Saturno já tinha uma das formações mais estranhas conhecidas no Sistema Solar: um enorme hexágono de nuvens girando ao redor de seu polo norte. Agora, o planeta decidiu tornar o mistério ainda maior.
Observações do Telescópio Espacial Hubble revelaram uma segunda figura geométrica gigantesca na atmosfera do planeta. Desta vez, no polo sul e com dez lados.
O novo decágono é tão grande que o comprimento associado a cada um de seus segmentos chega a aproximadamente 16,8 mil quilômetros. Para colocar isso em perspectiva, o diâmetro da Terra é de cerca de 12,7 mil quilômetros.
E o tamanho nem é a parte mais intrigante. Ao contrário do hexágono do norte, observado há mais de quatro décadas, o decágono parece ter surgido recentemente — e os astrônomos podem estar acompanhando praticamente em tempo real a formação de uma estrutura atmosférica desse tipo.

Saturno agora tem um hexágono e um decágono
O polo norte de Saturno é famoso por abrigar uma enorme corrente de jato com formato hexagonal. A estrutura foi percebida inicialmente pelas sondas Voyager no começo da década de 1980 e continuou aparecendo nas observações posteriores da missão Cassini.
Durante décadas, porém, havia um problema: ninguém conseguia encontrar algo equivalente no hemisfério sul.
Pesquisadores procuravam esse possível “irmão” do hexágono desde pelo menos 1990. A própria Cassini, que orbitou Saturno entre 2004 e 2017, não encontrou evidências de uma estrutura poligonal persistente no polo sul.
Isso mudou quando as estações de Saturno voltaram a favorecer a observação da região a partir da Terra.
Imagens feitas por observadores em solo começaram a mostrar uma ondulação suspeita. Os pesquisadores então voltaram ao arquivo do Hubble e descobriram que sinais mais discretos do desenho já estavam presentes em imagens feitas em 2023.
Em 2024, o formato ficou mais perceptível. Em 2025, os dez vértices estavam muito mais definidos.
O resultado foi publicado em setembro de 2026 na revista Science Advances.
Cada lado da estrutura é maior que o diâmetro da Terra
A escala do fenômeno ajuda a perceber que não estamos falando de uma pequena tempestade desenhando linhas entre as nuvens.
A onda atmosférica tem comprimento zonal médio de aproximadamente 16.782 quilômetros entre suas repetições. Em uma comparação simplificada com o desenho observado, isso coloca cada segmento da estrutura em uma escala superior ao diâmetro inteiro da Terra.
| Característica | Hexágono do norte | Decágono do sul |
|---|---|---|
| Número de lados | 6 | 10 |
| Região | Polo norte | Polo sul |
| Primeiras evidências | Década de 1980 | 2023 |
| Comportamento | Muito estável | Aparentemente ainda evoluindo |
| Movimento longitudinal | Quase estacionário | Cerca de 2,5 m/s para leste |
Há outro contraste curioso. O decágono se desloca para leste a aproximadamente 2,5 metros por segundo, algo próximo de 9 km/h.
O jato atmosférico associado à região, entretanto, alcança cerca de 116 metros por segundo — mais de 400 km/h.
Ou seja: os ventos correm violentamente pela atmosfera enquanto o enorme desenho geométrico avança de forma comparativamente lenta.

Mas Saturno não tem uma parede em forma de decágono
A imagem pode dar a impressão de que existe uma enorme estrutura física escondida no planeta. Não é isso.
Saturno é um gigante gasoso e não possui uma superfície sólida equivalente ao chão da Terra. Conforme alguém hipoteticamente descesse por sua atmosfera, encontraria gases cada vez mais densos e pressões cada vez maiores.
O decágono é, portanto, uma onda atmosférica gigantesca associada às correntes de jato.
Observações do Hubble em diferentes comprimentos de onda também enxergam o padrão em diferentes altitudes. Isso indica que ele não é apenas um desenho superficial produzido por algumas nuvens específicas, mas uma estrutura que atravessa diversas camadas da atmosfera.
Quem gosta desse tipo de comparação entre aquilo que vemos e a forma física real de um planeta pode conferir também a explicação do Overdrive sobre por que a Terra não é uma esfera perfeita e como funciona o geoide usado pela NASA.
Como uma atmosfera consegue desenhar dez lados quase retos?
Uma das principais hipóteses é que correntes de jato extremamente rápidas funcionem como limites capazes de aprisionar grandes ondas atmosféricas. Dependendo da velocidade dos ventos, da rotação do planeta e da maneira como essas ondas se propagam, o fluxo pode começar a oscilar de forma organizada.
Em determinadas condições, a ondulação fecha uma volta ao redor do planeta formando um número específico de vértices.
No polo norte, o resultado seria uma onda com seis repetições: o hexágono. No sul, as condições atuais teriam favorecido uma onda de número dez: o decágono.
Os modelos apresentados pelos pesquisadores indicam ainda que uma perturbação no próprio jato ou a presença de um vórtice anticiclônico escuro nas proximidades pode ter ajudado a iniciar o fenômeno.
Isso ainda é hipótese. O ponto mais importante é justamente que os cientistas agora possuem a chance rara de observar uma dessas formas enquanto ela aparentemente está se desenvolvendo.
O decágono pode ter surgido há poucos anos
Essa talvez seja a diferença mais importante em relação ao hexágono. O desenho do polo norte sobrevive há mais de 40 anos de observações. Já o decágono do sul parece estar ficando progressivamente mais definido.
Segundo a equipe do programa OPAL, do Hubble, os registros de 2023 mostram a estrutura de maneira mais sutil. Nos anos seguintes, seus lados e vértices ficaram mais evidentes.
Não é possível cravar exatamente quando ela nasceu porque o polo sul passou vários anos em uma posição desfavorável para observações terrestres devido à inclinação de Saturno e à sua longa órbita ao redor do Sol.
Quando a região voltou a ficar melhor posicionada, o decágono estava lá. Isso deixa duas possibilidades particularmente interessantes: a estrutura pode ter surgido durante o período em que não conseguíamos observá-la adequadamente ou pode representar uma condição atmosférica sazonal que ainda está se fortalecendo.
O mistério agora pode ajudar a explicar o próprio hexágono
Durante décadas, estudar o hexágono de Saturno tinha uma dificuldade básica: só existia um exemplo conhecido. Com duas estruturas poligonais gigantes no mesmo planeta, os pesquisadores passam a ter um laboratório natural muito mais interessante.
Agora é possível comparar por que um polo produziu seis lados e o outro dez; por que uma estrutura permanece quase parada enquanto a outra migra; e por que uma resistiu por décadas enquanto a segunda talvez esteja apenas começando sua vida.
O Hubble continuará acompanhando Saturno, e observações futuras também devem envolver o Telescópio Espacial James Webb e modelos atmosféricos mais sofisticados.
Os astrônomos querem descobrir até que profundidade a onda se estende, se ela está ligada às estações de Saturno e, principalmente, se o decágono vai estabilizar como seu irmão do norte ou simplesmente desaparecer.
Saturno, portanto, não ganhou uma misteriosa construção alienígena de dez lados. O que ele revelou pode ser ainda mais estranho: uma atmosfera capaz de organizar ventos e nuvens em figuras geométricas maiores que planetas inteiros.
Para acompanhar outros fenômenos astronômicos, o Overdrive também explicou como aconteceu o eclipse lunar quase total visível no Brasil, detalhou o eclipse solar total de 2027 e mostrou qual é a chance real de o asteroide Bennu atingir a Terra.
Fontes: NASA/Hubble, Science Advances, ESA/Hubble
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