Tópicos
O cineasta italiano Tinto Brass morreu nesta quarta-feira (4 de novembro), aos 93 anos, em Roma. A morte foi anunciada por sua família à agência de notícias Ansa. A causa não foi divulgada oficialmente, e a cerimônia de despedida será reservada aos familiares.
Conhecido principalmente pela direção de Calígula, Brass construiu uma carreira marcada por experimentações visuais, erotismo e confrontos com a censura. Seus filmes dividiram críticos e espectadores, mas também ajudaram a estabelecer um estilo reconhecível dentro do cinema europeu.
O diretor deixa a esposa, Caterina Varzi, e dois filhos. Sua última homenagem de destaque aconteceu em setembro, no Festival de Veneza, quando uma de suas primeiras obras voltou às telas em versão restaurada. Brass não conseguiu comparecer por problemas de saúde.

Quem foi Tinto Brass?
Nascido Giovanni Brass em Milão, em 26 de março de 1933, o cineasta cresceu em Veneza e começou a trabalhar com cinema na França. O apelido Tinto surgiu ainda na infância, inspirado no pintor veneziano Tintoretto.
Antes de ser associado ao cinema erótico, Brass passou pela Cinemateca Francesa, em Paris, durante o período de efervescência da Nouvelle Vague. Também trabalhou com Roberto Rossellini, um dos principais nomes do neorrealismo italiano.
Sua estreia na direção de longas-metragens aconteceu com Chi lavora è perduto, de 1963. Nos anos seguintes, fez experiências com narrativa fragmentada, montagem acelerada e diferentes gêneros cinematográficos.
Em 1971, La vacanza recebeu o prêmio Pasinetti de melhor filme italiano no Festival de Veneza. A carreira, portanto, já tinha reconhecimento em festivais antes da fase que lhe daria notoriedade internacional.
Por que Calígula se tornou um filme tão polêmico?
Lançado em 1979, Calígula pretendia transformar a trajetória do imperador romano em um espetáculo sobre a corrupção provocada pelo poder absoluto. O roteiro tinha a participação de Gore Vidal, enquanto o elenco reunia Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’Toole e John Gielgud.
A produção acabou se tornando conhecida tanto pelo que aparecia nas telas quanto pelo que acontecia nos bastidores.

Brass entrou em conflito com Bob Guccione, fundador da revista Penthouse e responsável pelo financiamento. O produtor assumiu o controle da montagem e acrescentou cenas de sexo explícito filmadas sem a participação do diretor. Gore Vidal também se afastou da versão final.
O resultado chegou aos cinemas envolvido em controvérsias. A combinação de violência gráfica, nudez e conteúdo sexual levou a restrições e cortes em diferentes países.
No Brasil, Calígula enfrentou a censura e só foi liberado em 1982. Uma tentativa de exibição na televisão aberta, em 1992, também enfrentou impedimentos judiciais.
Calígula ganhou uma nova versão décadas depois
A discussão sobre o filme não terminou com seu lançamento. Em 2023, o Festival de Cannes apresentou Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut), uma reconstrução realizada a partir de negativos originais e de material que não havia sido utilizado na montagem comercial.
O trabalho foi supervisionado pelo produtor Thomas Negovan, que reorganizou cenas e atuações para criar uma narrativa diferente daquela conhecida pelo público.
A nova montagem também teve sua própria controvérsia: Brass não participou da reconstrução. A ausência do diretor foi criticada pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), que questionou a realização de uma nova versão sem a colaboração do autor original.
Mais de quatro décadas depois, Calígula permanecia sendo rediscutido não apenas por seu conteúdo, mas pela disputa sobre quem tinha o direito de determinar sua forma definitiva.
Quais são os filmes mais famosos de Tinto Brass?
Embora Calígula seja seu trabalho mais conhecido internacionalmente, a filmografia de Brass inclui thrillers experimentais, dramas históricos e comédias eróticas.
- Col cuore in gola (1967): suspense de linguagem experimental estrelado por Jean-Louis Trintignant e Ewa Aulin.
- Salon Kitty (1976): drama ambientado na Alemanha nazista, envolvendo espionagem, sexo e poder.
- Calígula (1979): produção histórica que se tornou um dos filmes mais controversos de sua geração.
- A Chave (1983): drama erótico ambientado em Veneza, com Stefania Sandrelli.
- Paprika (1991): filme estrelado por Debora Caprioglio, ambientado no universo dos bordéis italianos.
- Monella, a Travessa (1998): comédia erótica protagonizada por Anna Ammirati.
O conjunto dessas obras mostra uma mudança progressiva de interesses. O experimentalismo dos anos 1960 abriu espaço para histórias cada vez mais voltadas ao desejo, à liberdade sexual e às relações de poder.
Problemas de saúde impediram última homenagem em Veneza
Em setembro de 2026, o Festival de Veneza exibiu uma cópia restaurada em 4K de Col cuore in gola, longa lançado originalmente em 1967.
Brass deveria participar da homenagem, mas precisou desistir da viagem por motivos de saúde. Sua esposa, Caterina Varzi, leu uma mensagem preparada pelo cineasta para o evento.
Na ocasião, ele reafirmou sua ligação afetiva com Veneza, cidade fundamental para sua formação e frequentemente presente em seus filmes.

Qual foi a causa da morte de Tinto Brass?
A família confirmou o falecimento em Roma, aos 93 anos, mas não informou oficialmente a causa.
O cineasta havia enfrentado problemas de saúde nos últimos meses e não conseguiu participar presencialmente da homenagem realizada em Veneza. Não há, porém, confirmação de que essas condições estejam diretamente relacionadas à morte.
Brass encerra sua trajetória como um dos diretores mais controversos do cinema italiano. Para parte do público, seu nome continuará ligado ao erotismo de Calígula. Para a história do cinema, permanece também o realizador que experimentou novas formas de montagem, contestou convenções e transformou os próprios conflitos com a indústria em parte de seu legado.
Para acompanhar outras notícias, histórias de bastidores e lançamentos, visite a editoria de filmes do Overdrive.






Comentários
Seja o primeiro a comentar