Hubble encontrou uma figura perfeita em Saturno que não estava lá há poucos anos

Estrutura apareceu no polo sul, ganhou definição nos últimos anos e pode ajudar cientistas a finalmente entender por que a atmosfera de Saturno cria formas geométricas

Saturno ao lado de uma visão ampliada de seu polo sul, onde cientistas identificaram uma estrutura atmosférica em forma de decágono.
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Saturno já tinha uma das formações mais estranhas conhecidas no Sistema Solar: um enorme hexágono de nuvens girando ao redor de seu polo norte. Agora, o planeta decidiu tornar o mistério ainda maior.

Observações do Telescópio Espacial Hubble revelaram uma segunda figura geométrica gigantesca na atmosfera do planeta. Desta vez, no polo sul e com dez lados.

O novo decágono é tão grande que o comprimento associado a cada um de seus segmentos chega a aproximadamente 16,8 mil quilômetros. Para colocar isso em perspectiva, o diâmetro da Terra é de cerca de 12,7 mil quilômetros.

E o tamanho nem é a parte mais intrigante. Ao contrário do hexágono do norte, observado há mais de quatro décadas, o decágono parece ter surgido recentemente — e os astrônomos podem estar acompanhando praticamente em tempo real a formação de uma estrutura atmosférica desse tipo.

Saturno e seu polo sul vistos pelo Hubble, onde foi identificado um decágono atmosférico
Hubble revelou uma estrutura de dez lados ao redor do polo sul de Saturno. Imagem: NASA, ESA, STScI, A. Sánchez-Lavega, A. Simon e M. Wong; processamento de A. Pagan/STScI.

Saturno agora tem um hexágono e um decágono

O polo norte de Saturno é famoso por abrigar uma enorme corrente de jato com formato hexagonal. A estrutura foi percebida inicialmente pelas sondas Voyager no começo da década de 1980 e continuou aparecendo nas observações posteriores da missão Cassini.

Durante décadas, porém, havia um problema: ninguém conseguia encontrar algo equivalente no hemisfério sul.

Pesquisadores procuravam esse possível “irmão” do hexágono desde pelo menos 1990. A própria Cassini, que orbitou Saturno entre 2004 e 2017, não encontrou evidências de uma estrutura poligonal persistente no polo sul.

Isso mudou quando as estações de Saturno voltaram a favorecer a observação da região a partir da Terra.

Imagens feitas por observadores em solo começaram a mostrar uma ondulação suspeita. Os pesquisadores então voltaram ao arquivo do Hubble e descobriram que sinais mais discretos do desenho já estavam presentes em imagens feitas em 2023.

Em 2024, o formato ficou mais perceptível. Em 2025, os dez vértices estavam muito mais definidos.

O resultado foi publicado em setembro de 2026 na revista Science Advances.

Cada lado da estrutura é maior que o diâmetro da Terra

A escala do fenômeno ajuda a perceber que não estamos falando de uma pequena tempestade desenhando linhas entre as nuvens.

A onda atmosférica tem comprimento zonal médio de aproximadamente 16.782 quilômetros entre suas repetições. Em uma comparação simplificada com o desenho observado, isso coloca cada segmento da estrutura em uma escala superior ao diâmetro inteiro da Terra.

CaracterísticaHexágono do norteDecágono do sul
Número de lados610
RegiãoPolo nortePolo sul
Primeiras evidênciasDécada de 19802023
ComportamentoMuito estávelAparentemente ainda evoluindo
Movimento longitudinalQuase estacionárioCerca de 2,5 m/s para leste

Há outro contraste curioso. O decágono se desloca para leste a aproximadamente 2,5 metros por segundo, algo próximo de 9 km/h.

O jato atmosférico associado à região, entretanto, alcança cerca de 116 metros por segundo — mais de 400 km/h.

Ou seja: os ventos correm violentamente pela atmosfera enquanto o enorme desenho geométrico avança de forma comparativamente lenta.

Imagem em filtro único do Hubble mostra os dez lados do decágono no polo sul de Saturno
Um filtro específico do Hubble deixa mais evidente o contorno de dez lados. O “X” central indica uma pequena região sem dados na observação. Imagem: NASA, ESA, STScI, A. Sánchez-Lavega, A. Simon e M. Wong; processamento de A. Pagan/STScI.

Mas Saturno não tem uma parede em forma de decágono

A imagem pode dar a impressão de que existe uma enorme estrutura física escondida no planeta. Não é isso.

Saturno é um gigante gasoso e não possui uma superfície sólida equivalente ao chão da Terra. Conforme alguém hipoteticamente descesse por sua atmosfera, encontraria gases cada vez mais densos e pressões cada vez maiores.

O decágono é, portanto, uma onda atmosférica gigantesca associada às correntes de jato.

Observações do Hubble em diferentes comprimentos de onda também enxergam o padrão em diferentes altitudes. Isso indica que ele não é apenas um desenho superficial produzido por algumas nuvens específicas, mas uma estrutura que atravessa diversas camadas da atmosfera.

Quem gosta desse tipo de comparação entre aquilo que vemos e a forma física real de um planeta pode conferir também a explicação do Overdrive sobre por que a Terra não é uma esfera perfeita e como funciona o geoide usado pela NASA.

Como uma atmosfera consegue desenhar dez lados quase retos?

Uma das principais hipóteses é que correntes de jato extremamente rápidas funcionem como limites capazes de aprisionar grandes ondas atmosféricas. Dependendo da velocidade dos ventos, da rotação do planeta e da maneira como essas ondas se propagam, o fluxo pode começar a oscilar de forma organizada.

Em determinadas condições, a ondulação fecha uma volta ao redor do planeta formando um número específico de vértices.

No polo norte, o resultado seria uma onda com seis repetições: o hexágono. No sul, as condições atuais teriam favorecido uma onda de número dez: o decágono.

Os modelos apresentados pelos pesquisadores indicam ainda que uma perturbação no próprio jato ou a presença de um vórtice anticiclônico escuro nas proximidades pode ter ajudado a iniciar o fenômeno.

Isso ainda é hipótese. O ponto mais importante é justamente que os cientistas agora possuem a chance rara de observar uma dessas formas enquanto ela aparentemente está se desenvolvendo.

O decágono pode ter surgido há poucos anos

Essa talvez seja a diferença mais importante em relação ao hexágono. O desenho do polo norte sobrevive há mais de 40 anos de observações. Já o decágono do sul parece estar ficando progressivamente mais definido.

Segundo a equipe do programa OPAL, do Hubble, os registros de 2023 mostram a estrutura de maneira mais sutil. Nos anos seguintes, seus lados e vértices ficaram mais evidentes.

Não é possível cravar exatamente quando ela nasceu porque o polo sul passou vários anos em uma posição desfavorável para observações terrestres devido à inclinação de Saturno e à sua longa órbita ao redor do Sol.

Quando a região voltou a ficar melhor posicionada, o decágono estava lá. Isso deixa duas possibilidades particularmente interessantes: a estrutura pode ter surgido durante o período em que não conseguíamos observá-la adequadamente ou pode representar uma condição atmosférica sazonal que ainda está se fortalecendo.

O mistério agora pode ajudar a explicar o próprio hexágono

Durante décadas, estudar o hexágono de Saturno tinha uma dificuldade básica: só existia um exemplo conhecido. Com duas estruturas poligonais gigantes no mesmo planeta, os pesquisadores passam a ter um laboratório natural muito mais interessante.

Agora é possível comparar por que um polo produziu seis lados e o outro dez; por que uma estrutura permanece quase parada enquanto a outra migra; e por que uma resistiu por décadas enquanto a segunda talvez esteja apenas começando sua vida.

O Hubble continuará acompanhando Saturno, e observações futuras também devem envolver o Telescópio Espacial James Webb e modelos atmosféricos mais sofisticados.

Os astrônomos querem descobrir até que profundidade a onda se estende, se ela está ligada às estações de Saturno e, principalmente, se o decágono vai estabilizar como seu irmão do norte ou simplesmente desaparecer.

Saturno, portanto, não ganhou uma misteriosa construção alienígena de dez lados. O que ele revelou pode ser ainda mais estranho: uma atmosfera capaz de organizar ventos e nuvens em figuras geométricas maiores que planetas inteiros.

Para acompanhar outros fenômenos astronômicos, o Overdrive também explicou como aconteceu o eclipse lunar quase total visível no Brasil, detalhou o eclipse solar total de 2027 e mostrou qual é a chance real de o asteroide Bennu atingir a Terra.

Fontes: NASA/Hubble, Science Advances, ESA/Hubble

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