Teenage Wasteland é baseado em uma história real. Em 1991, o professor Fred Isseks colocou câmeras nas mãos de alunos da Middletown High School, no estado de Nova York, e uma atividade escolar acabou virando uma investigação de seis anos sobre descarte ilegal de resíduos perigosos, falhas de fiscalização e empresas ligadas ao transporte de lixo. O trabalho culminou no documentário estudantil Garbage, Gangsters and Greed, concluído em 1997.
Mais de três décadas depois, as gravações feitas pelos próprios adolescentes formam a base de Teenage Wasteland, dirigido por Jesse Moss e Amanda McBaine. O documentário está disponível na Netflix no Brasil e entrou no catálogo em 4 de setembro de 2026. O Overdrive já havia incluído o filme entre as principais opções para assistir no streaming neste fim de semana.
A história, porém, tem uma nuance que a sinopse resume em poucas palavras. Os estudantes não foram os primeiros a descobrir que existiam problemas ambientais no aterro de Wallkill: documentos do estado de Nova York mostram que resíduos industriais e materiais perigosos já haviam sido encontrados no local. A turma ajudou a transformar depoimentos, imagens, registros públicos e pistas difíceis de conseguir em uma investigação audiovisual sobre como aquele lixo chegou aos aterros e por que tantas denúncias pareciam não avançar.
Como começou a investigação de Teenage Wasteland?
A investigação nasceu dentro de uma disciplina chamada Electronic English. Fred Isseks criou a aula em 1991, depois que a Middletown High School recebeu câmeras de vídeo e equipamentos de edição, dando aos estudantes liberdade para aprender narrativa enquanto produziam seus próprios trabalhos.
O projeto mudou de direção quando Isseks descobriu que antigos funcionários do aterro municipal de Wallkill estavam dispostos a falar sobre o que tinham visto. Um deles, Donald “Dutch” Smith, afirmou ter enterrado resíduos tóxicos e hospitalares. Outros trabalhadores descreveram produtos químicos industriais, lodo de tinta e materiais que não deveriam ter sido despejados em um aterro destinado a lixo municipal.
A partir dali, novas turmas continuaram o trabalho. A reconstrução publicada pela A&E aponta que centenas de estudantes participaram durante os seis anos seguintes, entrevistando ex-funcionários, frequentando reuniões públicas e solicitando documentos governamentais.

O volume de material acumulado ajuda a explicar por que a história voltou décadas depois. Em entrevista ao Sloan Science & Film, Amanda McBaine contou que Isseks preservou e digitalizou cerca de 500 horas de gravações em VHS, incluindo material que nunca havia aparecido no filme original da turma.
O que os alunos descobriram sobre o lixo tóxico?
Os estudantes reuniram relatos de descarte irregular em diferentes aterros de Orange County e chegaram a filmar tambores químicos parcialmente enterrados em uma área escondida próxima a um campo de golfe administrado pelo condado. A investigação também encontrou documentos sobre cargas proibidas e passou a acompanhar as empresas responsáveis pelo transporte do lixo.
Parte das preocupações ambientais aparece confirmada em documentação oficial anterior ao término do projeto. Um relatório de decisão do Departamento de Conservação Ambiental de Nova York, publicado em junho de 1992, registra que uma inspeção de 1976 encontrou cerca de 100 tambores cheios ou parcialmente cheios de resíduos industriais no aterro de Wallkill.
O mesmo documento informa que, em 1986, foram retirados 208 tambores, dos quais dez continham materiais classificados como perigosos, além de aproximadamente 1.000 jardas cúbicas de solo contaminado. O estado concluiu que liberações existentes ou potenciais de substâncias perigosas poderiam representar risco à saúde pública e ao meio ambiente caso não fossem tratadas.
Os testes também encontraram contaminantes acima de padrões estaduais na água subterrânea dentro ou imediatamente ao redor do aterro e em águas superficiais. Ao mesmo tempo, as amostras coletadas em poços residenciais próximos não indicaram contaminação atribuível ao aterro naquele levantamento, e o Departamento de Saúde considerou seguras para consumo as fontes testadas. Essa diferença é relevante para não transformar a investigação dos alunos em uma afirmação de que toda a água da região estava contaminada.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1976 | Uma inspeção estadual registra cerca de 100 tambores com resíduos industriais no aterro de Wallkill. |
| 1986 | 208 tambores são retirados do local; dez continham materiais classificados como perigosos. |
| 1991 | Fred Isseks cria a Electronic English e os alunos começam a investigar os aterros com câmeras. |
| 1992 | Nova York aprova um plano de remediação para o aterro de Wallkill. |
| 1996 | A turma finalmente consegue acesso a um livro de registros mantido por agentes do xerife no aterro. |
| 1997 | Os estudantes concluem Garbage, Gangsters and Greed. |
| 2025 | O novo documentário estreia no Sundance com o título Middletown. |
| 2026 | Rebatizado como Teenage Wasteland, o filme chega à Netflix em 4 de setembro. |
O que havia no livro de registros que os alunos procuraram por anos?
Uma das partes mais importantes da investigação envolveu um livro mantido por agentes do xerife que trabalhavam no aterro de Wallkill. Durante anos, os alunos tentaram conseguir o documento e ouviram que ele não existia ou que não podia ser localizado.
Em 1996, um tenente finalmente apresentou o registro a Isseks e dois estudantes. As anotações indicavam a chegada de cargas proibidas e multas aplicadas a transportadores. De acordo com a apuração da turma, várias dessas citações aparentemente nunca chegaram aos tribunais locais.
Esse tipo de descoberta mudou a natureza do projeto. O que havia começado com entrevistas sobre materiais enterrados passou a incluir perguntas sobre fiscalização, decisões tomadas por autoridades públicas e o destino de registros oficiais.

Teenage Wasteland realmente envolve crime organizado?
Sim, mas a ligação precisa ser descrita com cuidado. Durante a investigação, os estudantes analisaram empresas que transportavam resíduos para os aterros e encontraram conexões de algumas delas com figuras do crime organizado. Isso não significa que todo o esquema mostrado no documentário tenha sido judicialmente definido como uma operação da máfia.
O próprio título escolhido para o filme produzido pelos alunos, Garbage, Gangsters and Greed, mostra quanto essa parte ganhou peso na apuração. Eles combinaram documentos e entrevistas sobre descarte irregular com informações sobre empresas que operavam em um setor de coleta de lixo de Nova York que, naquele período, tinha histórico conhecido de influência do crime organizado.
A pressão também deixou de ser apenas burocrática. Ex-alunos relatam que integrantes da turma foram seguidos depois de filmagens nos aterros e que um estudante recebeu uma ameaça de morte para abandonar a investigação. Autoridades do condado também advertiram Isseks e seus alunos de que poderiam ser presos caso voltassem à área onde haviam localizado os tambores enterrados.
O caso chamou a atenção de Maurice Hinchey, então deputado estadual de Nova York e conhecido pela atuação ambiental. Hinchey investigou denúncias ligadas aos aterros e realizou audiências públicas nas quais antigos trabalhadores prestaram depoimento.
O que aconteceu com os aterros depois da investigação?
Os três aterros acompanhados pela turma acabaram deixando de receber resíduos, embora os problemas ambientais não tenham simplesmente desaparecido com o fechamento. No caso de Wallkill, a própria documentação estadual mostra que um acordo de remediação já existia em 1989 e que um plano mais amplo foi aprovado em 1992.
Esse plano incluía cobertura do aterro, controle de gases, acompanhamento de chorume e monitoramento de longo prazo da água subterrânea, das águas superficiais e de fontes de água potável próximas.
Já o aterro privado Al Turi encerrou suas atividades em 2003 e permaneceu sujeito a acompanhamento posterior ao fechamento. A história, portanto, não termina quando as câmeras dos estudantes são desligadas: parte do legado ambiental dos locais continuou sendo acompanhada durante as décadas seguintes.
Como a história virou Teenage Wasteland décadas depois?
Jesse Moss e Amanda McBaine chegaram ao caso depois de conhecerem uma reportagem publicada sobre Fred Isseks em 2020. O contato com o professor revelou algo ainda mais valioso para um documentário: centenas de horas das fitas originais haviam sobrevivido.
Em vez de simplesmente entrevistar adultos relembrando a adolescência, os diretores conseguiram reconstruir a investigação por meio das imagens gravadas enquanto ela acontecia. O Museu do Estado de Nova York descreve Teenage Wasteland como uma produção baseada em centenas de horas desse material e na participação de Isseks e seus antigos alunos.
O filme estreou no Festival de Sundance de 2025 ainda chamado Middletown e posteriormente recebeu o título Teenage Wasteland. A produtora Page 1 Entertainment confirma Jesse Moss e Amanda McBaine na direção e descreve o documentário como uma combinação das imagens do projeto original, gravações que ficaram de fora, diários e entrevistas feitas cerca de 30 anos depois.
Onde assistir Teenage Wasteland no Brasil?
Teenage Wasteland está disponível na Netflix no Brasil desde 4 de setembro de 2026. A página brasileira do serviço classifica a produção como documentário para maiores de 12 anos e também informa que ela pode ser baixada no aplicativo para assistir offline.
Quem acompanha as estreias do mês encontra o filme no calendário completo dos streamings em setembro de 2026. O Overdrive também reúne suas matérias sobre o serviço na página dedicada à Netflix.



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