À primeira vista, Sacrifício de Sangue é uma série sobre um assassino que atrai policiais para armadilhas usando chamadas de emergência. Mas o mistério criminal esconde outra história: a minissérie da Netflix é, acima de tudo, sobre o amor difícil entre um pai e um filho que já não sabem como conversar.
Os dois são Thomas Berg, interpretado por Jakob Oftebro, e Alfred Berg, vivido por Peter Andersson. Eles passam boa parte dos cinco episódios discutindo, desconfiando um do outro e reabrindo feridas antigas. Ainda assim, é a tentativa de reconstruir essa relação que sustenta a série até o último minuto.

O texto a seguir comenta a relação entre Thomas e Alfred, mas não revela a identidade do assassino.
A história de amor de Sacrifício de Sangue é entre pai e filho
O próprio criador George Kay, responsável também por Lupin e Sequestro, apresentou a produção dessa forma. Quando o projeto ainda era chamado de The Case, Kay o descreveu em um comunicado oficial da Netflix como uma história de amor entre pai e filho misturada a um thriller criminal.
Isso muda a forma de enxergar a investigação. Thomas não procura Alfred apenas porque o pai foi um bom detetive. Ele também encontra uma justificativa profissional para voltar à casa de alguém que vinha evitando havia muito tempo.
A aproximação começa de maneira quase constrangedora. Alfred não comparece ao jantar de aniversário do filho, mas entende imediatamente por que Thomas aparece depois: ele precisa de ajuda com o caso. Nenhum dos dois consegue falar diretamente sobre saudade, abandono ou culpa. Em vez disso, conversam sobre suspeitos, provas e velhos métodos policiais.
A investigação vira o único idioma que pai e filho ainda compartilham.
Por que Thomas e Alfred estavam afastados?
Alfred foi um investigador respeitado, mas terminou a carreira afastado da polícia e passou a viver isolado, cercado por cervejas e ferrovias em miniatura. Thomas construiu a imagem oposta: é controlado, bem-apresentado e reconhecido dentro da corporação.
Por trás da diferença existe uma mágoa antiga. Alfred dedicou tanto tempo ao trabalho que deixou a família em segundo plano. Em um dos detalhes mais reveladores da série, descobrimos que os trens não são apenas um passatempo solitário. Quando Thomas era criança, os dois costumavam observar trens juntos. O hábito desapareceu conforme Alfred passou a se ausentar cada vez mais.

O problema é que Thomas começa a repetir o comportamento que condena no pai. Conforme mergulha na investigação, ele esconde decisões da esposa Charlotte, afasta-se da filha Bonnie e permite que o trabalho ocupe todos os espaços da casa.
Alfred funciona, então, como uma imagem do futuro de Thomas. O filho passou a vida tentando ser diferente do pai, mas corre o risco de terminar exatamente como ele: respeitado como policial e praticamente ausente dentro da própria família.
Os dois demonstram afeto colocando tudo em risco
Sacrifício de Sangue não transforma essa reaproximação em uma sequência de pedidos de desculpas. Thomas e Alfred continuam ríspidos e teimosos. O afeto aparece nas escolhas que fazem durante a investigação.
Thomas compromete a própria carreira para proteger Alfred. O pai, por sua vez, entra em situações perigosas para impedir que o filho seja atingido pelas consequências do caso. Quanto mais tentam fingir que estão juntos apenas para encontrar o assassino, mais evidente fica que nenhum deles aceitaria perder o outro.
É aí que o título ganha um segundo sentido. O “sacrifício” não está somente nos crimes inspirados pelo quadro Midvinterblot. Também aparece no que Thomas e Alfred estão dispostos a abandonar — segurança, reputação e orgulho — para salvar um ao outro.
Quem quiser entender todos os símbolos utilizados pelo assassino pode conferir os detalhes e pistas escondidos no final de Sacrifício de Sangue. O Overdrive também explicou por que quase nunca fica escuro durante a série.
O último momento confirma qual era o verdadeiro mistério
Sem entregar o destino do assassino, a cena final é muito mais simples do que o restante do episódio. Não há uma longa conversa sobre o passado nem uma reconciliação perfeita. Thomas e Alfred voltam a dividir um carro, discutem sobre música e trocam provocações.
Parece pouco, mas o primeiro episódio mostrava duas pessoas que mal conseguiam ocupar o mesmo ambiente. Agora, elas podem discordar sem usar a raiva como desculpa para se afastar.
A investigação chega a uma resposta. A relação entre pai e filho, não. Ela continua cheia de falhas, mas já não está condenada ao silêncio. É por isso que o desfecho emocional de Sacrifício de Sangue importa mais do que a revelação sobre quem matou os policiais.

Sacrifício de Sangue está disponível na Netflix e possui cinco episódios. Para quem já terminou, o Overdrive preparou o final explicado da série. Também reunimos sete séries policiais para assistir depois de Sacrifício de Sangue.

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