Death Stranding 2: On the Beach é imperfeito, porém... | Game Overdrive
Death Stranding 2: On the Beach é imperfeito, porém inesquecível
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Death Stranding 2: On the Beach é imperfeito, porém inesquecível

“Mesmo que você não perceba, alguém está conectado a você, cuidando de você.” A frase do diretor Hideo Kojima sintetiza bem o espírito de...

Por Guilherme Fernandes há 7 meses Jogado em PlayStation 5
Nota
90

Vale a pena jogar?

Death Stranding 2: On the Beach vale a pena para quem busca uma experiência marcante, autoral e emocional, com visual impressionante, trilha sonora de alto nível e uma narrativa que cresce muito ao longo da jornada. Mesmo com início mais lento, algumas repetições e escolhas que reduzem parte do impacto, o jogo entrega uma aventura única e profundamente humana, capaz de ficar na cabeça muito depois dos créditos.

“Mesmo que você não perceba, alguém está conectado a você, cuidando de você.” A frase do diretor Hideo Kojima sintetiza bem o espírito de Death Stranding 2: On the Beach. O jogo é, ao mesmo tempo, imperfeito e esplêndido, frustrante e emocionante, mas sempre envolvente.

Na sequência de um dos títulos mais divisivos da última década, a Kojima Productions aprofunda temas como isolamento, reconexão e luto, agora com mais ferramentas, biomas variados e uma narrativa ainda mais ousada. Apesar das controvérsias, o game se destaca como uma das experiências mais singulares desta geração.

Como Death Stranding 2 se expande

Death Stranding 2 traz de volta Sam Porter Bridges, agora vivendo dias mais tranquilos no México ao lado de sua filha adotiva, Lou, pouco tempo depois dos eventos do primeiro jogo. Só que, mais uma vez, cabe a Sam a missão de reconectar pessoas. A força motriz continua parecida, mas a jornada muda de tom.

Desta vez, a história é mais pessoal, mais pesada e mais sombria. A travessia de Sam é marcada por simbolismos, metáforas e momentos de forte carga emocional, em que ele precisa encarar traumas, culpa e perda. A diferença é que agora ele não carrega esse peso sozinho.

O início de DS2 é lento e, em alguns momentos, até apático, com trechos que soam forçados ou previsíveis. Aos poucos, porém, a trama ganha força e se mostra bastante cativante. Ainda assim, saí um pouco frustrado ao perceber que pontos importantes da narrativa já tinham sido revelados nos trailers, o que reduz parte do impacto. Mesmo assim, o jogo encontra espaço para entregar cenas marcantes e uma reta final grandiosa, daquelas que permanecem na cabeça por muito tempo.

Quando os créditos subiram, fiquei com um calor no peito. Sabe aquele momento em que você termina algo feliz, mas com vontade de chorar um pouco? Foi exatamente assim. Como aconteceu no primeiro jogo, saí com vontade de recomeçar tudo, porque me envolvi profundamente com esses personagens e não queria aceitar que aquela jornada terminava ali.

Personagens são o grande motor emocional

Em Death Stranding 2, a tripulação da DHV Magalhães começa pequena, mas logo cresce com figuras marcantes. Há Tarman, modelado por George Miller e dublado por Marty Rhone, piloto da embarcação e ligado ao alcatrão. Há também Dollman, interpretado por Jonathan Roumie, um homem preso em um boneco que funciona tanto como aliado quanto como ferramenta estratégica. A esse grupo se somam Charlie, o enigmático financiador da expedição, e o Presidente, líder da APAC e responsável pelo sistema APAS 4000, que amplia a rede quiral rumo ao México e à Austrália.

Mas é o núcleo dramático que realmente sustenta o jogo. Se Sam, vivido por Norman Reedus, é a alma de DS2, Fragile, interpretada por Léa Seydoux, é o coração. A relação entre os dois ganha mais profundidade e ajuda a dar peso à jornada. O elenco, assim como no primeiro jogo, é um dos grandes trunfos da experiência: Elle Fanning chama atenção como Tomorrow, Luca Marinelli brilha como Neil, e Troy Baker retorna em grande forma como Higgs, ainda mais carismático e ameaçador.

Em alguns momentos, essa equipe excêntrica remete à sensação de uma party de JRPG, refletindo os temas de conexão, dor e esperança que atravessam toda a narrativa.

Nem tudo funciona com a mesma consistência. O roteiro nem sempre consegue servir bem a todos os personagens ou equilibrar espetáculo e substância. Quando acerta, cria conexões emocionais genuínas. Quando falha, transforma certas figuras em símbolos mais interessantes pela excentricidade do que pelo desenvolvimento dramático. Charlie e o Presidente da APAC são bons exemplos disso.

Jogabilidade traz mais liberdade, mas perde parte do peso

A jogabilidade controversa continua assentada na base do antecessor — caminhar, planejar e entregar —, mas DS2 expande essa fórmula com um arsenal enorme de novas ferramentas.

Em vários momentos, me senti mais perto de Metal Gear do que do próprio Death Stranding original. Em outros, o jogo até me lembrou Just Cause, tamanha a liberdade que a progressão oferece. Quando você desbloqueia boa parte dos equipamentos, a experiência passa a flertar com um sandbox.

A meu ver, essa foi uma decisão delicada. Ao oferecer mais acessibilidade e liberdade ao jogador, Death Stranding 2 mexe em parte do que tornava o primeiro jogo tão especial: o peso da caminhada, o cuidado com a carga e o esforço constante. Em DS1, cada entrega parecia uma pequena epopeia.

Aqui, tudo é mais fluido. Isso pode agradar quem achava o original arrastado, e faz sentido dentro da proposta da sequência. Ainda assim, senti falta daquele peso em alguns momentos. Em compensação, é divertido experimentar tantas possibilidades, ainda que as missões secundárias sigam repetitivas.

Multiplayer assimétrico continua brilhante

Uma das mecânicas mais geniais da franquia, e pessoalmente a minha favorita, segue sendo o multiplayer assimétrico. Em DS2, esse elemento está ainda mais refinado. Mesmo sozinho, você se beneficia de estruturas deixadas por outros jogadores, o que reforça uma das mensagens centrais do jogo.

Há uma crítica clara ao mito do self-made man. O jogo mostra que existe força em aceitar ajuda e que, muitas vezes, é justamente a ajuda de alguém desconhecido que salva a sua jornada.

Aspectos técnicos colocam o jogo entre os mais bonitos da geração

Joguei no PlayStation 5 Slim, que oferece dois modos: desempenho (60 fps estáveis) e qualidade (30 fps com maior resolução). No geral, o jogo é muito polido e raramente apresenta problemas relevantes.

Os visuais são sustentados pela Decima Engine, da Guerrilla Games, e estão entre os mais impressionantes desta geração. A Kojima Productions equilibra fidelidade gráfica e desempenho com consistência. É o tipo de jogo que faz você parar só para admirar o cenário.

Os novos ambientes ajudam muito nisso. Os cenários são variados e visualmente marcantes, com vales profundos, rios sinuosos, montanhas escarpadas e crateras gigantes deixadas pelos voidouts. A sensação constante é a de caminhar por um mundo em que passado e futuro colapsaram.

A trilha sonora continua sendo um dos pilares da franquia. Hideo Kojima aposta novamente em uma curadoria sensível, combinando músicas licenciadas com composições marcantes.

Em DS2, retornam nomes como CHVRCHES e Low Roar, banda liderada por Ryan Karazija. Mas quem mais se destaca é WOODKID, que entrega um trabalho quase inteiro dedicado ao jogo e participa diretamente da trilha cinematográfica.

O resultado é grandioso, melancólico e muito marcante. Algumas cenas ganham impacto justamente pela forma como música e imagem se encontram.

Vale a pena jogar Death Stranding 2?

Death Stranding 2: On the Beach é um jogo profundamente humano. Sua força não está apenas na jogabilidade ou nos visuais, mas na forma como aborda dor, luto e reconexão.

A mensagem é clara: viver é carregar um peso, mas aceitar ajuda faz parte do caminho.

Foram mais de 80 horas de gameplay, entre construções, exploração e momentos inesperados. Nem todo jogo precisa entreter o tempo todo. Alguns preferem provocar, tocar e permanecer com você depois que termina. Death Stranding 2 é, sem dúvida, um desses casos.

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