A Odisseia chegou aos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026, com Matt Damon no papel de Odisseu, e colocou uma pergunta antiga de volta às buscas: essa história aconteceu de verdade?
A resposta direta é não. Não existem provas de que um rei de Ítaca tenha passado dez anos navegando pelo Mediterrâneo enquanto enfrentava um ciclope, sereias, feiticeiras e monstros marinhos. Odisseu pertence ao campo da mitologia, assim como boa parte dos acontecimentos narrados no poema atribuído a Homero.
Isso não significa que tudo tenha surgido do nada. A obra preserva lugares, costumes e possíveis lembranças de um mundo que realmente existiu na Idade do Bronze. É justamente nesse espaço entre história e lenda que também entra Assassin’s Creed Odyssey, embora o jogo se passe em outro período e conte uma aventura sem relação direta com Odisseu.
Qual é a história de A Odisseia?
A Odisseia é um poema épico atribuído a Homero e composto por volta do século VIII a.C. A narrativa acompanha Odisseu, também conhecido pelo nome latino Ulisses, em sua tentativa de voltar para Ítaca depois da Guerra de Troia.
O conflito teria durado dez anos. O retorno leva outros dez.
Durante a viagem, Odisseu perde seus navios e companheiros enquanto passa por episódios que se tornaram parte do imaginário popular. Ele escapa do ciclope Polifemo, enfrenta a magia de Circe, ouve o canto das sereias e permanece preso na ilha da ninfa Calipso.
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Em Ítaca, Penélope espera pelo marido enquanto diversos pretendentes ocupam o palácio e tentam convencê-la de que Odisseu está morto. Telêmaco, filho do casal, sai à procura de notícias do pai.
O poema começa quando boa parte dessa história já aconteceu. As aventuras anteriores são recuperadas por relatos e lembranças do próprio Odisseu, uma estrutura que ajuda a explicar por que a narrativa continua funcionando em adaptações modernas.
A Odisseia é baseada em uma história real?
Não há evidência histórica de que a jornada de Odisseu tenha ocorrido como aparece no poema. Também não existem registros contemporâneos que comprovem a existência do personagem.
Ciclopes, sereias, deuses e feiticeiras pertencem à mitologia. A viagem de dez anos tampouco pode ser reconstruída como uma rota histórica confiável, já que muitas das ilhas e paisagens descritas possuem elementos fantásticos.
A parte interessante aparece por baixo dessa camada mitológica. Historiadores tratam poemas como A Odisseia como possíveis formas de memória cultural: relatos transmitidos oralmente durante gerações, alterados a cada nova versão, mas ainda capazes de preservar fragmentos de guerras, migrações e estruturas políticas reais.
O poema foi registrado séculos depois do período que parece representar. Mesmo assim, contém referências a armas, reinos e costumes associados ao mundo micênico, civilização que ocupou partes da Grécia durante a Idade do Bronze.
A Guerra de Troia aconteceu?
A existência de uma guerra idêntica à descrita nos poemas de Homero nunca foi comprovada. O que a arqueologia encontrou foi uma grande cidade fortificada na região de Hisarlik, na atual Turquia, geralmente associada à antiga Troia.

As escavações revelaram diferentes camadas de ocupação e destruição. Isso confirma que havia uma cidade importante naquele local durante a Idade do Bronze, mas não demonstra que ela tenha sido atacada por uma aliança grega comandada por Agamêmnon ou conquistada com um cavalo de madeira.
A Guerra de Troia pode ter sido inspirada por um conflito real, por várias guerras reunidas em uma só narrativa ou por memórias de disputas comerciais e militares naquela região. Não há como escolher uma dessas possibilidades com certeza.
O Cavalo de Troia também não possui comprovação arqueológica. A história pode ter sido uma criação literária, uma lembrança transformada ao longo dos séculos ou uma metáfora cuja origem se perdeu.
Odisseu existiu de verdade?
Não há provas da existência de Odisseu como uma pessoa histórica identificável. Nenhuma inscrição da época registra um rei de Ítaca com sua biografia ou suas aventuras.
Uma possibilidade discutida é que o herói reúna características de diferentes governantes e navegadores micênicos. Com séculos de transmissão oral, feitos atribuídos a várias pessoas podem ter sido concentrados em um único personagem.
Ítaca, por sua vez, existe. A ilha fica no Mar Jônico e apresenta evidências de ocupação durante a Idade do Bronze. Construções, túmulos e objetos do período foram encontrados na região, mas nenhum sítio arqueológico foi confirmado como o palácio de Odisseu.
O mesmo cuidado vale para Penélope, Telêmaco, Helena, Menelau e Agamêmnon. Esses personagens podem refletir papéis reais das sociedades antigas, como reis locais, alianças matrimoniais e disputas entre famílias poderosas. Isso é diferente de comprovar que cada um deles existiu com os nomes e histórias conhecidos hoje.
O filme A Odisseia adapta o poema de Homero?
O filme de Christopher Nolan é uma adaptação do poema de Homero. Matt Damon interpreta Odisseu, Anne Hathaway vive Penélope e Tom Holland assume o papel de Telêmaco.
A produção acompanha o retorno do rei de Ítaca após a Guerra de Troia e inclui figuras conhecidas do mito, como Circe, Calipso, Atena e Polifemo. O longa chegou ao Brasil em 16 de julho de 2026.

Isso não transforma o filme em uma reconstrução histórica. A base continua sendo uma obra mitológica e literária. Cenários, roupas, diálogos e acontecimentos foram adaptados para o cinema, e algumas escolhas visuais já provocaram discussões sobre a distância entre a produção e o que se conhece da Idade do Bronze.
Para separar os termos: o filme adapta o poema, enquanto o poema pode preservar lembranças distantes de sociedades e conflitos reais. Nenhum dos dois deve ser lido como documentário.
Assassin’s Creed Odyssey adapta A Odisseia?
Assassin’s Creed Odyssey não adapta o poema de Homero e não coloca o jogador no papel de Odisseu.
O RPG da Ubisoft se passa entre 431 e 422 a.C., durante a Guerra do Peloponeso, conflito travado principalmente entre Atenas e Esparta. Esse período fica muitos séculos depois da época tradicionalmente associada à Guerra de Troia.

O protagonista pode ser Kassandra ou Alexios. Os dois percorrem a mesma campanha, usam as mesmas habilidades e visitam as mesmas regiões. Na continuidade oficial da franquia, Kassandra é a Portadora da Águia e protagonista da história.
A personagem trabalha como mercenária, participa de batalhas entre Atenas e Esparta, procura reunir sua família e persegue integrantes do Culto do Kosmos. O jogo também incorpora a tecnologia dos Isu, organização fictícia ligada à mitologia interna de Assassin’s Creed.
Qual é a ligação entre A Odisseia e Assassin’s Creed Odyssey?
A ligação está no cenário grego, na ideia de uma grande jornada e no uso constante de viagens pelo mar. Kassandra ou Alexios comandam a embarcação Adrestia, atravessam ilhas do Mar Egeu e encontram personagens históricos e criaturas retiradas da mitologia.
O jogo inclui versões de figuras como Sócrates, Heródoto, Péricles, Hipócrates, Brasidas e Pitágoras. Também permite enfrentar seres como o Minotauro, a Esfinge, Medusa e um ciclope, embora essas criaturas recebam explicações ligadas à ficção científica da franquia.
A palavra “odisseia” deixou de indicar somente o poema. Ela também passou a ser usada para descrever uma viagem longa, difícil e cheia de desvios. O título escolhido pela Ubisoft aponta para esse significado mais amplo.
A campanha de Kassandra é uma jornada pelo mundo grego, mas não refaz o caminho de Odisseu. Ítaca aparece dentro do mapa do jogo, porém a aventura principal não tenta recontar o retorno do herói após a Guerra de Troia.
Kassandra existiu na mitologia grega?
A Kassandra de Assassin’s Creed Odyssey é uma personagem fictícia criada para o jogo. Ela não corresponde à Cassandra da mitologia grega.

Nas lendas, Cassandra era uma princesa de Troia, filha do rei Príamo e da rainha Hécuba. Ela recebeu o poder de prever o futuro, mas foi condenada a nunca ser acreditada. Suas profecias envolviam a destruição de Troia e o destino de seus habitantes.
A mercenária da Ubisoft tem outra história. Ela é apresentada como descendente de Leônidas, vive no século V a.C. e participa da Guerra do Peloponeso. O uso do mesmo nome funciona como referência à tradição grega, não como adaptação da princesa troiana.
Kassandra ou Alexios: qual personagem escolher?
Para quem chegou a Assassin’s Creed Odyssey depois de assistir ao filme, Kassandra é a escolha recomendada. Ela ocupa o papel de protagonista na história oficial da franquia e possui a interpretação mais natural nas cenas dramáticas e cômicas.
A escolha não altera armas, armaduras, habilidades ou missões principais. Alexios percorre a mesma campanha e pode tomar as mesmas decisões. A diferença está no personagem que assume o papel de herói e em quem ocupa outra posição importante no conflito familiar.
Quem procura a versão alinhada ao cânone de Assassin’s Creed deve escolher Kassandra. Alexios continua sendo uma alternativa válida para uma segunda campanha ou para quem prefere sua interpretação mais exagerada.
Qual obra conhecer primeiro?
O filme de Nolan, o poema de Homero e o jogo da Ubisoft podem ser aproveitados separadamente.
A Odisseia conta o retorno de Odisseu depois da Guerra de Troia. O longa leva essa narrativa ao cinema. Assassin’s Creed Odyssey usa outra guerra, outros protagonistas e uma Grécia muito posterior, mas mantém o prazer de atravessar ilhas, navegar por mares perigosos e encontrar mitos no caminho.
Quem saiu do cinema com vontade de continuar na Grécia provavelmente encontrará no jogo da Ubisoft a experiência mais próxima em escala e exploração. Só não espere controlar Matt Damon, procurar Penélope ou refazer exatamente a rota de Odisseu.

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