Fúria, série do Disney+ estrelada por Emmy Rossum e Lola Petticrew, é uma daquelas produções que parecem surgir discretamente no catálogo, mas não demoram a demonstrar que mereciam muito mais atenção. Em um ano bastante generoso para a televisão, o suspense sobre a caçada a uma serial killer já pode ser colocado entre as melhores coisas lançadas em 2026.
A premissa pode parecer familiar. Uma agente do FBI persegue uma assassina meticulosa enquanto novos crimes revelam um padrão cada vez mais inquietante. No entanto, Fúria rapidamente deixa claro que não está interessada apenas em reproduzir a estrutura de tantas séries policiais disponíveis nos streamings.
O que realmente importa é o duelo psicológico entre duas mulheres atravessadas por diferentes formas de violência. Enquanto a investigação avança, a linha que separa justiça, obsessão, trauma e vingança se torna menos nítida. É nesse território moralmente desconfortável que a série encontra sua verdadeira força.
No Brasil, os quatro primeiros episódios já estão disponíveis no Disney+, com novos capítulos lançados semanalmente.
Qual é a história de Fúria?
Criada por Elizabeth Meriwether, conhecida por trabalhos como New Girl, The Dropout e Morrendo por sexo (Dying for Sex), Fúria acompanha Alice Black, uma antiga detetive de homicídios de Nova York que tenta reconstruir a carreira nos níveis mais baixos do FBI.
Interpretada por Emmy Rossum, Alice ainda é uma agente em período probatório. Isso significa que ela precisa demonstrar competência dentro de uma instituição que controla seus movimentos, questiona suas decisões e nem sempre está disposta a confiar em seus instintos.
Tudo muda quando Alice encontra indícios da atuação de Catherine, uma mulher calculista que se aproxima de homens ricos por meio de identidades cuidadosamente fabricadas. Cada relacionamento é parte de uma encenação. Catherine estuda suas vítimas, conquista sua confiança e transforma intimidade em arma.

A personagem, vivida por Lola Petticrew, não é tratada apenas como um monstro indecifrável colocado diante de uma policial virtuosa. Fúria prefere construir um jogo mais complicado. Alice e Catherine seguem caminhos opostos, mas compartilham marcas de um mundo violento, além de uma necessidade quase destrutiva de decidir o que pode ser considerado justiça.
A série foi vagamente inspirada em Black Widow, filme de 1987 protagonizado por Debra Winger e Theresa Russell. A nova produção, entretanto, utiliza essa base apenas como ponto de partida para discutir violência feminina, poder, identidade e as instituições que decidem quais vítimas merecem ser ouvidas.
A serial killer é apenas o começo da história
O maior acerto de Fúria está na maneira como a investigação nunca se limita à pergunta mais óbvia. A identidade de Catherine é conhecida pelo público desde o começo. A tensão não depende de descobrir quem está matando, mas de compreender como ela age, por que escolhe determinadas vítimas e até onde Alice está disposta a ir para capturá-la.
Essa escolha transforma a temporada em um duelo de perspectivas. De um lado, acompanhamos a agente tentando conectar crimes, depoimentos e comportamentos. Do outro, observamos Catherine assumir novas identidades e manipular a percepção das pessoas ao seu redor.
O suspense nasce da aproximação inevitável entre as duas. Quanto mais Alice compreende a lógica da assassina, mais precisa entrar em um território que ameaça sua própria estabilidade. Catherine, por sua vez, não é uma presença distante. Ela parece sempre reorganizar o tabuleiro antes que os investigadores percebam que estão participando do jogo.
Apesar da temática pesada, a série não abandona o entretenimento. Os episódios possuem ritmo, reviravoltas e encerramentos capazes de sustentar a expectativa pelo capítulo seguinte. A diferença é que cada revelação também acrescenta uma nova camada ao conflito moral, em vez de funcionar apenas como choque passageiro.
Emmy Rossum e Lola Petticrew sustentam Fúria

O duelo entre Emmy Rossum e Lola Petticrew é o centro da série. As duas atrizes constroem personagens intensas sem depender de exageros constantes e conseguem transmitir a sensação de que Alice e Catherine estão sempre escondendo alguma coisa, inclusive de si mesmas.
Emmy Rossum interpreta Alice Black
Emmy Rossum vive Alice Black, uma ex-detetive de homicídios que agora ocupa uma posição inicial no FBI. A personagem combina inteligência, impulsividade e uma necessidade de provar que ainda é capaz de conduzir uma investigação importante.
Rossum evita transformar Alice em mais uma investigadora infalível. Seu desempenho deixa visíveis o desgaste, as escolhas ruins e a fúria que a personagem tenta controlar. É uma atuação fisicamente tensa, construída por olhares e pequenos gestos que sugerem uma mulher sempre próxima de ultrapassar algum limite.
Lola Petticrew interpreta Catherine
Lola Petticrew interpreta Catherine, uma serial killer capaz de modificar aparência, comportamento e personalidade de acordo com a pessoa que pretende seduzir. Sua principal arma não é a força, mas a fabricação de intimidade.
Petticrew torna essas transformações convincentes sem fazer Catherine parecer uma coleção de personagens desconectadas. Existe algo constante por trás de cada identidade, mesmo quando a série ainda não permite compreender completamente suas motivações.
Scoot McNairy, Quincy Tyler Bernstine e Jake Lacy completam o elenco
Scoot McNairy interpreta Danny, detetive de homicídios, antigo parceiro de Alice e uma das poucas pessoas que ainda conhece sua forma de trabalhar. O personagem traz uma lealdade cansada, quase nunca declarada diretamente, que oferece à protagonista algum vínculo com sua vida anterior.
Quincy Tyler Bernstine vive Nora, uma veterana do FBI com mais de duas décadas de experiência. Dura, observadora e frequentemente a pessoa mais lúcida da sala, ela representa tanto uma possível mentora quanto o peso institucional que Alice precisa enfrentar.
Jake Lacy aparece como Marshall, policial carismático que possui uma ligação antiga e complicada com Alice. Sua presença amplia o passado da protagonista e mostra que a investigação não é o único elemento capaz de desestabilizá-la.
O que a crítica está dizendo sobre Fúria?
A recepção crítica confirma que o entusiasmo em torno da série não é exagerado. No momento desta publicação, a primeira temporada de Fúria possui 98% de aprovação no Rotten Tomatoes, com base em 42 críticas. A avaliação do público está em 88%.
O consenso do agregador destaca a intensidade do suspense, a força de Emmy Rossum e a maneira como o drama policial utiliza muito bem suas protagonistas. Entre as análises reunidas pelo site, os elogios se concentram nas atuações, na escrita cuidadosa e no conflito central entre justiça institucional e vingança pessoal.
O índice é ainda mais expressivo porque Fúria não depende de uma franquia conhecida, de um grande universo compartilhado ou de uma campanha capaz de dominar as redes sociais. Sua repercussão está sendo construída principalmente pela qualidade dos episódios e pelo boca a boca.
Chamá-la de subestimada, portanto, não significa dizer que a crítica a ignorou. O problema é outro. No Brasil, a produção ainda circula muito menos do que séries inferiores impulsionadas por marcas mais conhecidas. É uma das grandes estreias do ano escondida à vista de todos dentro do Disney+.
Fúria faz parte de um ano excelente para séries subestimadas
O curioso é que Fúria não está sozinha. Algumas das produções mais interessantes de 2026 chegaram aos streamings sem o barulho normalmente reservado às grandes franquias.
No Apple TV, O Segredo de Widow’s Bay misturou horror, humor ácido e o cotidiano de uma comunidade isolada para criar uma das melhores surpresas do ano. A série estrelada por Matthew Rhys transforma uma ilha supostamente amaldiçoada em personagem e utiliza o sobrenatural para falar sobre culpa, memória e os pecados escondidos por uma cidade inteira.
A primeira temporada pode ser encontrada diretamente no Apple TV.
Também disponível no Apple TV, Prazer Máximo Garantido colocou Tatiana Maslany no centro de uma história que combina chantagem, assassinato, crise familiar e paranoia digital. O Game Overdrive já explicou o final de Prazer Máximo Garantido, mas o grande prazer da série está na forma como transforma intimidade e solidão em ferramentas de controle.
A série completa está disponível no Apple TV.
Na Netflix, a terceira temporada de Entrevista com o Vampiro, também apresentada como O Vampiro Lestat, reafirmou a adaptação das Crônicas Vampirescas de Anne Rice como uma das experiências mais ambiciosas da televisão atual.
A nova fase amplia a presença de Lestat, preserva a densidade política e emocional da produção e mostra que fantasia gótica pode ser tão provocadora quanto qualquer drama de prestígio. As três temporadas estão disponíveis na Netflix.
No Brasil, a temporada também possui exibição semanal pelo canal AMC, enquanto o Prime Video ainda não confirmou quando receberá o terceiro ano.
São produções muito diferentes, mas todas demonstram algo semelhante. Em 2026, parte da melhor televisão não veio necessariamente das séries mais comentadas, e sim de obras dispostas a combinar gêneros, personagens moralmente difíceis e narrativas que confiam na inteligência do público.
Quantos episódios tem Fúria?
A primeira temporada de Fúria possui oito episódios. Os três primeiros foram disponibilizados em 27 de julho, enquanto os demais seguem um calendário semanal.
No Brasil, os capítulos inéditos chegam ao Disney+ às segundas-feiras. Depois do quarto episódio, lançado em 3 de agosto, os próximos estão programados para os dias 10, 17, 24 e 31 de agosto.
Vale a pena assistir Fúria no Disney+?
Sim. Fúria é uma das melhores séries policiais lançadas em 2026 e uma recomendação especialmente forte para quem gosta de histórias sobre serial killers, investigações psicológicas e protagonistas que não cabem confortavelmente nas categorias de heroína e vilã.
A série entende que uma boa caçada não depende apenas de esconder a identidade do criminoso. O que prende o espectador é acompanhar duas personagens se aproximando enquanto suas ideias de justiça começam a contaminar uma à outra.
Emmy Rossum entrega uma de suas atuações mais intensas, Lola Petticrew constrói uma assassina imprevisível e Elizabeth Meriwether encontra profundidade dentro de uma estrutura aparentemente conhecida. O resultado é um suspense elegante, inquietante e muito mais complexo do que sua premissa inicial sugere.
Se O Segredo de Widow’s Bay, Prazer Máximo Garantido e a terceira temporada de Entrevista com o Vampiro já colocavam 2026 entre os melhores anos recentes para a televisão, Fúria reforça essa impressão. Pode ter chegado discretamente ao Disney+, mas certamente não merece permanecer escondida no catálogo.
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