A terapia de Uma Nova Mulher existe de verdade? Entenda a constelação familiar mostrada pela Netflix

Técnica apresentada por Zaman existe fora da série da Netflix e chegou até ao SUS no Brasil, mas pesquisas científicas ainda não encontraram evidências confiáveis de que ela trate doenças ou traumas

Especial A terapia de Uma Nova Mulher existe de verdade? Entenda a constelação familiar mostrada pela Netflix
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Quem assiste a Uma Nova Mulher pode sair da série com uma dúvida bastante específica: a terapia feita por Zaman existe de verdade? As sessões em que participantes representam familiares, conflitos do passado são reconstruídos e acontecimentos de gerações anteriores parecem se conectar aos problemas atuais das protagonistas não foram completamente inventadas para a produção da Netflix.

A prática existe e é conhecida como constelação familiar ou constelação familiar sistêmica. No entanto, existe uma diferença importante entre dizer que a técnica é praticada no mundo real e afirmar que os resultados mostrados na série possuem comprovação científica. As evidências disponíveis até 2026 não permitem concluir que a constelação familiar seja um tratamento eficaz para doenças ou condições de saúde mental.

O assunto voltou a despertar curiosidade com a terceira e última temporada da série, lançada em 24 de junho de 2026. A própria Netflix apresentou a temporada final de Another Self, título internacional de Uma Nova Mulher, como mais um capítulo das conexões entre passado, presente e histórias familiares de Ada, Sevgi e Leyla.

Para quem terminou os episódios, o Game Overdrive também preparou um final explicado de Uma Nova Mulher, com o destino de Sevgi, Ada, Leyla e dos demais personagens.

Qual é a terapia mostrada em Uma Nova Mulher?

A prática representada nas sessões comandadas por Zaman é inspirada na constelação familiar. Uma das formas mais conhecidas da técnica acontece em grupo: a pessoa apresenta uma questão relacionada à sua vida ou família e outros participantes podem ser escolhidos para representar familiares ou elementos daquele sistema.

Essas pessoas são posicionadas no espaço e, durante a dinâmica, podem relatar percepções, emoções ou sensações. O facilitador interpreta a organização formada pelo grupo e procura estabelecer relações com conflitos familiares apresentados pelo participante.

Uma Nova Mulher

É fácil reconhecer esse formato em Uma Nova Mulher. Ao longo da série, Ada, Sevgi e Leyla entram em contato com histórias de pais, avós e outros parentes enquanto Zaman conduz sessões que procuram relacionar esses acontecimentos às dificuldades enfrentadas por elas no presente.

A produção leva essa ideia além e utiliza as constelações como um recurso narrativo para revelar histórias familiares que as protagonistas desconheciam. É justamente nesse ponto que ficção e evidência científica precisam ser separadas.

A constelação familiar funciona de verdade?

Até hoje, não existe evidência científica robusta de que a constelação familiar funcione como tratamento para condições clínicas.

Uma revisão sistemática publicada em 2021 e indexada no PubMed tentou reunir o que já havia sido pesquisado sobre a técnica. O trabalho analisou 12 estudos que cumpriram os critérios estabelecidos pelos pesquisadores, envolvendo ao todo 568 participantes.

Alguns estudos apontaram resultados positivos em aspectos como saúde mental, autoimagem e percepção das relações familiares. O problema estava na qualidade da evidência. Os próprios autores alertaram que a quantidade e a qualidade geral das pesquisas eram baixas, o que limitava a força das conclusões.

Ou seja: os resultados encontrados não eram suficientes para transformar a constelação familiar em uma terapia clinicamente comprovada.

O que a pesquisa mais recente descobriu?

Uma nova análise publicada em abril de 2026 tornou o cenário ainda mais cauteloso.

Pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise sobre constelação familiar, concentrando-se em ensaios clínicos randomizados disponíveis na literatura.

A conclusão foi direta: os pesquisadores não encontraram evidências confiáveis que sustentassem o uso da constelação familiar para nenhuma das condições avaliadas. Todos os ensaios incluídos foram considerados de alto risco de viés, enquanto a certeza das evidências foi classificada como muito baixa.

Uma Nova Mulher

O trabalho também encontrou limitações na avaliação de possíveis efeitos adversos e concluiu que os dados disponíveis não eram suficientes para sustentar uma recomendação clínica da prática.

Existe uma ressalva importante: o estudo de 2026 foi publicado no medRxiv como preprint. Isso significa que o trabalho foi disponibilizado publicamente antes de passar pelo processo tradicional completo de revisão por pares de uma revista científica.

Ainda assim, seus resultados reforçam uma limitação que já aparecia na revisão de 2021: faltam estudos de alta qualidade capazes de demonstrar de maneira convincente que a técnica produz os benefícios clínicos atribuídos a ela.

Os traumas dos antepassados mostrados na série são reais?

Essa é provavelmente a parte de Uma Nova Mulher que mais pode gerar confusão.

Experiências vividas por uma família podem influenciar gerações seguintes de várias maneiras. Violência, condições econômicas, ambiente doméstico, educação, relações entre pais e filhos e comportamentos aprendidos podem produzir consequências que continuam presentes durante muitos anos.

Isso, porém, é diferente da ideia de que um problema atual possa ser atribuído com segurança a um acontecimento específico vivido por um antepassado desconhecido e identificado durante uma sessão de constelação.

Não há evidência científica robusta que permita utilizar a constelação familiar para descobrir objetivamente acontecimentos do passado, diagnosticar a origem de uma doença ou estabelecer que determinada condição atual surgiu por causa de um evento ocorrido com um ancestral.

Em Uma Nova Mulher, essa conexão funciona principalmente como linguagem narrativa. A série transforma histórias familiares em uma maneira de discutir culpa, abandono, relacionamentos, luto e a dificuldade de romper padrões repetidos dentro de uma família.

A constelação familiar é reconhecida pela Psicologia?

Uma Nova Mulher

No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) possui um posicionamento crítico sobre o assunto.

Em 2023, a entidade publicou a Nota Técnica CFP nº 1/2023 sobre constelação familiar, elaborada para orientar profissionais da Psicologia.

O documento aponta incompatibilidades éticas e profissionais entre pressupostos da constelação familiar e o exercício da Psicologia. Entre as preocupações levantadas está a possibilidade de uma sessão provocar estados de sofrimento ou desorganização psíquica sem que o próprio método forneça recursos técnicos suficientes para lidar com essas situações.

O CFP também chama atenção para pressupostos utilizados em determinadas interpretações da constelação envolvendo hierarquias familiares, relações entre homens e mulheres e situações de violência.

Por isso, também é importante não confundir constelação familiar com terapia familiar. Apesar dos nomes semelhantes, são abordagens diferentes, com fundamentos e métodos distintos.

A constelação familiar existe no SUS?

Sim, mas esse ponto precisa ser explicado com cuidado.

A constelação familiar foi incluída em 2018 na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), ao lado de outras práticas integrativas.

O Ministério da Saúde mantém uma página dedicada à constelação familiar dentro da área de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde.

Isso, porém, não significa que a presença de uma prática na política pública seja uma certificação de eficácia científica para tratar doenças. São questões diferentes.

Uma técnica pode estar incluída entre práticas integrativas e, ao mesmo tempo, continuar sendo objeto de questionamentos científicos e profissionais sobre seus benefícios, riscos e fundamentos.

Uma Nova Mulher mostra a constelação familiar como ela acontece?

Parte do formato mostrado pela série possui elementos encontrados em práticas reais de constelação familiar. Participantes podem representar pessoas de uma família, são posicionados dentro de um espaço e a dinâmica é conduzida por um facilitador.

O principal afastamento da realidade científica acontece quando a série transforma essas sessões em algo capaz de revelar acontecimentos desconhecidos do passado familiar e estabelecer conexões muito específicas entre esses eventos e a vida atual das personagens.

Esse recurso funciona perfeitamente dentro da proposta dramática de Uma Nova Mulher, mas não deve ser interpretado como demonstração de que uma sessão real seria capaz de reproduzir os mesmos resultados.

A série usa a prática para construir alguns de seus principais mistérios familiares, especialmente na trajetória de Ada. Na temporada final, a protagonista continua investigando as próprias origens enquanto tenta romper padrões que marcaram seus relacionamentos. O Game Overdrive explicou também com quem Ada fica no final de Uma Nova Mulher e como essa transformação influencia sua última relação amorosa.

Zaman é realmente um terapeuta?

Zaman ocupa na história a posição de facilitador e mentor das protagonistas, mas a maneira como a série constrói o personagem não deve ser usada como referência para compreender o funcionamento de um acompanhamento psicológico convencional.

As sessões de constelação familiar possuem dinâmica, pressupostos e objetivos diferentes dos métodos usados em tratamentos psicológicos baseados em evidências.

Da mesma forma, uma constelação não deve ser utilizada para substituir atendimento médico ou psicológico quando existe uma condição de saúde que precisa de avaliação profissional.

A terapia de Uma Nova Mulher é real ou ficção?

A prática mostrada em Uma Nova Mulher existe de verdade, mas os resultados apresentados pela série não possuem a mesma comprovação.

A constelação familiar é realizada fora da televisão, foi incorporada à política brasileira de práticas integrativas e já foi estudada por pesquisadores. Isso explica por que as sessões de Zaman possuem uma estrutura tão específica e parecem diferentes de uma terapia criada apenas para a ficção.

Por outro lado, as evidências científicas disponíveis até 2026 continuam frágeis. A revisão de 2021 já apontava baixa qualidade geral dos estudos existentes, enquanto a análise publicada em 2026 não encontrou evidências confiáveis para sustentar seu uso em condições clínicas.

Portanto, a maneira mais correta de interpretar Uma Nova Mulher é separar os dois lados: a constelação familiar é uma prática real; a capacidade de revelar objetivamente traumas ancestrais, explicar doenças ou produzir os resultados quase intuitivos vistos nas sessões de Zaman não está cientificamente demonstrada.

Na série, a técnica funciona principalmente como uma ferramenta narrativa para discutir família, memória, perda e padrões que atravessam gerações. E esse tema acompanha as protagonistas até o encerramento definitivo da história: a Netflix apresentou a terceira temporada como a última, e o Game Overdrive explicou por que Uma Nova Mulher não deve ter 4ª temporada.

Quem procura outras produções do país também pode conferir a seleção do Game Overdrive com séries e novelas turcas para assistir na Netflix.


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