Depois de centenas de episódios e mais de duas décadas sendo reassistido por fãs ao redor do mundo, Naruto ainda guarda detalhes que passaram despercebidos até para quem conhece a Vila da Folha de cor. Hayato Date, diretor responsável por comandar boa parte da longa trajetória de Naruto e Naruto Shippuden, revelou que inseria deliberadamente referências indianas nos cenários do anime.
A declaração foi dada durante sua primeira visita oficial à Índia, para participar do Anime India Mumbai 2026. Em entrevista ao Hindustan Times, Date explicou que, embora a série seja profundamente japonesa e centrada no imaginário dos ninjas, havia uma segunda camada cultural escondida nos fundos das cenas.
“Nos cenários de fundo, eu adicionava elementos indianos aqui e ali.”
O detalhe mais curioso é justamente o que o diretor não revelou: Date não explicou quais construções, objetos, padrões ou paisagens receberam essa influência. Isso significa que identificar uma cena específica como criação dele, por enquanto, seria especulação.

Hayato Date colocou elementos indianos nos cenários de Naruto
Date esteve em Mumbai entre 28 e 30 de agosto como um dos principais convidados do Anime India. O evento oficial o apresenta como diretor de Naruto e Naruto Shippuden, séries em que seu trabalho ajudou a definir desde cenas de ação até momentos mais cotidianos de Konoha.
Foi ao falar justamente da Índia que o diretor comentou sobre um hábito pouco conhecido de sua produção. Mesmo trabalhando em uma obra baseada fortemente em referências japonesas, ele aproveitava a composição visual dos ambientes para inserir elementos de outras culturas.
A fala chama atenção porque o cenário em uma animação não está ali por acaso. Construções, ruas, interiores, vegetação, objetos decorativos e padrões arquitetônicos são definidos durante o trabalho de direção de arte e ajudam a criar a identidade de cada região.
Em Naruto, isso ganha ainda mais importância porque o mundo da série não reproduz simplesmente o Japão histórico. Konoha possui arquitetura própria, enquanto países, vilas e templos adotam estilos muito diferentes entre si.
Date, porém, não apontou qual desses lugares teria recebido inspiração indiana. Portanto, qualquer tentativa de encontrar “o prédio indiano de Naruto” ou uma cena definitiva precisará esperar até que o diretor revele exemplos concretos ou que materiais de produção tragam essa informação.
Mas há uma diferença importante entre cenário e história
A revelação também ajuda a esclarecer uma confusão fácil de cometer.
Hayato Date falou especificamente sobre elementos inseridos por ele nos cenários de fundo. Isso não significa automaticamente que conceitos como chakra, Indra, Ashura ou os Seis Caminhos tenham sido criados pelo diretor a partir da cultura indiana.
Naruto nasceu como mangá de Masashi Kishimoto antes de ser adaptado para a televisão. Muitos desses nomes e conceitos já fazem parte da própria mitologia construída para a história.
O que podemos afirmar é que existem diversas referências de origem indiana espalhadas pelo universo da franquia — e algumas são tão centrais que o espectador provavelmente já ouviu seus nomes centenas de vezes.
“Chakra” já é uma das maiores referências
O exemplo mais óbvio está presente praticamente desde o começo da série: chakra.
Em Naruto, chakra é a energia usada pelos ninjas para executar jutsus. Controle, quantidade e natureza de chakra determinam grande parte das habilidades dos personagens.
O termo, entretanto, não foi inventado para o mangá. Segundo o Merriam-Webster, a palavra deriva do sânscrito cakra, cujo significado literal é “roda”. Em tradições ligadas ao hinduísmo, budismo e práticas de ioga, chakras são associados a centros de energia.
Kishimoto transforma completamente o conceito para encaixá-lo em um sistema de batalha. Ainda assim, a raiz linguística e cultural permanece bastante evidente.

Indra e Ashura têm nomes ligados às tradições indianas
A conexão fica ainda mais explícita na reta final de Naruto Shippuden.
O site oficial de Naruto apresenta Indra e Ashura como filhos de Hagoromo Otsutsuki. A disputa entre os dois acaba atravessando gerações e se torna fundamental para entender a relação entre Naruto e Sasuke.
Na mitologia da série, Naruto é associado à linhagem e à reencarnação de Ashura, enquanto Sasuke ocupa a posição ligada a Indra. O conflito entre os dois irmãos, portanto, funciona como uma espécie de padrão que se repete ao longo da história shinobi.
Os nomes, porém, têm raízes muito mais antigas.
Indra é uma importante divindade da tradição védica, associada historicamente ao céu, às tempestades e à guerra. Já os asuras aparecem em diferentes tradições religiosas indianas. No budismo, por exemplo, são uma das classes de seres existentes dentro da cosmologia do samsara.
É importante novamente fazer a distinção: Date não afirmou que Indra e Ashura eram os “elementos escondidos” que ele adicionava aos cenários. Eles são exemplos de como a própria obra de Kishimoto já dialogava com conceitos vindos do sul da Ásia.
Se quiser relembrar onde esses personagens entram na reta final do anime, o Overdrive também tem um guia com todos os filmes e OVAs de Naruto em ordem.
Os “Seis Caminhos” também lembram conceitos do budismo
Outro elemento recorrente na franquia é a expressão Seis Caminhos.
Ela aparece no Sábio dos Seis Caminhos, Hagoromo, e também nos corpos utilizados por Pain. No site oficial, a batalha contra os Six Paths of Pain aparece como uma das partes centrais do ataque de Nagato a Konoha.
Na cosmologia budista, por sua vez, há uma estrutura tradicional de seis classes ou reinos de existência: deuses, asuras, humanos, animais, espíritos famintos e seres infernais.
A ficção de Naruto adapta e mistura terminologias livremente — ela não funciona como uma reprodução religiosa desses ensinamentos. Mesmo assim, a proximidade dos nomes ajuda a mostrar que as referências culturais da franquia vão muito além da imagem clássica do ninja japonês.
Naruto sempre foi uma mistura maior do que parecia
Talvez essa seja a parte mais interessante da declaração de Hayato Date.
Naruto parece, à primeira vista, profundamente ligado ao Japão: ninjas, clãs, pergaminhos, vilas ocultas e inúmeras referências ao folclore japonês fazem parte da identidade da obra.
Mas seu universo nunca foi uma reprodução histórica do país. Kishimoto construiu um mundo fictício capaz de absorver referências de religiões, mitologias, tecnologias, estilos arquitetônicos e culturas diferentes.
Agora sabemos que o processo continuava também durante a produção do anime. Enquanto algumas dessas inspirações estavam diretamente no roteiro e no mangá, Date também escondia referências no próprio cenário.
Isso transforma uma simples reassistida em uma brincadeira diferente: observar não apenas Naruto, Sasuke e as lutas em primeiro plano, mas também templos, paredes, janelas, ruas e objetos que aparecem por poucos segundos ao fundo.
O problema é que, sem Date apontar quais são os exemplos, ninguém pode dizer com certeza quais deles vieram da Índia.
Diretor foi à Índia pela primeira vez em 2026
A revelação aconteceu em um momento simbólico. A participação no Anime India Mumbai marcou a primeira visita oficial de Hayato Date ao país.
Na mesma entrevista, o diretor contou que queria conhecer melhor Mumbai e mencionou locais como Dhobi Ghat e a estação Chhatrapati Shivaji Maharaj Terminus. Ele também afirmou ter interesse em descobrir mais elementos da cultura indiana.
O evento reuniu Date com outros nomes da indústria japonesa e celebrou o crescimento do público de anime na região.
Mesmo anos depois do encerramento de Naruto Shippuden, a franquia continua ganhando novos projetos. Um filme live-action de Naruto já procura seus protagonistas, enquanto games e outras produções mantêm o universo ativo.
Quem prefere os jogos pode conferir também a lista de jogos de Naruto disponíveis no PS4 e PS5. Já para quem gosta de discutir a escala de poder da série, o Overdrive reuniu os 10 personagens mais poderosos de Naruto.
Então quais são os elementos indianos escondidos em Naruto?
A resposta ainda não é conhecida. Hayato Date confirmou que colocava referências indianas nos cenários do anime, mas não identificou nenhuma delas individualmente.
Chakra, Indra, Ashura e conceitos relacionados aos Seis Caminhos ajudam a demonstrar a presença de influências culturais indianas no universo de Naruto, mas não devem ser apresentados como os elementos específicos inseridos pessoalmente por Date.
Até o diretor mostrar exemplos, portanto, esse permanece como um daqueles segredos de produção que provavelmente fará fãs examinarem os episódios quadro a quadro.
Fontes: Hindustan Times, Anime India, Naruto Official Site, Merriam-Webster, Encyclopedia of Buddhism
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