Música chega ao Top 60 da Billboard e vira mistério por possível uso de IA

“Rubberz”, de Fenix Flexin, chegou ao 58º lugar do Hot 100, mas falhas no áudio, apresentações ao vivo e arquivos divulgados pelo artista alimentam acusações de uso de inteligência artificial

Música chega ao Top 60 da Billboard e vira mistério por possível uso de IA
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“Rubberz” foi feita por IA? Ainda não existe uma prova pública e conclusiva, mas a música de Fenix Flexin acumula indícios que levantam dúvidas sobre a participação de inteligência artificial. A faixa chegou ao 58º lugar da Billboard Hot 100 enquanto produtores, críticos e ouvintes analisam possíveis falhas típicas de áudio gerado artificialmente.

O rapper, conhecido por integrar o Shoreline Mafia, nega que a canção tenha sido produzida por IA. Ele chegou a publicar vídeos de uma sessão no Pro Tools para defender a origem humana do trabalho. O material, porém, não encerrou a discussão: produtores afirmam que arquivos separados de voz, bateria e instrumentos também podem ser obtidos a partir de uma música já pronta.

Por que “Rubberz” é acusada de ser feita por IA?

A primeira razão é a mudança radical no estilo de Fenix Flexin. Enquanto o Shoreline Mafia ficou conhecido pelo rap da Costa Oeste dos Estados Unidos, “Rubberz” combina sintetizadores inspirados nos anos 1980, melodias próximas do rock britânico e uma interpretação com sotaque inglês.

Antes mesmo do lançamento, Fenix havia contado que estava experimentando gêneros diferentes e que passou meses praticando o sotaque para a música. A Pitchfork considerou a mistura estranha, mas inicialmente defendeu que justamente essa combinação improvável parecia criativa demais para ter sido gerada por uma máquina.

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Uma análise publicada pelo The Verge apontou vocais de apoio que aparecem e desaparecem repentinamente, reverberações interrompidas e elementos da bateria com uma qualidade comprimida. O compositor Charlie Harding, apresentador do podcast Switched on Pop, comparou partes da produção ao som degradado de um arquivo MP3 de baixa qualidade.

Essas irregularidades podem aparecer em músicas geradas por modelos de inteligência artificial, especialmente quando o sistema tenta criar simultaneamente voz, instrumentos e efeitos. Ainda assim, compressão excessiva, escolhas de mixagem ou filtros também podem provocar resultados semelhantes.

Detectores de IA encontraram alguma coisa?

Cinco ferramentas analisadas pelo The Verge atribuíram apenas entre 20% e 30% de probabilidade de “Rubberz” ter sido criada ou auxiliada por IA. A capa do single e uma publicação comemorando seu desempenho receberam índices muito mais elevados em detectores de imagens, mas esses resultados não provam como a música foi produzida.

Detectores de texto também classificaram a letra como possivelmente artificial. As suspeitas surgiram por causa de rimas muito simples, ideias que não se conectam entre os versos e frases que parecem priorizar palavras com sons semelhantes, em vez de formar uma narrativa.

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Essas ferramentas, porém, não devem ser tratadas como testes definitivos. Uma pesquisa publicada em julho de 2026 mostrou que identificar elementos gerados por IA dentro de uma música que também recebeu edição humana continua sendo uma tarefa difícil, especialmente depois que as faixas de voz e instrumentos são misturadas novamente.

Apresentações ao vivo aumentaram as suspeitas

Vídeos de Fenix Flexin apresentando “Rubberz” também entraram na discussão. Em algumas gravações, o rapper aparece acompanhando a voz original da música e encontra dificuldade para reproduzir o alcance vocal, o ritmo e o sotaque presentes na versão de estúdio.

O artista atribuiu a diferença ao processamento aplicado durante a gravação, incluindo correção de afinação. Produtores que analisaram a faixa argumentam que ferramentas como Auto-Tune podem corrigir notas e criar efeitos robóticos, mas não geram automaticamente um novo alcance vocal ou um sotaque completo.

Uma apresentação ruim também não comprova que a gravação seja artificial. Muitos artistas usam bases vocais, efeitos e camadas pré-gravadas durante shows. No caso de “Rubberz”, contudo, os vídeos se somaram às irregularidades percebidas no áudio e fizeram a explicação de Fenix ser ainda mais questionada.

Produtor afirma ter encontrado a ferramenta utilizada

A acusação mais detalhada partiu do produtor Medasin. Ele afirmou que “Rubberz” teria sido criada com o Treblo, plataforma anteriormente conhecida como Sonauto AI.

Segundo o produtor, um vídeo publicado por Fenix antes do lançamento mostrava uma prévia de música com “Sonauto” no nome do arquivo. A plataforma teria sido rebatizada como Treblo dois dias antes da chegada de “Rubberz”. Medasin também utilizou o serviço para gerar exemplos com construções sonoras e frases parecidas com as da faixa.

Essa demonstração é uma acusação apresentada por Medasin, e não uma comprovação independente de que a versão final de “Rubberz” saiu da plataforma.

O que Fenix Flexin apresentou como defesa?

Fenix publicou vídeos mostrando uma sessão de “Rubberz” no Pro Tools, software profissional utilizado para gravação, edição e mixagem. Nas imagens, era possível ver arquivos separados de voz, baixo, bateria e outros elementos.

O material indicaria que a música passou por um processo convencional de edição. Medasin, entretanto, afirmou que os arquivos poderiam ter sido criados por um separador de faixas, ferramenta capaz de dividir uma gravação pronta em voz e instrumentos. O produtor também alegou que Fenix teria adicionado novas camadas vocais sobre o áudio separado.

Fenix apagou posteriormente a publicação. Até agora, ele não disponibilizou os arquivos originais completos nem as gravações vocais sem processamento, que permitiriam uma análise mais precisa do processo.

O produtor creditado na música, Purps on the Beat, também negou que a faixa seja totalmente gerada por IA. Ao mesmo tempo, ele defendeu que artistas podem utilizar inteligência artificial como mais uma ferramenta de produção e comparou algumas tecnologias de correção vocal a formas de IA. Ele não confirmou o uso de uma plataforma generativa em “Rubberz”.

Afinal, “Rubberz” foi feita por inteligência artificial?

Há sinais que tornam plausível algum tipo de assistência por IA, como os artefatos do áudio, as dificuldades para reproduzir os vocais ao vivo, o suposto arquivo com referência ao Sonauto e as dúvidas sobre os arquivos apresentados pelo rapper.

Por outro lado, nenhum desses elementos demonstra sozinho que a música foi inteiramente criada por uma plataforma generativa. Também existe a possibilidade de uma produção híbrida: uma composição humana com partes geradas, transformadas ou reconstruídas por IA.

Essa distinção é importante. Uma faixa pode usar inteligência artificial apenas para limpar ruídos, separar instrumentos ou corrigir detalhes. Em outro extremo, voz, letra, melodia e instrumental podem nascer de um comando digitado em uma plataforma.

Sem acesso aos arquivos originais, ao histórico de criação e às gravações brutas, “Rubberz” permanece em uma área cinzenta.

Indústria prepara regras para músicas feitas com IA

Em julho, organizações como RIAA e IFPI apresentaram etiquetas diferentes para gravações predominantemente geradas por IA e obras humanas que receberam assistência da tecnologia. O objetivo é permitir que serviços de streaming informem ao público como cada música foi produzida.

A IFPI também anunciou princípios para definir quando músicas desenvolvidas com inteligência artificial podem entrar em rankings oficiais. As faixas precisam ser substancialmente humanas, utilizar serviços autorizados, respeitar direitos autorais e não levantar suspeitas de manipulação de reproduções ou posições.

As medidas não retiram automaticamente “Rubberz” da Billboard Hot 100. Elas mostram, porém, que a origem de uma gravação pode deixar de ser apenas uma questão artística e passar a afetar sua classificação, divulgação e permanência nas paradas.

“Rubberz” já é um marco na discussão sobre IA

Independentemente de sua origem, a faixa expôs um problema que deve se tornar cada vez mais frequente: músicas podem alcançar milhões de ouvintes antes que plataformas, gravadoras e especialistas consigam determinar como elas foram produzidas.

“Rubberz” chegou ao 58º lugar da Billboard Hot 100 e transformou uma discussão técnica em uma questão popular. Caso o envolvimento de uma ferramenta generativa seja confirmado, a música poderá ser lembrada como um dos primeiros grandes hits híbridos ou artificiais a avançar pela principal parada dos Estados Unidos.


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