Um jogo de quebra-cabeças ambientado nos esgotos de Salvador, feito por um estúdio de Salvador, não é o tipo de coisa que aparece todo ano. Confesso que foi essa curiosidade, mais do que qualquer expectativa com o gênero, que me fez aceitar Plungeez, primeiro jogo da Team Zeroth publicado pela QUByte Interactive.
Passei os últimos dias com a versão de PS5, antes do lançamento marcado para 13 de agosto, e saí da experiência com uma sensação dividida: gostei do que o jogo tenta fazer e me diverti em boa parte do caminho, mas também passei um tempo considerável perdido, irritado ou apertando botão no escuro.
É um jogo pequeno, de proposta modesta, e nada aqui envergonha o estúdio. Só não espere o novo queridinho indie do ano. Plungeez é uma estreia simpática com ideias boas e execução irregular, e é sobre esse meio-termo que vale conversar.
Uma encanadora presa no subterrâneo de Salvador
A abertura é o momento em que o jogo mais me conquistou. Salvador, cinco e meia da manhã de uma terça-feira, e uma pequena equipe da companhia de águas é chamada para averiguar um problema no Centro Histórico. Ao volante está Bôni, encanadora de cabelo azul e pouca paciência, com o veterano Cláudio no banco do carona tentando convencê-la a esperar ele abrir o porta-malas antes de sair pegando as ferramentas.

O atendimento dá errado, Bôni despenca por um bueiro e vai parar num labirinto esquecido sob o Centro Histórico. Dali em diante o objetivo é voltar à superfície explorando túneis, consertando canos e atravessando áreas alagadas, sem nenhum combate no caminho.
Cláudio fica lá em cima acompanhando tudo pelo rádio, que aparece no canto da tela como item, e as conversas entre os dois rendem os melhores momentos do texto, escrito num português brasileiro coloquial que soa natural porque nasceu assim, sem passar por localização.

Quebra-cabeças no lugar de combate
Sem inimigo nem barra de vida, tudo em Plungeez depende dos enigmas ambientais, e aqui o saldo é positivo com ressalvas. O arsenal de Bôni é o de uma profissional do ofício: desentupidores que viram ferramenta de travessia, tochas para acender lamparinas, válvulas e caldeiras que mudam o nível da água, mergulhos por galerias alagadas. Quando o jogo pede para combinar essas mecânicas, alagar uma sala para alcançar uma plataforma, acender fontes de luz numa ordem específica, ele mostra o que veio fazer, e a sensação de destravar uma área sozinho é genuína.

Uma câmera fotográfica no inventário ajuda a registrar pistas para consultar depois, ideia simples e bem-vinda num jogo que não explica quase nada. O ponto é que nem todo enigma sustenta esse padrão. Uma parcela incômoda deles se resolve menos por raciocínio e mais por tentativa e erro, testando interações até alguma funcionar, e outros dependem de enxergar detalhes miúdos em cenários muito escuros. Nesses momentos, a proposta de “sua curiosidade é seu único guia” vira eufemismo para falta de clareza, e a paciência que o jogo pede começa a pesar.
A estrutura metroidvania cobra mais paciência do que deveria
O mapa é interconectado no estilo clássico do gênero, com atalhos, passagens secretas e áreas que só se abrem quando você aprende uma interação nova. No papel, é o tipo de estrutura que eu gosto. Na prática, a ausência total de marcadores, anotações ou qualquer indicação de caminho fez com que eu passasse trechos longos vagando pelos mesmos corredores sem saber qual porta a minha ferramenta mais recente abriria.
Voltar a uma sala antiga com outros olhos é satisfatório quando acontece; o percurso até essa satisfação nem sempre é.

Sei que parte do público procura exatamente isso, a experiência de se perder e montar o mapa na cabeça. Respeito, mas acho que um sistema opcional de anotações resolveria a frustração sem trair a proposta.
Visual, som e o modo CRT
O pixel art cumpre bem o papel, com os canos coloridos e o limo quebrando a escuridão dos esgotos, ainda que os cenários se repitam mais do que eu gostaria ao longo da aventura. As ilustrações das cenas de história, como disse, estão num patamar acima. A trilha sonora acompanha discretamente, com composições que puxam da musicalidade baiana sem chamar muita atenção para si, o que combina com o clima mas também significa que pouca coisa gruda na memória.

Um detalhe que merece registro é o modo CRT, filtro opcional que curva a imagem e simula as linhas de uma televisão de tubo. No PS5, o desempenho, como era de se esperar, não deu problema em momento algum, com carregamentos rápidos e suporte a troféus.
Vale a pena jogar Plungeez?
Para quem gosta de quebra-cabeças e tem paciência para exploração sem guia nenhum, Plungeez entrega uma aventura curta e honesta pelo preço de indie, com o bônus raro de ver Salvador e o português brasileiro no centro de um jogo. Foi o suficiente para eu chegar ao fim sem arrependimento.
Quem se frustra com backtracking às cegas ou espera um metroidvania tradicional, com combate e progressão de habilidades mais generosa, deve pensar duas vezes ou esperar uma promoção. E quem acompanha o cenário nacional tem aqui um projeto que vale conhecer pelo que representa, mesmo com as arestas.
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