Os melhores jogos do Homem-Aranha não começaram com a Insomniac em 2018. Muito antes de Marvel’s Spider-Man, o herói já havia estrelado uma Nova York com teias presas aos prédios, enfrentado uma invasão de simbiontes e dividido o protagonismo com versões de quatro universos.
A seleção abaixo considera o que cada jogo acrescentou à história do personagem nos videogames. Não basta ter envelhecido com alguma dignidade. Cada título precisa ter feito algo próprio, seja no deslocamento, no combate, na direção de arte ou na forma de adaptar os quadrinhos.
O problema é encontrar esses jogos hoje. Nenhum dos cinco pode ser comprado normalmente nas lojas digitais atuais. Em vários casos, a mídia física usada se tornou item de colecionador.
Spider-Man 2
Spider-Man 2, lançado em 2004, estabeleceu uma regra que parece óbvia hoje: a teia usada para balançar precisa estar presa a alguma coisa.
Nos jogos anteriores, o movimento funcionava mesmo quando não havia um prédio acima do personagem. A versão desenvolvida pela Treyarch amarrou cada disparo às superfícies da cidade e aplicou física de pêndulo ao deslocamento.
Isso mudou a relação com Nova York. O jogador precisava observar a altura dos prédios, soltar a teia na hora certa e aproveitar cada arco para ganhar velocidade. Segurar um botão sem pensar já não produzia o melhor resultado.

O sistema virou referência imediata para qualquer jogo posterior do personagem. Quando a Insomniac mostrou Marvel’s Spider-Man, as comparações com o título de 2004 apareceram antes mesmo do lançamento.
Nem tudo atravessou duas décadas com o mesmo fôlego. As atividades paralelas são repetitivas e a cidade tem pouco acontecendo fora das missões. Balançar entre os prédios, porém, ainda segura o jogo inteiro.
Ultimate Spider-Man transformou Venom em protagonista
Ultimate Spider-Man chegou em 2005 com a mesma Treyarch, mas abandonou a tentativa de acompanhar um filme. A adaptação seguiu a linha Ultimate dos quadrinhos, associada a Brian Michael Bendis e Mark Bagley.
O cel-shading reproduz contornos grossos, cores chapadas e a energia visual das páginas. Entre os jogos daquela geração, é o que menos depende de tolerância com gráficos antigos.

A grande diferença está no segundo personagem jogável. Parte da campanha coloca o jogador no controle de Venom, com movimentos e objetivos próprios.
Ele não funciona como uma versão maior do Homem-Aranha. Venom é pesado, atravessa obstáculos com força e precisa atacar pessoas para continuar ativo. As sequências mudam a perseguição de perspectiva: quem antes fugia de monstros passa a ser o predador.
Essa alternância ainda é rara em jogos de super-herói. Ultimate Spider-Man não limita Venom a uma missão curta ou a um personagem secreto. Ele faz parte da estrutura da campanha.
Shattered Dimensions
Spider-Man: Shattered Dimensions, de 2010, reuniu quatro versões do herói muito antes de o multiverso dominar as adaptações da Marvel.
Cada dimensão possui direção de arte e mecânicas próprias:
- Amazing concentra o combate acrobático e o uso de teias;
- Noir trabalha com furtividade e ataques pelas sombras;
- 2099 usa velocidade e sequências de queda livre;
- Ultimate entrega a força do traje simbionte e ataques em área.

A estrutura por fases impede que o conceito fique preso a uma única Nova York aberta. Cada universo apresenta inimigos, cenários e regras próprias, o que mantém a campanha mudando de ritmo.
O Noir é a ruptura mais visível. Em vez de enfrentar grupos no meio da rua, o jogador precisa apagar fontes de luz, observar rotas e capturar adversários isolados.
Shattered Dimensions também reuniu vozes ligadas a diferentes adaptações do personagem. O resultado funciona como uma celebração da história do Aranha nos desenhos, nos quadrinhos e nos jogos, sem depender apenas de referências escondidas.
Web of Shadows
Spider-Man: Web of Shadows, lançado em 2008, começa com uma Nova York tomada por simbiontes e permite trocar entre os trajes vermelho e preto durante o combate.
A mudança acontece imediatamente. Não há menu, pausa ou animação longa separando as duas formas.
O traje vermelho favorece velocidade e precisão. O simbionte aumenta o peso dos golpes e abre ataques mais agressivos. Alternar entre eles no meio de um combo é a base do sistema, não um recurso reservado para momentos específicos da história.

As lutas também aproveitam melhor as paredes. O Homem-Aranha corre por fachadas, prende inimigos e continua atacando em superfícies verticais sem que o jogo obrigue todo mundo a voltar ao chão.
Web of Shadows ainda inclui escolhas que alteram aliados e partes do desfecho. O sistema moral é simples, mas oferece caminhos incomuns para uma adaptação licenciada de 2008.
O jogo possui problemas claros de acabamento e apresentação. Ainda assim, poucos títulos entenderam tão bem que o combate do Homem-Aranha não deveria respeitar o chão.
Spider-Man de 2000
Spider-Man, desenvolvido pela Neversoft para o primeiro PlayStation, é o título mais antigo e mais difícil de revisitar desta seleção. Também é o ponto de partida para boa parte do que veio depois.
O jogo usa fases fechadas, com prédios cercados por uma névoa que escondia as limitações técnicas. A solução acabou criando uma identidade própria: Nova York parece isolada, estranha e constantemente ameaçada.

A campanha reúne vilões, trajes alternativos e referências aos quadrinhos. Stan Lee participa como narrador, acompanhando a aventura como se apresentasse uma edição especial do personagem.
A movimentação é limitada quando comparada aos mundos abertos posteriores, mas o jogo acertou a personalidade do Aranha. Há piadas durante as lutas, encontros com personagens conhecidos e uma mistura de ação com exploração que serviu de molde para as adaptações seguintes.
Quem chegar esperando a liberdade de Marvel’s Spider-Man provavelmente sentirá a idade. Quem quiser entender de onde os jogos modernos partiram encontrará quase todas as primeiras respostas ali.
Menções honrosas
Spider-Man: Mysterio’s Menace, do Game Boy Advance, condensa bem os poderes do personagem em um jogo de ação 2D e costuma desaparecer das listas focadas nos consoles de mesa.
Spider-Man: Friend or Foe merece lembrança pelo cooperativo local, recurso raro na história do personagem nos videogames.
The Amazing Spider-Man, de 2012, tem uma campanha irregular, mas oferece uma Nova York aberta competente para quem procura principalmente o deslocamento pela cidade.
Spider-Man: Edge of Time reduz o escopo de Shattered Dimensions e trabalha com apenas duas versões do herói. Mesmo assim, a relação entre o Aranha tradicional e o de 2099 rende algumas das melhores ideias da campanha.



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