Review de Lost Records: Bloom & Rage: drama, mistério e memória
Lost Records: Bloom & Rage revisita a alma da Don’t Nod
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Lost Records: Bloom & Rage revisita a alma da Don’t Nod

Aventura narrativa resgata a sensibilidade emocional do estúdio francês com personagens fortes, escolhas relevantes e um mistério que cresce entre passado e presente

Por Kayke Matos há 12 meses Disponível em Game Pass e PlayStation Plus
Nota
82

Vale a pena jogar?

Aventura narrativa resgata a sensibilidade emocional do estúdio francês com personagens fortes, escolhas relevantes e um mistério que cresce entre passado e presente

Fundada em 2008, a Don’t Nod construiu sua reputação apostando em narrativas sensíveis, personagens imperfeitos e escolhas com peso dramático. Desde Remember Me, o estúdio já mostrava interesse em contar histórias de forma menos convencional, mas foi com Life is Strange que encontrou sua voz mais reconhecível. Lost Records: Bloom & Rage é, em muitos sentidos, um reencontro com essa identidade. Não como repetição pura, mas como uma obra que entende de onde veio e tenta transformar esse passado em algo novo.

Lançado em duas partes, com a Tape 1 chegando em 18 de fevereiro e a Tape 2 em 15 de abril de 2025, para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC, o jogo apresenta uma narrativa que cruza memória, trauma e amizade com um tom contemplativo desde os primeiros minutos. A análise foi feita na versão de PlayStation 5, onde o título chegou pelo catálogo da PlayStation Plus.

O enredo aposta em mistério, memória e feridas antigas

A história se passa em Velvet Cove, no estado de Michigan, e gira em torno de quatro amigas que voltam a se encontrar 27 anos depois de romperem completamente o contato. Nora, Swann, Kat e Autumn viveram, no verão de 1995, uma amizade intensa e formadora, dessas que parecem definitivas enquanto duram. Só que um acontecimento traumático mudou tudo e fez nascer um pacto silencioso de afastamento. O reencontro no presente devolve à superfície tudo aquilo que parecia enterrado.

No centro de tudo está Swann, personagem controlada pelo jogador tanto no passado quanto no presente. É por meio dela que a trama reconstrói os laços entre o grupo e começa a revelar, com bastante calma, os contornos do mistério que envolve Velvet Cove e o chamado Abismo. A primeira metade da campanha escolhe o caminho da lentidão, quase sempre privilegiando atmosfera e construção de personagem em vez de respostas rápidas. Isso pode afastar quem espera uma trama mais imediata, mas também ajuda a dar mais peso emocional ao que vem depois.

O grande acerto aqui está na forma como a Don’t Nod escreve relações. Cada personagem tem identidade própria, conflitos visíveis e uma dinâmica específica com Swann. O jogo entende que o afeto entre essas garotas não precisa ser explicado em excesso para ser sentido. Ele aparece em silêncios, pequenas conversas, gestos contidos e na forma como a memória distorce ou embeleza o que aconteceu.

As escolhas voltam a ser o coração da experiência

Seria impossível olhar para Lost Records: Bloom & Rage sem pensar em Life is Strange, e o próprio jogo não tenta fugir disso. A semelhança está na melancolia da direção, no ritmo mais observador e na forma como as escolhas afetam tanto a estrutura da narrativa quanto a intimidade entre personagens. Há até ecos mais diretos, como referências e pequenos gestos de autoconsciência que funcionam como carinho para quem acompanha o estúdio há anos.

Mas Lost Records não se sustenta apenas por associação. Suas decisões têm função real dentro da experiência. Algumas alteram o tom de cenas e o nível de proximidade entre Swann e suas amigas, enquanto outras mexem em rumos mais significativos da história. O sistema de afinidade ajuda a dar forma a isso, permitindo que o jogador se aproxime mais de determinadas personagens, mantenha laços equilibrados ou simplesmente deixe algumas conexões esfriarem.

O resultado é um jogo em que o passado não é apenas pano de fundo. Ele é matéria viva. As decisões tomadas em 1995 reverberam 27 anos depois e interferem não só na relação entre as quatro, mas no modo como cada uma lida com o que foi perdido, escondido ou mal resolvido. Ao fim de cada fita, o resumo estatístico das escolhas serve quase como espelho, mostrando o que mudou e sugerindo quantas pequenas alterações seriam suficientes para transformar a trajetória.

A campanha encontra força na escrita e na atmosfera

Um dos maiores méritos de Lost Records: Bloom & Rage está no tom. A Don’t Nod sabe trabalhar bem a sensação de nostalgia, mas evita transformá-la em caricatura. Velvet Cove não é apenas um cenário bonitinho embalado por lembranças dos anos 1990. Há algo de inquietante ali, uma espécie de tristeza suspensa, como se a cidade soubesse mais do que diz. Essa construção fortalece o mistério e ajuda a manter a curiosidade acesa mesmo quando a narrativa escolhe andar devagar.

Também funciona a maneira como o jogo mistura drama adolescente com algo mais sombrio e indefinido. Não se trata de um suspense agressivo ou de uma virada espetacular a cada capítulo. É uma história que prefere infiltrar desconforto aos poucos, fazendo o jogador conviver com perguntas antes de oferecer qualquer resposta. Quando isso funciona, funciona muito bem.

A campanha não é longa, ficando em torno de nove a dez horas, mas consegue parecer maior pela densidade emocional que carrega. Existe coesão entre as duas fitas e uma sensação clara de unidade, como se o jogo soubesse exatamente qual tipo de experiência quer entregar.

Nem tudo funciona no mesmo nível no PlayStation 5

Se a parte narrativa é segura, o mesmo não pode ser dito do desempenho técnico. No PlayStation 5, Lost Records: Bloom & Rage apresenta quedas de framerate perceptíveis, especialmente em áreas com vegetação mais densa e cenas abertas em ambientes naturais. Como o jogo já roda a 30 quadros por segundo, qualquer oscilação se torna ainda mais visível e compromete um pouco da imersão.

Também há bugs menores espalhados pela campanha. O mais incômodo aconteceu em uma cena da Tape 2, quando uma conversa simplesmente se recusou a avançar, me obrigando a reiniciar do último checkpoint. Em outro momento que deveria ser dramático, uma personagem ficou parada de forma estranha em meio a um incêndio, criando um efeito involuntariamente cômico. Nada disso destrói a experiência, mas são ruídos desnecessários em um jogo tão dependente de atmosfera e envolvimento emocional.

Vale a pena jogar Lost Records: Bloom & Rage?

Vale, sobretudo para quem gosta de aventuras narrativas que priorizam personagem, diálogo e construção emocional acima de ação ou ritmo acelerado. Lost Records: Bloom & Rage não é um jogo ansioso para impressionar em cinco minutos. Ele quer tempo. Quer que você observe, escute e monte aos poucos a dimensão do que aconteceu com aquelas quatro garotas. Para parte do público, isso pode soar lento demais. Para outra, é exatamente o tipo de entrega que faz falta no mercado.

Há aqui um claro respeito pelo legado da Don’t Nod, mas sem a sensação de mera reciclagem. O jogo encontra uma voz própria quando deixa o mistério respirar e confia na força do seu elenco. Mesmo com tropeços técnicos, é uma experiência que sabe tocar em temas delicados com cuidado e consegue criar vínculo real com suas personagens.

Veredito final

Lost Records: Bloom & Rage confirma que a Don’t Nod ainda sabe trabalhar como poucas a mistura entre drama íntimo, mistério e escolhas com consequências emocionais. A escrita é sólida, as personagens funcionam, a ambientação tem personalidade e a estrutura em duas fitas sustenta bem a campanha. Os problemas técnicos no PlayStation 5 atrapalham em momentos importantes, e o ritmo mais lento certamente não vai conversar com todo mundo, mas o saldo final ainda é bastante positivo.

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