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Criador de Mario diz que humanos terão espaço nos games mesmo se IA fizer “tudo”

Shigeru Miyamoto compara a inteligência artificial generativa à chegada dos computadores e defende que a visão criativa continuará sendo essencial no desenvolvimento de jogos

Shigeru Miyamoto sorri em um retrato de arquivo, vestindo camisa clara.
Shigeru Miyamoto em retrato de arquivo de 2015. Foto: Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT), via Wikimedia Commons — CC BY 4.0.
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Shigeru Miyamoto acredita que a inteligência artificial generativa pode transformar radicalmente a produção de videogames, mas não eliminará a importância dos criadores humanos. O designer por trás de Super Mario e The Legend of Zelda afirmou que, mesmo em um cenário no qual a tecnologia seja capaz de realizar praticamente todas as tarefas de desenvolvimento, continuará existindo espaço para a intenção e a originalidade de quem concebe um jogo.

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A declaração foi feita em 22 de outubro de 2026, em uma entrevista coletiva na sede da Nintendo, em Kyoto. O encontro marcou a escolha de Miyamoto para receber a Ordem da Cultura do Japão. Questionado sobre a popularização das ferramentas de IA, ele não defendeu a proibição da tecnologia nem apresentou um projeto da Nintendo que a utilize. Preferiu discutir uma diferença que considera fundamental: executar tarefas não é a mesma coisa que criar algo relevante.

Shigeru Miyamoto sorri em um retrato de arquivo, vestindo camisa clara.
Shigeru Miyamoto em retrato de arquivo de 2015. Foto: MEXT, via Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

O que Miyamoto disse sobre a inteligência artificial?

Na entrevista registrada originalmente pelo site japonês GAME Watch, Miyamoto relembrou como o trabalho de designers mudou com a chegada dos computadores. Antes, habilidades manuais, como desenhar letras para cartazes, podiam definir uma profissão. Quando programas passaram a executar parte desse serviço, o diferencial deixou de ser apenas a destreza com a ferramenta e passou a envolver escolhas de composição, organização e linguagem visual.

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Para ele, a IA generativa provoca uma mudança semelhante. Uma pessoa pode determinar a estrutura e a finalidade de uma criação, enquanto ferramentas automatizadas ajudam a preencher detalhes e realizar etapas operacionais. A existência desse auxílio, porém, não responde à pergunta mais importante: por que aquele jogo deve existir e o que fará o jogador querer continuar?

“Mesmo que a IA venha a fazer tudo no futuro, acredito que ainda teremos muito a fazer.”

A frase acima é uma tradução contextual da resposta de Miyamoto, também repercutida pelo Video Games Chronicle (VGC). Sua hipótese não equivale a uma previsão de que a tecnologia efetivamente assumirá todas as atividades de uma equipe. O argumento é que o avanço das ferramentas não determina, por si só, a qualidade ou o propósito do resultado.

Por que o criador de Mario separa “criação” de “trabalho”?

Miyamoto destacou um aspecto menos evidente do processo criativo: executar tarefas também pode ser prazeroso. Um profissional pode passar horas refinando elementos, produzindo materiais e ajustando detalhes e, ao final, sentir que fez algo excelente simplesmente porque dedicou muito esforço à execução. Na avaliação do designer, essa satisfação não é garantia de um bom projeto.

A distinção tem consequências diretas para os games. Construir cenários, preparar variações de objetos, testar combinações e concluir tarefas repetitivas pode consumir tempo. Mas decisões sobre ritmo, dificuldade, controles, exploração e interação entre jogador e mundo precisam formar uma experiência coerente. Esses exemplos ajudam a entender a lógica do argumento, sem significar que Miyamoto tenha confirmado o uso de IA em qualquer uma dessas etapas na Nintendo.

Ele também criticou a ideia de criar algo apenas reproduzindo fórmulas populares. Segundo Miyamoto, trabalhos baseados em copiar e colar tendências dificilmente permanecem relevantes quando não existe uma intenção individual por trás das escolhas. Sua visão não depende de rejeitar computadores: a tecnologia funciona como uma assistente da execução, enquanto o criador responde pelo sentido do que está sendo desenvolvido.

É uma discussão particularmente significativa para alguém cuja trajetória inclui jogos em que pequenas decisões de design marcaram gerações. O Overdrive já relembrou, por exemplo, como limitações e escolhas durante a produção de Super Mario 64 influenciaram elementos de um dos clássicos da empresa.

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A Nintendo vai usar IA generativa em seus jogos?

Não houve anúncio sobre adoção ou proibição de IA generativa na coletiva. A fala expressa a visão de Miyamoto sobre criação, mas não estabelece uma nova política corporativa nem confirma que futuros títulos de Mario, Zelda ou outras franquias utilizarão conteúdo produzido pela tecnologia.

O posicionamento público mais claro da Nintendo continua sendo de cautela e abertura a avanços técnicos. Em uma sessão de perguntas e respostas com acionistas em 2024, o presidente Shuntaro Furukawa explicou que sistemas semelhantes a IA já fazem parte dos videogames há décadas, como os responsáveis por controlar o comportamento de inimigos. Ele reconheceu o potencial criativo da IA generativa, mas alertou para questões de propriedade intelectual.

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Furukawa também afirmou que a Nintendo pretende continuar oferecendo experiências que não possam ser produzidas apenas com tecnologia. A resposta não foi uma promessa de jamais empregar IA generativa: a empresa disse que permanece aberta à evolução das ferramentas. Até o momento da publicação desta reportagem, não foi identificada uma confirmação pública da Nintendo de que a tecnologia esteja sendo empregada na criação de conteúdo de seus jogos.

A preocupação com a criatividade humana já aparece em outras empresas

O debate não se limita à Nintendo. Recentemente, o presidente da divisão de jogos da Konami defendeu que a IA não substitui os criadores, embora a empresa também invista em aplicações da tecnologia, inclusive relacionadas a eFootball. A comparação mostra que valorizar profissionais não significa necessariamente descartar ferramentas automatizadas.

Em outro exemplo, a Level-5 reconheceu o uso de IA em uma apresentação ligada a Professor Layton e Yo-kai Watch e precisou esclarecer a presença da tecnologia em seu processo de produção. Casos desse tipo tornam concreta uma discussão que envolve, ao mesmo tempo, produtividade, autoria, transparência e confiança do público.

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A diferença entre IA tradicional e IA generativa também importa. Um inimigo controlado por algoritmos, um sistema que sugere ajustes de balanceamento e uma ferramenta capaz de gerar textos ou imagens não são a mesma aplicação. Tratar todos esses recursos como se fossem equivalentes dificulta avaliar o que realmente muda no trabalho de artistas, programadores, roteiristas e designers.

Reconhecimento histórico coloca a fala em perspectiva

A entrevista ocorreu porque Miyamoto foi selecionado para a Ordem da Cultura, uma das principais honrarias do Japão, concedida a pessoas com contribuições excepcionais à vida cultural. Segundo a cobertura da Famitsu, ele é o primeiro representante do setor de videogames a receber esse reconhecimento. A cerimônia de entrega está prevista para 3 de novembro de 2026, no Palácio Imperial.

Ao comentar a escolha, o veterano da Nintendo fez questão de dividir o mérito com as equipes que trabalharam ao seu lado desde sua entrada na empresa, em 1977. Essa ênfase no trabalho coletivo também ajuda a compreender seu raciocínio sobre IA: uma criação importante não surge apenas porque determinada ferramenta permite produzi-la com rapidez.

Para os jogadores, a mensagem é menos sobre uma disputa entre pessoas e máquinas e mais sobre o que torna um game memorável. A tecnologia pode mudar a maneira de produzir uma aventura, mas Miyamoto sustenta que as decisões que dão identidade a ela continuam sendo uma parte essencial da criação. A Nintendo, por enquanto, não anunciou nenhuma mudança prática em seu processo de desenvolvimento a partir dessas declarações.

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