Starfield carregava um peso enorme antes mesmo de chegar às lojas. Era a primeira propriedade inédita da Bethesda em mais de 30 anos, nascia cercado pelo prestígio de estúdios que ajudaram a moldar franquias como The Elder Scrolls e Fallout e ainda trazia consigo a promessa de uma grande aventura espacial, daquelas feitas para consumir centenas de horas do jogador.
Era natural que a expectativa fosse alta. O problema é que, no caminho até o lançamento, parte do debate em torno do jogo saiu completamente dos trilhos. Entre elogios, críticas legítimas e uma avalanche de opinião apressada, Starfield acabou engolido por uma guerra de narrativa que dizia mais sobre o estado atual das discussões nas redes do que sobre o RPG em si.
Na minha visão, a maior mentira que cercou o jogo não foi técnica, comercial ou de bastidor. Foi uma frase repetida tantas vezes que passou a soar verdadeira para muita gente: a de que Starfield prometeu uma coisa e entregou outra.
O peso de ser a primeira nova IP da Bethesda em décadas
Quando a Bethesda revelou Starfield, a reação imediata foi de fascínio. Havia um apelo óbvio ali. Um RPG espacial de uma das desenvolvedoras mais importantes da indústria, com toda a tradição de liberdade, exploração e construção de mundo que o estúdio carrega há décadas, parecia um projeto grande o bastante para mobilizar muita gente.
Isso elevou o hype a um patamar quase inevitável. O público queria ver a Bethesda aplicando sua experiência em um novo universo, com ambição de sobra, sistemas robustos e aquela sensação de jornada longa que sempre ajudou a definir seus melhores trabalhos. Até aí, tudo normal.
O problema começou quando parte dessa expectativa deixou de ser construída em cima do que o jogo realmente mostrava e passou a existir em cima do que cada um gostaria que ele fosse. Nesse momento, o debate sobre Starfield começou a se contaminar com projeções que não vinham da Bethesda, mas do imaginário de quem acompanhava o lançamento.
Quando a conversa deixou de ser sobre o jogo
O lançamento de Starfield foi acompanhado por uma histeria muito pouco saudável. Em vez de o debate girar só em torno de estrutura, sistemas, narrativa, exploração ou desempenho, ele rapidamente virou munição para uma guerra tribal que, hoje, já parece rotina na indústria.
Não bastava gostar do seu videogame. Muita gente parecia precisar odiar o videogame do outro. E, quando um projeto grande como Starfield chegou cercado por expectativa e exclusividade, ele virou alvo perfeito para esse tipo de comportamento.

O resultado foi um ambiente em que bastava alguém dizer que estava gostando do jogo para ser chamado de vendido, fanboy, caixista ou qualquer variação do mesmo pacote infantil que domina tantas conversas online. Em vez de discutir o que o RPG fazia bem ou mal, uma parte barulhenta preferiu simplesmente patrulhar quem estava jogando.
Esse tipo de postura não transforma um jogo em melhor ou pior. Só empobrece a conversa.
A mentira de que Starfield vendeu outro jogo
Entre todas as críticas disparadas contra Starfield, uma se consolidou como a mais repetida: a de que o jogo não entregou o que prometeu. E é aqui que, para mim, mora a grande distorção de toda essa história.
O que exatamente Starfield prometeu que não entregou?
Essa pergunta quase nunca vinha acompanhada de uma resposta sólida. O que aparecia, na maior parte das vezes, era outra coisa: pessoas decepcionadas porque o jogo não era o título que elas imaginaram na cabeça. E isso é muito diferente.
Teve gente esperando um novo No Man’s Sky. Teve gente esperando uma experiência espacial praticamente sem fricção, com foco total em exploração contínua e uma lógica muito mais próxima de simulação. Teve gente esperando algo que nem parecia um RPG da Bethesda. Só que nada disso partiu da comunicação oficial do projeto. Partiu do hype, da especulação e da vontade de enxergar no jogo algo que ele nunca se vendeu como sendo.
O Direct deixou claro o DNA de Starfield
Se em algum momento existiu dúvida real sobre o que Starfield seria, o material oficial tratou de dissipá-la muito antes do lançamento. O jogo foi apresentado em detalhes, ganhou um Direct próprio, mostrou seus sistemas, sua estrutura, o funcionamento da exploração, a lógica dos planetas, os combates, a progressão e o tipo de experiência que a Bethesda estava montando.
Depois daquilo, Starfield já estava muito claramente posicionado como um RPG de ação e exploração com o DNA da Bethesda, agora transportado para um universo espacial. Havia evolução, ambição e escala, mas também estavam ali os elementos que sempre fizeram parte da identidade do estúdio.

Ou seja, o jogo nunca tentou se esconder. Nunca vendeu um produto completamente diferente daquele que foi parar nas mãos do público. Você pode olhar para o resultado final e achar que a Bethesda ficou aquém do ideal. Pode achar que faltou mais impacto em certos sistemas. Pode achar que a exploração não tem o charme que você esperava. Tudo isso é crítica válida. O que não se sustenta é fingir que o marketing prometeu outro jogo.
Starfield pode ser criticado, mas por motivos reais
Esse talvez seja o ponto mais importante. Starfield não está acima de crítica. Muito longe disso. O jogo tem problemas, tem escolhas discutíveis e tem aspectos que claramente dividem opiniões. Esse nunca foi o ponto.
O problema é quando a conversa abandona os defeitos reais para abraçar uma narrativa mais conveniente e mais fácil de viralizar. É muito mais simples dizer que o jogo enganou o público do que discutir por que determinados sistemas podem soar ultrapassados para parte dos jogadores. É muito mais fácil dizer que o produto “mentiu” do que explicar por que a estrutura de exploração não conversa com o tipo de fantasia espacial que algumas pessoas queriam viver.
Só que uma crítica fica mais forte quando acerta o alvo. E, no caso de Starfield, o alvo mais repetido foi justamente um dos menos honestos.
O caso Starfield expõe um problema maior da indústria
No fundo, o lançamento de Starfield acabou servindo também como retrato de um momento bem ruim da indústria. Um momento em que muita gente entra em discussões já determinada a vencer uma guerra imaginária, e não a falar seriamente sobre o jogo em questão.
A rivalidade entre marcas sempre existiu, mas hoje ela parece cada vez mais cega, mais infantil e mais agressiva. O jogo vira só uma peça dentro de uma disputa de torcida, e a análise honesta vai sendo esmagada por narrativa pronta, meme repetido e ressentimento de plataforma.
Foi isso que aconteceu com Starfield em boa parte da conversa pública. Em vez de ser debatido como o RPG que é, com qualidades, limitações e escolhas muito específicas de design, ele acabou engolido por uma ficção coletiva que dizia que o jogo prometeu um produto diferente. Essa versão era mais útil para a guerra de console. Então foi a que prosperou.

No fim, a discussão ficou menor do que o jogo
Starfield pode não ser o RPG definitivo que parte do público sonhou. Pode não estar no topo da Bethesda para todo mundo. Pode dividir opiniões por muito tempo ainda. Nada disso muda o fato de que a crítica ao jogo precisa partir do que ele realmente é, e não de um produto inventado na expectativa dos outros.
A maior injustiça do debate em torno de Starfield não foi o jogo ter recebido críticas duras. Foi ele ter sido julgado tantas vezes por uma promessa que nunca fez.

