Golpe de namoro com IA criou 4.700 pessoas falsas para conversar 24 horas por dia

Rede de mais de 20 aplicativos misturava perfis controlados pelo Claude com trabalhadores reais; usuários pagavam moedas para continuar conversando sem saber quem era humano

Golpe de namoro com IA criou 4.700 pessoas falsas para conversar 24 horas por dia
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Você abre um aplicativo de namoro, encontra alguém interessante, recebe uma mensagem e começa a conversar. A pessoa responde de manhã, de madrugada e praticamente a qualquer hora. Só existe um problema: ela talvez nunca tenha existido.

Uma operação descoberta pela Anthropic colocou mais de 4.700 identidades controladas por inteligência artificial para conversar com usuários de aplicativos de relacionamento. Em apenas duas semanas de abril de 2026, essas personas interagiram com pelo menos 25 mil pessoas e produziram aproximadamente 2,36 milhões de mensagens.

O esquema, identificado internamente como GTG-15001, envolvia um estúdio de aplicativos baseado na China e mais de 20 apps de relacionamento. Segundo o relatório de inteligência de ameaças da Anthropic, cerca de três em cada quatro perfis apresentados aos usuários eram personas de IA.

A investigação ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (16). O The Verge investigou os aplicativos e a infraestrutura usada pela operação e encontrou uma estrutura muito mais sofisticada do que simplesmente criar fotografias falsas e deixar um chatbot responder mensagens.

Diagrama da Anthropic mostra como perfis de inteligência artificial e trabalhadores humanos eram misturados em aplicativos de namoro
Segundo a Anthropic, aproximadamente 75% do feed era formado por personas de IA, enquanto humanos pagos representavam cerca de 25% — Imagem: Anthropic

Como funcionava o golpe de namoro com IA?

O modelo era engenhoso porque não dependia apenas de robôs. A operação misturava personas controladas pelo Claude e pessoas reais contratadas como trabalhadores temporários dentro do mesmo feed.

O usuário não recebia qualquer indicação clara sobre qual perfil era humano. Segundo a Anthropic, a proporção era de aproximadamente três identidades de IA para cada pessoa real.

Na maior parte do tempo, a inteligência artificial fazia o trabalho pesado. O Claude mantinha milhares de conversas simultaneamente e podia responder continuamente, sem precisar dormir, fazer pausas ou dividir sua atenção como um operador humano.

A situação mostra um lado bastante concreto dos riscos associados aos modelos generativos. O Overdrive já mostrou, por exemplo, como um grupo no Iêmen usou Claude em atividades ligadas a projetos de foguetes e mísseis. Neste caso, porém, a automação foi aplicada diretamente a uma operação comercial enganosa.

A IA era instruída a nunca admitir que era uma IA

As personas não estavam simplesmente interpretando personagens aleatórios. A investigação encontrou instruções específicas para que os perfis não revelassem que eram automatizados.

Quando alguém pedia uma fotografia nova, uma chamada de vídeo ou alguma prova difícil de produzir, o sistema deveria encontrar uma justificativa para evitar a solicitação e continuar a conversa.

O próprio backend ajudava a sustentar a ilusão. Segundo a Anthropic, componentes do sistema podiam gerar artificialmente curtidas, visitantes e até vídeos pré-gravados quando nenhuma pessoa real estava disponível.

Mais inquietante ainda, a estrutura acompanhava quais usuários começavam a desconfiar que estavam conversando com um robô.

A Anthropic afirma que, em algumas conversas analisadas, o próprio raciocínio do modelo chegou a detectar situações potencialmente problemáticas, inclusive usuários relatando doença grave ou sofrimento intenso. Mesmo assim, a resposta final continuou sendo produzida dentro da personagem.

Humanos apareciam quando alguém começava a desconfiar

Os responsáveis também contratavam pessoas reais. Esses trabalhadores podiam entrar em videochamadas, responder a usuários ou seguir perfis em redes sociais. Na prática, serviam como uma camada de autenticidade.

Se alguém perguntasse se aquela pessoa realmente existia, uma chamada de vídeo ou um follow em uma rede social poderia diminuir a desconfiança.

Mesmo os humanos recebiam ajuda de inteligência artificial. Outro modelo, que segundo a Anthropic não era da própria empresa, oferecia três respostas prontas para cada mensagem. O trabalhador apenas escolhia qual delas enviar.

Os operadores podiam ser remunerados por mensagens, chamadas de vídeo e interações em redes sociais.

Ou seja: a IA mantinha a conversa em escala e os humanos apareciam principalmente quando alguma ação impossível para o bot ajudava a convencer o usuário de que tudo era real.

O dinheiro vinha das moedas usadas para continuar conversando

O esquema também foge um pouco do modelo mais conhecido de golpe romântico.

Não era necessariamente uma pessoa falsa pedindo dinheiro para uma passagem aérea, emergência médica ou investimento em criptomoedas. O próprio aplicativo era o mecanismo de monetização.

Conversar, dar matches e continuar usando determinados recursos consumia uma cota. Para seguir falando com os perfis, os usuários precisavam comprar moedas virtuais.

Isso criava um incentivo bastante simples: quanto mais tempo a conversa continuasse, mais oportunidades existiam para vender novos créditos.

A IA tornava esse modelo extremamente escalável. Um humano pode conversar com algumas pessoas ao mesmo tempo. Um sistema automatizado consegue sustentar milhares de personagens e conversas continuamente.

Discussões sobre controle de modelos estão ficando mais frequentes justamente por casos desse tipo. A Microsoft, por exemplo, publicou recentemente uma “constituição” para seus futuros modelos de IA, com regras sobre supervisão humana e interrupção de tarefas.

Quais aplicativos foram citados pela Anthropic?

O relatório relaciona pelo menos dez marcas observadas durante a investigação:

  • Dora;
  • Doni;
  • Romi;
  • Luma;
  • Jovia;
  • Kira;
  • GraceChat;
  • Haven;
  • Nalo;
  • Lovia.

A Anthropic afirma que existiam ainda outras variantes identificadas apenas por números internos. O relatório fala em uma rede com mais de 20 aplicativos, enquanto uma apresentação anterior da equipe de segurança mencionou aproximadamente 28.

Alguns deles continuaram disponíveis nas lojas por meses depois de a operação ter sido detectada.

Um dos aplicativos ainda estava no Google Play em 16 de setembro

Segundo o The Verge, praticamente todos os aplicativos identificados foram retirados das lojas antes da publicação do relatório da Anthropic. Alguns, porém, permaneceram disponíveis até setembro.

O Kira ainda aparecia no Google Play nesta quarta-feira (16).

A página consultada pelo Overdrive mostrava mais de 100 mil downloads e aproximadamente 14 mil avaliações. O aplicativo havia sido atualizado em 11 de setembro e aparecia entre os principais apps gratuitos da categoria de namoro.

O texto de divulgação também chama atenção diante das conclusões da investigação: a descrição promete “Real People, Real Romance”, ou “pessoas reais, romance real”.

Captura de tela promocional do aplicativo de namoro Kira no Google Play
Kira continuava listado no Google Play em 16 de setembro; o aplicativo aparece entre as marcas relacionadas à operação no relatório da Anthropic — Imagem: Google Play/Reprodução

Há ainda reclamações recentes publicadas na própria loja mencionando contas falsas, mensagens automáticas e chamadas suspeitas. Essas avaliações são relatos individuais de usuários e não substituem a investigação técnica, mas coincidem com comportamentos descritos no relatório e pelo pesquisador de segurança Matthew Gore-Kormanik.

Como a rede conseguiu passar pelo Google Play e pela App Store?

Os aplicativos teriam sido construídos para mudar de comportamento durante o processo de análise das lojas.

Documentação obtida pela Anthropic indicava a existência de um controlador de interface ativado especificamente durante a revisão. Recursos ligados ao funcionamento real da operação podiam permanecer escondidos enquanto Apple ou Google avaliavam o aplicativo.

As diferentes versões também usavam nomes de classes modificados para dificultar que sistemas automáticos percebessem que todos aqueles apps estavam relacionados.

Até o sistema de pagamento podia ser configurado remotamente, permitindo ocultar determinados fluxos durante a análise.

O The Verge também encontrou conexões entre aplicativos aparentemente separados. Dora, Romi, Luma e Eterna, por exemplo, chegaram a compartilhar dados relacionados ao desenvolvedor.

Como a Anthropic encontrou a operação?

Um dos primeiros sinais foi o volume de utilização do Claude.

Segundo a investigação publicada pelo The Verge, uma conta pré-paga chegou a realizar mais de 100 mil solicitações de API por dia. A atividade levou pesquisadores da Anthropic a aprofundar a análise.

A empresa conseguiu depois relacionar diferentes aplicativos e contas à mesma operação.

A descoberta faz parte de um relatório muito maior sobre abusos de inteligência artificial. A Reuters também confirmou que o documento da Anthropic descreve casos envolvendo fraude, espionagem, ataques cibernéticos e desenvolvimento de armamentos.

No Overdrive, esse mesmo relatório já serviu de base para a reportagem sobre os riscos concretos da inteligência artificial discutidos por Miguel Nicolelis.

O que aconteceu com os responsáveis?

A Anthropic afirma que bloqueou as contas e organizações associadas à operação e passou a usar as descobertas para reforçar seus sistemas de detecção.

A empresa também compartilhou informações técnicas com outros laboratórios de inteligência artificial e disse ter enviado detalhes relevantes para Apple e Google.

O desafio é que bloquear somente a conta usada para acessar um modelo não encerra necessariamente a infraestrutura. Os responsáveis utilizavam proxies e contas descartáveis, permitindo que novos acessos fossem criados.

Esse é um dos motivos pelos quais a Anthropic afirma que combater operações desse tipo exige cooperação entre empresas de IA, lojas de aplicativos e serviços de pagamento.

25 mil pessoas realmente perderam dinheiro?

A Anthropic afirma que pelo menos 25 mil indivíduos únicos conversaram com as personas durante o período analisado. Isso não significa que todos eles compraram créditos ou sofreram prejuízo financeiro.

O relatório público não informa quantos usuários efetivamente pagaram, quanto cada um gastou nem o valor total obtido pela operação.

Por isso, é mais preciso dizer que 25 mil pessoas foram expostas e interagiram com o sistema, e não que todas foram necessariamente vítimas financeiras.

O número que mostra melhor a escala da automação é outro: 2,36 milhões de mensagens em apenas duas semanas.

Para quem acompanha como a tecnologia está mudando trabalho, segurança e serviços digitais, o Overdrive mantém uma área dedicada a inteligência artificial. A própria Anthropic também estuda efeitos menos criminosos, mas igualmente profundos, como o cenário em que profissionais de tecnologia poderiam ter de migrar para outras carreiras até 2030.

No caso dos aplicativos de namoro, porém, a mudança já aconteceu: não era apenas uma pessoa usando IA para enganar outra. Era uma estrutura criada para transformar milhares de relacionamentos falsos em um negócio automatizado.

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