reencontro de 2061
O próximo retorno do cometa Halley ao interior do Sistema Solar é esperado para 2061. Enquanto isso, o calendário terrestre continua cruzando antigas trilhas de poeira deixadas por ele. A imagem de McCollum transforma essa relação em uma cena compreensível: três traços que duraram instantes diante de estrelas e nebulosas muito mais distantes.
Para acompanhar outros eventos astronômicos além das chuvas de meteoros, o Overdrive mantém um calendário de eclipses de 2026 e 2027 com a visibilidade no Brasil.
Fontes e créditos
A identificação do fotógrafo, local, data, equipamento e método de composição foi conferida na reportagem de Anthony Wood para o Space.com, de 23 de outubro de 2026. Os dados científicos sobre as Orionídeas e o cometa Halley foram cruzados com a NASA e o Observatório Nacional. As duas fotografias ilustrativas incorporadas acima são de anos anteriores, sob licenças Creative Commons especificadas nas respectivas legendas; a imagem original de 2026 pertence a Tim McCollum e está disponível para consulta por link.

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