Elden Ring Nightreign surpreende ao trocar peso por ritmo
Nota 78

Elden Ring Nightreign surpreende ao trocar peso por ritmo

Spin-off da FromSoftware troca a estrutura clássica do soulslike por um loop mais ágil, cooperativo e viciante, sem depender do peso narrativo do original

Por Deco Campos junho 11, 2025

O que você vai encontrar

Quando Elden Ring Nightreign foi revelado, minha reação inicial foi a mesma de muita gente que gosta da FromSoftware: curiosidade misturada com desconfiança. Não era uma continuação direta de Elden Ring, nem um novo soulslike nos moldes tradicionais. Era outra coisa, um derivado cooperativo, montado sobre estruturas já conhecidas, com uma proposta mais enxuta e muito menos preocupada com lore.

Parecia pouco. Na prática, não é.

Depois de cerca de quarenta horas, saí da experiência com uma sensação muito clara: Nightreign é um jogo surpreendentemente divertido. Não porque tente repetir a grandeza monumental de Elden Ring, mas justamente porque entende que não deve competir com ele. Em vez disso, escolhe outro caminho, mais rápido, mais direto e muito mais focado em ritmo, sinergia e repetição viciante.

O que é Elden Ring Nightreign?

A base de Elden Ring Nightreign se afasta de forma consciente da estrutura tradicional dos soulslikes. Em vez de uma jornada longa, contemplativa e centrada em exploração meticulosa, o jogo aposta em um ciclo de sobrevivência com cara de ritual repetido. Cada sessão funciona como uma corrida contra o tempo, organizada em dias e noites que empurram o jogador para frente sob a ameaça constante da Noite Eterna.

O objetivo é sobreviver a esse ciclo, enfrentar ameaças progressivamente mais perigosas e chegar ao senhor da noite ao final da jornada. Durante os dias, você explora áreas das Terras Intermédias, encara inimigos, subchefes e chefes conhecidos, coleta recursos e prepara sua build para a fase seguinte. À noite, o jogo aperta o cerco e exige leitura mais rápida, decisões melhores e uso mais inteligente do que foi conquistado até ali.

É uma estrutura que lembra muito mais um time attack estratégico do que qualquer coisa próxima da cadência tradicional de um soulslike.

Elden Ring Nightreign

O ritmo é a grande diferença

Esse talvez seja o aspecto mais importante para entender Nightreign. O jogo não quer que você tenha a mesma relação que tinha com Elden Ring. Aqui, o tempo é um recurso tão valioso quanto armas, cura ou evolução de personagem. Cada escolha pesa porque o ciclo continua andando.

Isso muda tudo. Entrar em uma área promissora, explorar mais a fundo uma masmorra ou recuar para se preparar melhor antes da noite cria pequenos dilemas o tempo inteiro. A exploração continua recompensando curiosidade, mas agora há urgência. E essa urgência dá ao jogo uma identidade bem própria.

Foi justamente isso que mais me conquistou. Nightreign tem menos contemplação, mas em troca entrega uma tensão mais constante, uma sensação de fluxo que faz cada sessão terminar com aquela vontade imediata de começar outra.

Conhecer os personagens é essencial

Outro acerto importante está nos personagens jogáveis. Os oito disponíveis oferecem funções e encaixes bem diferentes, e entender como cada um opera faz enorme diferença, especialmente no multiplayer. Saber o que seu personagem faz, como ele se conecta ao restante do grupo e quais benefícios cooperativos ele traz não é detalhe. É parte central da experiência.

Quando essa sinergia acontece, Nightreign mostra sua melhor face. O jogo fica muito mais interessante quando todos entendem o próprio papel e conseguem se comunicar minimamente bem. Há um senso de orquestração real na forma como a equipe se movimenta, marca objetivos e reage aos perigos do ciclo.

Algumas decisões de design ajudam bastante nisso. O sistema de marcações compartilhadas funciona bem e transforma comunicação em mecânica. A forma de reanimar aliados também é uma ótima ideia: em vez de interromper tudo para ajudar alguém caído, basta acertar golpes no parceiro moribundo para trazê-lo de volta. É rápido, prático e mantém o combate em movimento.

Reaproveitamento de assets não é problema aqui

Muito se falou sobre o reaproveitamento de elementos de Elden Ring e até de jogos mais antigos da FromSoftware. Nightreign reutiliza muita coisa, de cenários a inimigos, passando por animações e outros elementos visuais. Para mim, isso só seria um problema se o jogo parecesse preguiçoso. Não parece.

A familiaridade funciona a favor da proposta. Estar em ambientes conhecidos, reconhecer padrões visuais e encontrar inimigos que evocam outros momentos da obra da FromSoftware ajuda a criar uma sensação curiosa de continuidade sem que o jogo precise depender da narrativa do original. O mundo parece familiar, mas o ritmo, o foco e a forma de jogar são outros.

E isso basta para dar identidade ao projeto. Nightreign não é um grande remix vazio. Ele reorganiza peças conhecidas dentro de uma lógica diferente e, no processo, encontra personalidade.

Multiplayer e solo criam sensações bem distintas

Uma das coisas mais interessantes em Nightreign é que cooperativo e solo não parecem apenas duas formas de jogar o mesmo conteúdo. Eles mudam a natureza da experiência.

No multiplayer, o jogo se aproxima mais de um roguelite. A presença de outros jogadores suaviza parte da pressão, abre espaço para erros e transforma a jornada em algo mais compartilhado, quase mais aventureiro. Ainda há desafio, claro, mas ele é diluído pela cooperação.

No modo solo, a leitura muda bastante. A hostilidade do ambiente pesa mais, o senso de risco aumenta e cada erro tem muito mais impacto. A progressão parece mais dura, mais seca, mais próxima de um roguelike em espírito. Não vira exatamente um soulslike tradicional, mas é o modo que mais se aproxima daquela tensão mais solitária que tanta gente associa à FromSoftware.

Elden Ring Nightreign

Falta um pouco mais de clareza na curva inicial

Se há algo que me incomodou mais no começo, foi a sensação de que o jogo demora para explicar melhor seus sistemas cooperativos, sua lógica de progressão e certos detalhes de interação entre jogadores. Demora um pouco até tudo fazer sentido com clareza.

Não chega a arruinar a experiência, mas cria um início menos elegante do que poderia. E é uma pena, porque quando o jogo finalmente encaixa e você entende como ele quer ser jogado, ele fica muito mais viciante. Existe um ótimo sistema ali, só que ele poderia ser apresentado de forma mais refinada.

Performance técnica é boa, com tropeços pontuais

A chave da review foi fornecida para Xbox Series S, e no geral a experiência técnica foi positiva. O jogo se saiu bem no console de entrada da Microsoft, o que já é um ótimo sinal para um projeto com essa proposta.

Tive dois problemas mais perceptíveis com bugs de som, que só consegui resolver saindo da sessão. Também notei alguns pequenos bugs visuais e quedas pontuais de performance, mas nada que realmente tenha comprometido minhas horas com o jogo.

Visualmente, ele obviamente não alcança o mesmo patamar de plataformas mais potentes ou do PC, mas isso era esperado. Dentro das limitações do Series S, o resultado é satisfatório

Assim como em Elden Ring, a trilha sonora de Nightreign merece destaque. Há um peso épico muito bem dosado, especialmente nos momentos mais tensos e nos confrontos que exigem mais do jogador. É o tipo de trilha que amplia a sensação de perigo e recompensa, ajudando a transformar vitórias duras em momentos realmente marcantes.

Pode não ser o elemento mais discutido do jogo, mas é parte importante do prazer de voltar para mais uma sessão.

Vale a pena jogar Elden Ring Nightreign?

Elden Ring Nightreign vale a pena justamente porque não tenta ser o que não é.

Ele não é uma continuação épica de Elden Ring. Não tem a mesma profundidade narrativa, o mesmo peso de mundo nem o mesmo senso de descoberta do jogo de 2022. Mas também não quer substituir essa experiência. Seu mérito está em entender o próprio escopo e executar muito bem uma proposta menor, mais ágil e mais focada em repetição estruturada.

Ao abraçar um formato mais próximo de roguelite e roguelike, dependendo do modo escolhido, a FromSoftware cria um spin-off coeso, desafiador e muito divertido. O reaproveitamento de assets, longe de enfraquecer o projeto, ajuda a reforçar sua familiaridade e torna mais natural essa nova leitura das Terras Intermédias.

Não é um novo monumento como Elden Ring, mas é uma surpresa muito bem-vinda. E talvez esse seja justamente o maior elogio que dá para fazer: Nightreign encontra um espaço próprio sem precisar viver à sombra do original.

Vale a pena?

Sim.

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