A corrida pela IA está deixando os celulares mais caros em 2026

Data centers estão absorvendo a memória mais lucrativa da indústria, enquanto fabricantes de smartphones cortam configurações, reduzem modelos baratos e repassam parte da conta

A corrida pela IA está deixando os celulares mais caros em 2026
Data centers estão absorvendo a memória mais lucrativa da indústria, enquanto fabricantes de smartphones cortam configurações, reduzem modelos baratos e repassam parte da conta.
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Se trocar de celular pareceu mais caro em 2026, não é só impressão. Os preços de varejo dos smartphones que já estavam no mercado subiram 15% em média no mundo, enquanto novos lançamentos ficaram 25% mais caros que seus equivalentes de um ano atrás. Na América Latina, a alta chegou a 16%.

A explicação passa por um lugar que parece distante da vitrine de uma loja: os enormes data centers construídos para inteligência artificial. A corrida por IA aumentou a demanda pelas memórias mais lucrativas da indústria, apertou a oferta destinada a eletrônicos de consumo e transformou componentes antes relativamente previsíveis em um dos maiores custos de um smartphone.

A ironia é difícil de ignorar: a IA nem precisa estar no seu celular para fazê-lo custar mais.

Indicador em 2026Variação
Preço médio de smartphones já existentes+15% no mundo
Preço de novos lançamentos+25% na comparação anual
Preço de smartphones na América Latina+16%
Preço contratual da LPDDR5X no 2º trimestre+78% a +83% sobre o trimestre anterior
Remessas de smartphones no Brasil no 1º semestre-11%
Previsão de remessas globais em 2026-14,3%

Os números de preços vêm do levantamento global da Counterpoint Research. Já a TrendForce calcula que a LPDDR4X ficou entre 70% e 75% mais cara apenas entre o primeiro e o segundo trimestre, enquanto a LPDDR5X avançou de 78% a 83%.

A IA não precisa estar no celular para aumentar seu preço

O elo entre ChatGPT, Gemini e um celular de R$ 1.500 não está necessariamente em algum recurso de IA instalado no aparelho. Ele está na cadeia de produção das memórias.

Servidores de inteligência artificial precisam de enormes quantidades de memória de alta largura de banda, a chamada HBM, além de DRAM para servidores e armazenamento. Smartphones usam outros tipos, como LPDDR e NAND, mas esses produtos dependem dos mesmos grandes fabricantes e competem pelas decisões de capacidade, investimento e prioridade dentro da indústria.

A Counterpoint relata que fabricantes de memória passaram a priorizar produtos destinados a data centers e IA porque oferecem margens maiores. O resultado foi uma oferta menor de LPDDR5 para celulares e uma retirada mais rápida da antiga LPDDR4.

A própria Samsung oferece uma fotografia curiosa desse mercado. Em seus resultados do segundo trimestre de 2026, a empresa informou que sua divisão de memória teve receita e lucro operacional recordes ao atender a demanda de IA com capacidade limitada e foco principalmente em servidores. Para o segundo semestre, espera que o crescimento de DRAM para servidores, SSDs corporativos e HBM mantenha o mercado com oferta apertada.

É um ótimo negócio para quem vende a memória mais cobiçada pelos data centers. Para quem precisa colocá-la dentro de milhões de celulares baratos, a história é outra.

Em julho, a Counterpoint calculou que o preço das memórias para smartphones havia aumentado mais de 80% apenas no segundo trimestre. A DRAM ultrapassou o processador e se tornou o componente individual mais caro de um smartphone premium na estimativa da consultoria.

Nos modelos de entrada, o custo total dos componentes aumentou 70% em relação a 2025, quase inteiramente por causa da memória. Nos intermediários, a alta chegou a 52%, com a memória respondendo por 40% do custo dos componentes.

O celular barato está pagando a conta primeiro

Um iPhone de mais de R$ 10 mil ou um Galaxy Ultra ainda deixa espaço para a fabricante absorver parte de um componente mais caro. Em um aparelho vendido com margens pequenas, algumas dezenas de dólares podem desmontar toda a conta.

Por isso, a crise não aparece apenas como um número maior na etiqueta. Fabricantes estão reduzindo variantes, diminuindo armazenamento, usando câmeras mais simples e recorrendo a processadores antigos para preservar margens. A Counterpoint também identificou casos de troca de telas OLED por LCD, redução de 120 Hz para 90 Hz ou 60 Hz e até retorno de configurações 4G em determinadas faixas.

O consumidor pode acabar pagando mais e, em alguns casos, recebendo menos.

Esse efeito já ultrapassou os smartphones. O Overdrive mostrou como a mesma disputa por memória passou a pressionar o preço dos consoles, algo bastante incomum para uma geração de hardware que já está madura.

Existe ainda uma contradição especialmente interessante. A corrida pela inteligência artificial pode atrasar a chegada da própria IA aos celulares baratos.

Recursos de IA generativa executados diretamente no aparelho exigem NPUs mais capazes, maior quantidade de RAM e mais largura de banda. Só que são justamente esses componentes que as marcas estão tentando limitar para conter custos. A Counterpoint estima que a popularização de IA generativa local nos aparelhos intermediários pode ser atrasada em dois ou três anos por causa dessa combinação.

Em outras palavras, a indústria corre para colocar IA em tudo, enquanto o custo dessa corrida dificulta levá-la justamente para a parte do mercado que vende em maior volume.

No Brasil, a mudança começa na faixa que mais vende

O Brasil sente esse problema de um jeito particularmente delicado. 78% dos smartphones vendidos no país no primeiro semestre de 2026 custavam menos de US$ 249 na classificação da Counterpoint. A faixa entre US$ 100 e US$ 249 sozinha respondeu por 61% do mercado.

Ao mesmo tempo, o segmento abaixo de US$ 99 despencou 50% em volume. A análise mais recente do mercado brasileiro cita os primeiros efeitos dos aumentos relacionados à memória e prevê uma pressão maior durante o segundo semestre. No total, as remessas de smartphones no país caíram 11% na primeira metade do ano.

Não significa que todo aparelho ficou 11%, 15% ou 20% mais caro. Câmbio, fabricação local, impostos, promoções e a estratégia de cada marca alteram bastante o que chega à etiqueta brasileira. O movimento mais relevante acontece antes dela: modelos muito baratos deixam de ser economicamente interessantes e o piso do mercado começa a subir.

Samsung Galaxy S26 Ultra em material oficial da fabricante
Grandes fabricantes têm mais capacidade para absorver parte da alta dos componentes — Foto: Divulgação/Samsung

A Samsung mostra por que não dá para transformar a crise em uma regra do tipo “todo celular de 2026 ficou mais caro”. O Galaxy S26 de 256 GB chegou ao Brasil por R$ 7.499, exatamente o mesmo preço cobrado pelo Galaxy S25 de 256 GB no lançamento. O S26 Ultra de 256 GB saiu por R$ 11.499, enquanto o S25 Ultra equivalente havia estreado por R$ 11.999.

Apple e Samsung estão entre as empresas mais protegidas da crise justamente por escala, poder de negociação e presença maior no segmento premium. Fabricantes muito dependentes de aparelhos baratos não têm a mesma gordura para trabalhar.

A Apple oferece outro recorte. O novo iPhone 18 Pro começa em R$ 11.999 no Brasil, R$ 500 acima dos R$ 11.499 cobrados pelo iPhone 17 Pro em seu lançamento. A diferença não pode ser atribuída somente à memória: o aparelho também ganhou chip A20 Pro de 2 nm, câmera com abertura variável, bateria maior e outras mudanças de hardware.

Essa é uma diferença importante para quem está pensando em trocar de aparelho. No nosso comparativo entre iPhone 18 Pro e iPhone 17 Pro, várias características continuam próximas o bastante para fazer o preço pesar mais na decisão que a troca de geração por si só.

Nem todo aumento é culpa da IA

Dizer que “a IA deixou os celulares mais caros” funciona como resumo, mas seria simplificar demais o que está acontecendo. Memória é hoje um dos principais problemas da indústria, e a demanda dos data centers tem participação direta nisso. Ela não é a única variável.

Processadores de 2 nm também são caros. Câmbio, tarifas, custos de fabricação, câmeras, telas, logística e decisões comerciais interferem no preço final. Há ainda uma estratégia de premiumização antiga no setor: vender menos aparelhos, mas tentar levar cada vez mais consumidores para modelos de maior valor.

O que mudou em 2026 é o tamanho da pressão vinda da memória. Ela ficou grande o suficiente para alterar não apenas preços, mas as próprias especificações que fabricantes escolhem e quais aparelhos ainda compensa produzir.

A previsão mais recente da Counterpoint é de uma queda de 14,3% nas remessas mundiais de smartphones em 2026. A consultoria ainda projeta recuo de 1,4% em 2027 e uma recuperação mais forte somente em 2028, quando a disponibilidade de componentes deve melhorar.

Até lá, olhar apenas para o preço sugerido de lançamento pode enganar. Geração anterior em promoção, aparelhos recondicionados e modelos que preservam uma boa quantidade de RAM e armazenamento tendem a ficar mais interessantes conforme as marcas mexem nas configurações para segurar custos. O nosso guia dos melhores celulares de 2026 já mostra como pagar mais nem sempre significa levar o aparelho mais adequado para cada tipo de uso.

A história mais importante dos celulares em 2026 talvez nem seja qual modelo tem a melhor IA. Antes de chegar ao bolso como recurso, a inteligência artificial já chegou à planilha de custos da indústria.

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