A corrida global pela inteligência artificial está ajudando a transformar a memória em um dos componentes mais caros e disputados da indústria de tecnologia em 2026. A pressão já aparece no preço de celulares, notebooks, PCs e consoles, enquanto fabricantes reduzem configurações, retiram modelos baratos do mercado ou simplesmente repassam parte do custo ao consumidor.
O fenômeno ganhou o apelido de “RAMageddon”. Segundo uma nova análise publicada pelo The Guardian nesta segunda-feira, 21 de setembro, o custo da memória subiu mais de 300% em um ano em determinados segmentos, segundo dados citados da IDC, enquanto alguns componentes chegam a custar várias vezes mais do que antes.
O problema não significa que ChatGPT, Gemini ou outros serviços estejam literalmente comprando a mesma memória encontrada em um celular. O elo está na capacidade industrial: grandes fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron estão direcionando investimentos e linhas de produção para HBM, DRAM de servidores e armazenamento corporativo usados em data centers de IA, reduzindo a disponibilidade relativa de componentes destinados ao mercado de consumo.
O Overdrive já mostrou como essa disputa está encarecendo celulares em 2026. Agora, os efeitos aparecem de forma cada vez mais clara também em computadores e videogames.

Por que a memória RAM ficou tão cara em 2026?
A explicação começa nos data centers.
Treinar e executar grandes modelos de inteligência artificial exige enormes quantidades de memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, além de DRAM para servidores e SSDs corporativos.
Esses produtos são extremamente lucrativos para fabricantes de semicondutores. A consequência é uma mudança nas prioridades industriais: capacidade que poderia ser destinada a componentes de PCs, celulares e outros eletrônicos passa a atender servidores e aceleradores de IA.
A própria Samsung confirmou essa dinâmica em seus resultados do segundo trimestre de 2026. A divisão de memória registrou outro trimestre recorde, impulsionada pela demanda de IA e pela prioridade dada a produtos para servidores.
A empresa também afirmou que espera demanda forte por DRAM de servidores, SSDs corporativos e HBM durante o segundo semestre, mantendo o mercado com oferta restrita mesmo com alguma desaceleração de PCs e dispositivos móveis.
A TrendForce chega à mesma conclusão. Em seu boletim de DRAM de setembro, a consultoria afirma que a demanda de infraestrutura de IA está deslocando capacidade que atenderia o mercado de consumo. Fabricantes de PCs e celulares já estão reduzindo produção ou procurando fornecedores alternativos de memória.
Quanto subiu o preço da memória?
Não existe uma única porcentagem aplicável a toda memória RAM. DRAM para PCs, LPDDR para smartphones, HBM para aceleradores e NAND para armazenamento são mercados diferentes, com contratos, capacidades e ciclos próprios.
Mesmo assim, a escala da alta chama atenção.
Francisco Jeronimo, vice-presidente da IDC, afirmou ao Guardian que o custo da memória chegou a subir mais de 300% em um ano. A reportagem também encontrou chips negociados por valores até cinco vezes maiores que preços anteriores.
No varejo de componentes para PC, os efeitos também são visíveis. Levantamentos publicados ao longo de 2026 encontraram kits de DDR5 com aumentos de várias centenas por cento em relação às mínimas históricas.
O ponto importante é que essas altas não chegam ao consumidor de maneira uniforme. Uma empresa pode ter contratos de fornecimento fechados meses antes, estoques antigos ou capacidade de absorver parte da inflação. Outra pode precisar comprar memória imediatamente no mercado e enfrentar custos muito maiores.
O que a inteligência artificial tem a ver com a memória do seu celular?
HBM e a memória de um smartphone não são exatamente o mesmo produto, mas pertencem a uma cadeia industrial concentrada em poucos fabricantes.
Quando Samsung, SK Hynix e Micron obtêm margens maiores produzindo componentes para grandes data centers, existe um incentivo econômico para priorizar essa demanda.
A TrendForce afirmou em setembro que servidores de IA continuam absorvendo agressivamente capacidade de DRAM e que o desequilíbrio entre oferta e procura deve persistir em 2027.
Para smartphones, isso significa custos maiores de LPDDR e armazenamento NAND. Nos modelos mais baratos, onde a margem de lucro é pequena, algumas dezenas de dólares adicionais podem tornar uma configuração economicamente inviável.
Por isso, o efeito do RAMageddon não aparece somente como aumento de preço.
- fabricantes podem retirar versões mais baratas do mercado;
- reduzir RAM ou armazenamento;
- usar componentes de gerações anteriores;
- diminuir produção;
- ou aumentar diretamente o preço sugerido.
iPhones ficaram £100 mais caros no Reino Unido
A Apple oferece um exemplo recente de como a inflação dos componentes está chegando ao varejo.
Segundo o Guardian, a companhia aumentou em £100 o preço dos iPhones vendidos no Reino Unido, inclusive modelos mais antigos. O reajuste citado é específico do mercado britânico e não deve ser convertido diretamente para estimar preços brasileiros.
Samsung e Google também elevaram em até £80 os preços de alguns smartphones topo de linha no mercado britânico.
O cenário ajuda a explicar por que lançamentos estão cada vez mais caros mesmo quando não apresentam mudanças proporcionais em todas as áreas do hardware.
No Brasil, vários outros elementos entram na formação do preço, incluindo câmbio, impostos, logística, produção local, margem da fabricante e estratégia comercial. Portanto, a crise global de memória é um dos fatores, e não uma explicação automática para qualquer reajuste.
Celulares baratos são os mais vulneráveis
A pressão tende a ser especialmente severa nos aparelhos de entrada.
Uma fabricante pode absorver alguns dólares extras em um smartphone premium vendido com margem maior. Isso se torna muito mais difícil em um modelo barato.
A Reuters mostrou recentemente que memória pode representar até 60% do custo dos componentes de determinados celulares na faixa de US$ 400, dependendo da configuração e do momento de compra.
A TrendForce também alerta que fabricantes estão considerando materiais e componentes mais baratos para manter produtos de entrada economicamente viáveis.
O resultado é uma situação incomum: o consumidor pode acabar pagando mais por um aparelho que, em alguns aspectos, oferece hardware inferior ao que receberia anteriormente pelo mesmo preço.
Essa dinâmica já foi detalhada pelo Overdrive na análise sobre como a IA está deixando os celulares mais caros em 2026.
Notebooks e PCs também estão ficando mais caros
O mercado de computadores está ainda mais diretamente exposto ao preço de DRAM e armazenamento.
De acordo com a nova análise do Guardian, a Microsoft acrescentou até £220 ao preço de determinados computadores Surface no Reino Unido. A empresa também passou a oferecer versões com menos memória em algumas faixas para tentar controlar o preço final.
Notebooks premium da Dell tiveram reajustes de até aproximadamente 25% em determinados mercados e configurações.
A Apple também reajustou parte de sua linha de computadores durante 2026.
A pressão não fica restrita às máquinas prontas. Quem monta o próprio computador também encontra RAM e SSDs em um mercado bastante diferente do observado antes do boom recente dos data centers.
Por isso, esperar automaticamente que todos os componentes fiquem mais baratos na Black Friday pode ser arriscado. O Overdrive analisou esse cenário no guia sobre montar um PC gamer agora ou esperar a Black Friday de 2026.
Comprar menos RAM virou uma maneira de segurar preços
Existe outra consequência importante: em vez de aumentar apenas o preço, algumas empresas podem reduzir a configuração básica.
Isso explica o retorno ou a permanência de computadores com 8 GB de RAM em segmentos nos quais 16 GB começavam a se tornar comuns.
Do ponto de vista do fabricante, cortar memória reduz o impacto do componente mais inflacionado. Para o consumidor, porém, significa analisar a ficha técnica com mais cuidado.
Em um notebook com memória soldada, por exemplo, economizar na compra inicial pode significar ficar preso àquela capacidade durante toda a vida útil do aparelho.
Quem está escolhendo uma máquina pode usar o Overdrive Compara para colocar fichas técnicas de notebooks lado a lado e verificar memória, processador, armazenamento e outras diferenças antes da compra.

Por que os consoles também estão ficando mais caros?
Videogames são particularmente sensíveis à crise porque dependem de memória e armazenamento, mas tradicionalmente trabalham com margens de hardware pequenas.
A Microsoft foi direta ao justificar seu reajuste de 2026.
Em comunicado oficial do Xbox, a empresa afirmou que os custos de memória e armazenamento dos consoles haviam aumentado mais de 2,5 vezes.
A Microsoft acrescentou que espera outro aumento de aproximadamente duas vezes até o segundo semestre de 2027.
Desde 1º de agosto, os Xbox Series ficaram entre US$ 100 e US$ 150 mais caros nos Estados Unidos, dependendo da capacidade.
O Overdrive reuniu todos os valores e explicou por que o Xbox ficou mais caro em 2026.
A Sony também acompanha o problema. O custo da memória passou a influenciar tanto o PS5 quanto o planejamento da próxima geração. A companhia já indicou que garantir componentes em quantidade e preço adequados é uma variável importante para sua estratégia de hardware.
O tema pesa inclusive sobre o futuro: o Overdrive mostrou como a crise de memória entrou na discussão sobre quando lançar o PS6.
Por que fabricantes não produzem simplesmente mais memória?
Porque fábricas de semicondutores não aparecem rapidamente.
Aumentar capacidade exige investimentos bilionários, equipamentos especializados, construção ou adaptação de instalações e meses ou anos até atingir produção em volume e rendimento adequados.
Além disso, existe outro problema: as fabricantes precisam decidir qual memória produzir.
A Samsung, por exemplo, começou em fevereiro a produção comercial de HBM4 para infraestrutura de inteligência artificial e afirmou esperar que suas vendas de HBM mais que tripliquem em 2026 em comparação com 2025.
A companhia também está desenvolvendo arquiteturas como HBM4E, HBM5 e novas soluções 3D destinadas especificamente a cargas de IA.
Isso mostra onde está uma das áreas de crescimento e maior valor da indústria.
O RAMageddon vai acabar em 2026?
Os dados disponíveis não apontam para uma normalização rápida.
A TrendForce espera que a pressão entre oferta e demanda continue em 2027. Fabricantes menores entrevistados pela Reuters trabalham inclusive com cenários de escassez mais prolongados.
A Microsoft, por sua vez, já planeja seus custos considerando novo aumento de memória e armazenamento até o segundo semestre de 2027.
Isso não significa que todo kit de RAM, SSD ou celular ficará continuamente mais caro mês após mês. Mercados de semicondutores são cíclicos e preços podem cair temporariamente conforme estoques, demanda e contratos mudam.
O problema estrutural é que a inteligência artificial criou um novo consumidor gigantesco de componentes de memória, capaz de competir diretamente por investimentos e capacidade industrial.
Os preços podem voltar ao que eram antes?
Mesmo uma eventual queda no custo dos chips não garante retorno imediato dos eletrônicos aos valores antigos.
Francisco Jeronimo, da IDC, disse ao Guardian que reajustes tendem a ser difíceis de reverter. Depois que consumidores absorvem uma nova faixa de preço e fabricantes recuperam margens, as empresas podem preferir adicionar armazenamento ou outros recursos em vez de voltar à etiqueta anterior.
Isso ajuda a explicar por que o impacto do RAMageddon pode sobreviver à própria fase mais aguda da escassez.
O que isso significa para quem pretende comprar um eletrônico?
Não existe uma recomendação universal para comprar imediatamente ou esperar.
Para celulares, notebooks e PCs, o melhor indicador é acompanhar o preço do modelo específico. Estoques antigos podem continuar disponíveis por valores interessantes mesmo quando os novos lotes chegam mais caros.
Em computadores, também é importante observar a quantidade de RAM e armazenamento. Um notebook que aparentemente manteve o preço pode ter recebido uma configuração inferior.
Nos consoles, aumentos oficiais tornam a comparação ainda mais importante porque aparelhos com quase seis anos de mercado chegaram a ficar mais caros em vez de seguir o ciclo histórico de redução.
A crise de memória também reforça uma mudança mais ampla na eletrônica de consumo em 2026: potência maior já não significa necessariamente preço menor com o passar do tempo. A corrida da IA está disputando justamente alguns dos componentes necessários para fabricar os aparelhos que usamos todos os dias.
Fontes
- The Guardian — “RAMageddon”: crise tecnológica aumenta preço de eletrônicos
- TrendForce — DRAM Market Bulletin, setembro de 2026
- TrendForce — Smartphone Market Bulletin, setembro de 2026
- Samsung — resultados do segundo trimestre de 2026
- Samsung — produção comercial de HBM4
- Xbox Wire — atualização de preços dos consoles em 2026
- Reuters — fabricantes se preparam para anos de escassez de memória

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