Glória Menezes morreu na terça-feira, 18 de agosto de 2026, aos 91 anos, em seu apartamento no Rio de Janeiro. Segundo a assessoria da atriz, a morte ocorreu por causas naturais. A carreira de Glória Menezes atravessou quase seis décadas e se confundiu com a própria formação da televisão brasileira.
Ela começou quando as novelas ainda eram transmitidas ao vivo, protagonizou a primeira produção diária do gênero no país e integrou o elenco de um dos filmes brasileiros mais importantes da história. Depois, recusou ficar presa à imagem da mocinha e encontrou espaço na comédia, em personagens populares e até em uma vilã inesquecível.
Ao longo de mais de 40 novelas apenas na Globo, Glória esteve em produções como Sangue e Areia, Irmãos Coragem, Pai Herói, Guerra dos Sexos, Rainha da Sucata, Senhora do Destino e A Favorita. Fora das telas, viveu uma união de 59 anos com Tarcísio Meira, seu parceiro em casa, no palco e diante das câmeras.
A carreira de Glória Menezes começou quando a televisão ainda era ao vivo
Glória Menezes nasceu Nilcedes Soares de Magalhães em 19 de outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Aos seis anos, mudou-se com a família para São Paulo, cidade onde começaria sua formação artística.
A atriz estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e participou da criação do grupo amador Jovens Independentes. Em 1959, recebeu um prêmio de atriz revelação em um festival promovido pelo diretor Antunes Filho.
A estreia na televisão aconteceu naquele mesmo ano, em Um Lugar ao Sol, produção da TV Tupi. Era uma época na qual a teledramaturgia ainda carregava muito da linguagem do teatro, com transmissões ao vivo, poucas possibilidades de correção e uma rotina completamente diferente das grandes produções que surgiriam nas décadas seguintes.
Nos bastidores da peça As Feiticeiras de Salém, Glória conheceu Tarcísio Meira. O encontro daria início a uma das parcerias pessoais e profissionais mais duradouras da cultura brasileira.
O Pagador de Promessas colocou Glória em um marco do cinema brasileiro
A carreira de Glória Menezes não ficou restrita à televisão. Depois de assistir ao trabalho da atriz no teatro, o diretor Anselmo Duarte a convidou para interpretar Rosa em O Pagador de Promessas.
Filmado no começo dos anos 1960 e lançado em 1962, o longa acompanha Zé do Burro, personagem de Leonardo Villar, em sua tentativa de cumprir uma promessa carregando uma cruz até uma igreja de Salvador. Rosa, mulher do protagonista, vive o desgaste emocional provocado pela jornada e pelo cerco que se forma ao redor do marido.
O filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962. A presença de Glória nesse marco do cinema nacional mostra como sua trajetória se desenvolveu rapidamente. Em apenas alguns anos, ela saiu do teatro amador para uma produção reconhecida internacionalmente.
Embora as novelas tenham ocupado a maior parte de sua carreira, O Pagador de Promessas permaneceu como um dos trabalhos essenciais para compreender sua formação. A atriz também voltou ao cinema em diferentes momentos, mas nenhum outro filme alcançou o peso histórico de sua estreia nas telas.
Glória Menezes ajudou a criar a novela diária no Brasil
Em 1963, Glória Menezes e Tarcísio Meira protagonizaram 2-5499 Ocupado, da TV Excelsior. A produção é considerada a primeira novela diária da televisão brasileira e era transmitida ao vivo.
Glória interpretava Emily, uma presidiária que trabalhava como telefonista dentro da cadeia. Ela conhece Larry, vivido por Tarcísio, quando uma ligação é completada por engano. O romance se desenvolvia principalmente pelo telefone, recurso que dava identidade própria à história.
Hoje, uma novela exibida de segunda a sábado parece parte natural da programação. Naquele período, porém, a produção diária representava uma mudança profunda. Até então, as histórias costumavam ser apresentadas apenas algumas vezes por semana.
A novela colocou Glória no centro de uma transformação que definiria a televisão brasileira nas décadas seguintes. Antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos da Globo, ela já havia ajudado a estabelecer o formato que sustentaria a emissora.
Irmãos Coragem provou que uma protagonista podia ser três
Glória e Tarcísio chegaram à Globo em 1967 para protagonizar Sangue e Areia, adaptação escrita por Janete Clair. A atriz interpretou Doña Sol, enquanto o marido viveu o toureiro Juan Gallardo. O sucesso consolidou o casal como uma das duplas românticas preferidas do público.
O salto seguinte aconteceu em Irmãos Coragem, exibida a partir de 1970. Na novela, Glória vivia uma mulher dividida entre três personalidades: Lara, recatada e frágil; Diana, extrovertida e provocadora; e Márcia, a personalidade mais equilibrada.
A personagem exigia mudanças de voz, postura e expressão. Em uma televisão com menos recursos técnicos, a transformação dependia principalmente da interpretação e da capacidade de fazer o público reconhecer cada personalidade.
Irmãos Coragem também ajudou a levar a novela a um público mais amplo, incluindo espectadores que até então consideravam o gênero excessivamente feminino. A produção misturava romance, disputa por terras, aventura e conflitos familiares.
As novelas mais conhecidas de Glória Menezes
A filmografia de Glória Menezes acompanha diferentes fases da televisão brasileira. Algumas produções foram importantes pelo tamanho da audiência; outras revelaram registros que o público ainda não havia visto na atriz.
| Novela | Ano | Personagem | Por que marcou |
|---|---|---|---|
| Sangue e Areia | 1967 | Doña Sol | Marcou sua estreia na Globo |
| Irmãos Coragem | 1970 | Lara, Diana e Márcia | Exigiu três personalidades distintas |
| O Grito | 1975 | Marta | Trouxe uma personagem mais velha e angustiada |
| Pai Herói | 1979 | Ana Preta | Mudou a imagem de heroína associada à atriz |
| Jogo da Vida | 1981 | Jordana | Abriu espaço para seu talento na comédia |
| Guerra dos Sexos | 1983 | Roberta Leone | Reforçou a parceria com Silvio de Abreu |
| Brega & Chique | 1987 | Rosemere | Misturou humor, romance e crítica social |
| Rainha da Sucata | 1990 | Laurinha Figueiroa | Tornou-se sua vilã mais conhecida |
| O Beijo do Vampiro | 2002 | Zoroastra | Apresentou a atriz a uma geração mais jovem |
| Senhora do Destino | 2004 | Baronesa Laura | Abordou o avanço do Alzheimer |
| A Favorita | 2008 | Irene Fontini | Colocou a atriz no centro de um drama familiar |
| Totalmente Demais | 2015 | Stelinha | Foi seu último papel em uma novela |
A relação completa inclui ainda Rosa Rebelde, O Homem que Deve Morrer, Cavalo de Aço, O Semideus, Espelho Mágico, Corpo a Corpo, Deus nos Acuda, Próxima Vítima, Por Amor, Porto dos Milagres e Cama de Gato.
O Memória Globo mantém o perfil e a relação de trabalhos de Glória Menezes. Para continuar pela história da dramaturgia nacional, o Overdrive também reuniu dez novelas brasileiras completas para assistir no Globoplay.
Ana Preta e Laurinha Figueiroa quebraram a imagem da mocinha
Durante os primeiros anos na Globo, Glória ficou muito associada às protagonistas românticas. A mudança começou a ficar evidente em Pai Herói, novela de Janete Clair exibida em 1979.
Ana Preta era dona do Flor de Lys, uma casa de samba, e vivia um romance com André Cajarana, personagem de Tony Ramos. Popular, divertida e dona da própria vida, ela estava distante das heroínas aristocráticas que haviam marcado o começo da carreira da atriz.
Na década seguinte, Glória mostrou força na comédia. Jordana, de Jogo da Vida, e Roberta Leone, de Guerra dos Sexos, aproveitaram sua precisão para o humor, algo que nem sempre recebia espaço nos melodramas tradicionais.
A transformação mais radical veio com Laurinha Figueiroa, de Rainha da Sucata. A personagem era uma socialite falida, obcecada por Edu, vivido por Tony Ramos, e disposta a manipular todos ao redor para preservar sua posição.
Laurinha tinha elegância, crueldade e um componente trágico que a afastava das vilãs mais caricatas. A personagem tornou-se uma das figuras mais lembradas da novela e provou que Glória podia abandonar definitivamente a segurança da mocinha.
Glória Menezes e Tarcísio Meira construíram uma vida dentro e fora da TV

Glória Menezes e Tarcísio Meira contracenaram pela primeira vez no teleteatro Uma Pires Camargo, da TV Tupi, em 1961. Eles se casaram no ano seguinte e tiveram um filho, o também ator Tarcísio Filho, nascido em 1964.
Glória já havia sido casada com Arnaldo Brito, com quem teve Maria Amélia e João Paulo. A união com Tarcísio durou 59 anos, até a morte do ator, em 12 de agosto de 2021, aos 85 anos, em decorrência da Covid-19.
A imagem pública do casal foi construída por trabalhos como 2-5499 Ocupado, Sangue e Areia, Rosa Rebelde, Irmãos Coragem, Espelho Mágico, Guerra dos Sexos, Páginas da Vida e A Favorita.
Eles também protagonizaram o seriado Tarcísio & Glória, lançado em 1988. Além de atuar, os dois participaram da produção do programa, realizado pela produtora do casal em parceria com a Globo. Glória interpretava a extraterrestre Ava Becker, enquanto Tarcísio vivia o empresário Bruno Lazzarini.
A união não dependia de os dois aparecerem sempre como par romântico. Em Guerra dos Sexos, por exemplo, os personagens contracenavam, mas Roberta terminava a história com Nando, vivido por Mário Gomes.
Fora das câmeras, os dois falavam sobre uma relação sustentada pela amizade, pelo respeito profissional e pela liberdade para criticar o trabalho um do outro. O casamento virou parte da memória afetiva da televisão, mas também funcionou como uma parceria concreta de produção e criação.
Os últimos trabalhos aproximaram Glória de novas gerações
Glória continuou encontrando personagens importantes depois dos 60 anos. Em O Beijo do Vampiro, de 2002, interpretou a excêntrica Zoroastra, proprietária de uma pensão e estudiosa de assuntos sobrenaturais.
Em Senhora do Destino, apareceu como a Baronesa Laura de Bonsucesso. A personagem enfrentava o Alzheimer, em uma participação curta, mas emocionalmente importante para a história de Maria do Carmo, vivida por Susana Vieira.
Já em A Favorita, Glória viveu Irene Fontini, matriarca de uma família marcada por crimes, mentiras e perdas. A personagem começou como uma mulher protegida pelos próprios privilégios, mas precisou enfrentar revelações que desmontavam a imagem que havia construído dos parentes.
Em 2013, a atriz interpretou a versão adulta de Pérola no último capítulo de Joia Rara. Dois anos depois, viveu Stelinha em Totalmente Demais, seu último papel em novelas.
Sua despedida da ficção aconteceu sem uma grande cena planejada como encerramento de carreira. Em 2018, ela ainda apareceu como ela mesma no humorístico Tá no Ar: a TV na TV. Em 2020, depois de 53 anos de ligação com a Globo, Glória e Tarcísio deixaram de ter contratos fixos com a emissora.
O legado de Glória Menezes começa na própria história da televisão
Glória Menezes não entrou em uma indústria pronta. Ela ajudou a construir essa indústria quando os atores ainda precisavam lidar com transmissões ao vivo e quando a novela diária era uma experiência inédita.
Depois, acompanhou a passagem do preto e branco para a televisão em cores, a transformação técnica dos estúdios e o crescimento internacional das novelas brasileiras. Sua carreira também atravessou a mudança das protagonistas, que deixaram de ser apenas figuras idealizadas e ganharam contradições, humor, desejo e capacidade de errar.
Poucos dias antes de sua morte, em 12 de agosto de 2026, Glória recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, colocada ao lado da homenagem dedicada a Tarcísio Meira. Sem condições de comparecer, ela foi representada por Tarcísio Filho.
A coincidência resume parte de sua história. Mesmo quando Glória e Tarcísio apareciam juntos, ela jamais foi apenas metade de um casal famoso. Glória Menezes construiu personagens que ajudaram a televisão brasileira a compreender o que uma protagonista poderia ser.
Quem deseja revisitar outras trajetórias essenciais da televisão também pode conferir a seleção do Overdrive com oito novelas de Laura Cardoso disponíveis no Globoplay.
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