A ideia de montar um PC gamer aos poucos sempre pareceu simples: comprar uma peça em promoção, guardar na caixa e repetir o processo até completar a máquina. Em 2026, porém, escolher a ordem errada pode custar caro.
O mercado global de computadores encerrou uma sequência de nove trimestres de crescimento. Segundo a IDC, foram enviados 68,2 milhões de PCs no segundo trimestre de 2026, queda de 4,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. A consultoria atribui parte importante da retração à escassez de memória e ao aumento dos custos de produção. Para o ano inteiro, a projeção é de queda de 11,3% nos embarques e alta de 18,3% no preço médio dos computadores.
Isso não significa que todas as peças ficarão exatamente 18,3% mais caras nas lojas brasileiras. A variação depende do componente, do estoque dos varejistas, do câmbio e das promoções. O cenário, no entanto, reduz a probabilidade de quedas generalizadas e torna mais importante aproveitar boas oportunidades sem comprar componentes incompatíveis.
Para quem pretende montar um PC gamer ao longo dos próximos meses, a ordem mais segura é começar pela placa de vídeo quando surgir uma promoção realmente boa, antecipar memória e SSD, escolher a fonte a partir do consumo da GPU e deixar processador, placa-mãe, gabinete e refrigeração para a etapa final.
Por que montar um PC gamer ficou mais caro em 2026?
A principal pressão vem do mercado de memória. A expansão de data centers de inteligência artificial aumentou a procura por DRAM, NAND e soluções de alta largura de banda. Ao mesmo tempo, fabricantes passaram a direcionar uma parcela maior da capacidade produtiva para servidores e produtos com margens mais altas.
Segundo a TrendForce, os preços contratuais da DRAM convencional ainda devem subir entre 13% e 18% no terceiro trimestre de 2026. Para a memória NAND, utilizada principalmente nos SSDs, a previsão é de aumento entre 10% e 15% no mesmo período. A consultoria afirma que a capacidade disponível para componentes de PCs continua limitada pela priorização de aplicações voltadas a servidores.

A pressão também alcança as placas de vídeo. As GPUs atuais dependem de memórias GDDR6 ou GDDR7, cujos preços acompanham o restante do mercado de DRAM. A TrendForce aponta que a oferta de memória gráfica permanece restrita porque fabricantes podem realocar capacidade para produtos mais rentáveis.
O resultado aparece nos computadores prontos. A Counterpoint Research afirma que o aumento dos custos tem levado fabricantes a elevar preços, reduzir configurações de entrada ou concentrar esforços em máquinas premium, nas quais há mais margem para absorver componentes caros.
Qual peça comprar primeiro para montar um PC gamer?
A resposta direta é: a placa de vídeo deve ser a primeira peça definida e, diante de uma promoção verdadeira, pode ser a primeira comprada.
Ela normalmente representa a maior parte do orçamento e determina a resolução, a qualidade gráfica e a taxa de quadros que o computador conseguirá entregar. A escolha da GPU também influencia a potência da fonte, o tamanho do gabinete, a ventilação e até o processador adequado para a configuração.
Entretanto, existe uma diferença entre escolher e comprar. Antes de adquirir qualquer componente, o ideal é planejar a configuração completa em uma planilha ou lista, verificando compatibilidade, dimensões e consumo. Depois disso, as compras podem seguir esta ordem:
| Ordem | Componente | Quando comprar |
|---|---|---|
| 1 | Placa de vídeo | Quando aparecer uma promoção real e for possível testá-la |
| 2 | Memória RAM e SSD | Após definir o padrão da plataforma e a capacidade necessária |
| 3 | Fonte de alimentação | Depois de escolher a GPU e calcular o consumo |
| 4 | Processador e placa-mãe | Preferencialmente juntos, perto da montagem |
| 5 | Gabinete e refrigeração | Após conhecer as dimensões e necessidades das demais peças |
1. Placa de vídeo: compre primeiro, mas apenas em uma promoção real
A placa de vídeo costuma ser o componente que mais afeta o desempenho em jogos. Por isso, economizar R$ 300 ou R$ 500 em uma GPU pode ter impacto maior no orçamento do que encontrar um desconto semelhante em gabinete, cooler ou placa-mãe.
Uma promoção real não deve ser avaliada apenas pelo percentual anunciado pela loja. O preço precisa ser comparado com o histórico recente daquele modelo e com placas que entregam desempenho semelhante. Uma GPU com desconto de 20%, mas ainda mais cara que uma concorrente equivalente, não necessariamente representa uma boa compra.
Também é importante considerar a resolução pretendida. Quem joga em Full HD não precisa comprar uma placa dimensionada para 4K apenas porque ela apareceu em promoção. O dinheiro economizado pode ser aplicado em mais memória, um SSD maior, um monitor melhor ou uma fonte de maior qualidade.

A compra antecipada da GPU, entretanto, só é recomendada quando existe alguma maneira de testá-la. Guardar uma placa de vídeo lacrada durante vários meses pode fazer o consumidor perder o prazo de devolução da loja e descobrir um eventual defeito apenas quando o computador estiver completo.
Quem não tem outro PC compatível pode pedir ajuda a uma assistência técnica ou organizar as compras para adquirir processador, placa-mãe, memória e fonte pouco tempo depois da GPU.
O que verificar antes de comprar a placa de vídeo
Além do desempenho, confira o comprimento e a espessura da placa, a quantidade e o tipo de conectores de energia, a potência recomendada para a fonte e as saídas de vídeo disponíveis.
Modelos de uma mesma GPU podem apresentar tamanhos e sistemas de refrigeração completamente diferentes. Uma versão com três ventoinhas pode não caber em gabinetes compactos, enquanto uma placa muito espessa pode bloquear outros slots de expansão.
2. Memória RAM e SSD: vale antecipar a compra?
Em 2026, memória RAM e SSD estão entre os componentes com maior risco de novas altas. A previsão de crescimento dos preços da DRAM e da NAND torna interessante antecipar a compra, principalmente quando aparecerem kits com bom histórico de preço.

O SSD é o item mais simples de adiantar. Unidades NVMe no formato M.2 são compatíveis com a maioria das placas-mãe modernas, embora seja necessário verificar a geração PCIe suportada e se o modelo utiliza o tamanho físico adequado.
Para um PC gamer novo, 1 TB representa atualmente o ponto de partida mais equilibrado. Jogos de grande porte podem ocupar mais de 100 GB cada, fazendo com que unidades de 500 GB fiquem cheias rapidamente. Quem pretende manter uma biblioteca maior pode considerar diretamente um SSD de 2 TB, desde que o preço por gigabyte seja competitivo.
A memória RAM exige mais cuidado. Antes da compra, é necessário decidir se a plataforma utilizará DDR4 ou DDR5. Os módulos não são intercambiáveis e possuem encaixes diferentes.
Para uma máquina nova de médio ou alto desempenho, um kit de 32 GB em dois módulos oferece margem confortável para jogos, navegador, aplicativos de comunicação e tarefas realizadas simultaneamente. Comprar dois módulos vendidos no mesmo kit também reduz o risco de incompatibilidade entre unidades adquiridas separadamente.

Mesmo que RAM e SSD sejam comprados antes do processador, a plataforma precisa estar definida no planejamento. Não faz sentido aproveitar uma promoção de DDR4 para depois escolher uma placa-mãe exclusivamente DDR5.
3. A fonte deve ser escolhida depois da placa de vídeo
A fonte não deve ser comprada apenas com base no número de watts anunciado. Qualidade interna, proteções elétricas, eficiência, garantia e conectores disponíveis são tão importantes quanto a potência.
Por isso, a escolha deve acontecer depois da definição da placa de vídeo. A GPU normalmente é o componente responsável pelos maiores picos de consumo e determina qual faixa de fonte faz sentido para a configuração.

Uma fonte muito fraca pode provocar desligamentos, instabilidade ou impedir futuras atualizações. Por outro lado, comprar uma unidade de 1.000 W para uma máquina de consumo moderado geralmente representa dinheiro desperdiçado.
Como referência prática, configurações intermediárias frequentemente ficam bem atendidas por fontes de 650 W ou 750 W de boa procedência. Máquinas com placas de vídeo mais exigentes podem precisar de 850 W ou mais. A recomendação oficial do fabricante da GPU e o consumo do conjunto completo devem ser considerados antes da compra.
Também é necessário conferir os conectores. Placas modernas podem utilizar conectores tradicionais de oito pinos ou padrões mais novos. O ideal é dar preferência a uma fonte que ofereça o cabo necessário de forma nativa, evitando adaptadores improvisados.
A fonte é uma das poucas peças que pode atravessar várias atualizações do computador. Economizar escolhendo um modelo desconhecido pode comprometer componentes muito mais caros.
4. Processador e placa-mãe devem ser comprados juntos
Processador e placa-mãe formam o núcleo da plataforma e devem, preferencialmente, ser adquiridos no mesmo período. A decisão envolve soquete, chipset, padrão de memória, recursos disponíveis e possibilidade de atualização futura.
Comprar primeiro uma placa-mãe barata e escolher o processador depois pode limitar a configuração. O modelo pode não suportar adequadamente uma CPU mais exigente, exigir atualização de BIOS ou oferecer poucas conexões para SSDs e periféricos.
O caminho mais seguro é começar pelas necessidades reais. Para jogos, o processador precisa acompanhar a placa de vídeo, mas não deve consumir uma parcela desproporcional do orçamento. Em muitas configurações, trocar parte do investimento da CPU por uma GPU mais forte produz um ganho maior na qualidade gráfica.

Processadores com muitos núcleos fazem mais sentido para quem também trabalha com edição de vídeo, renderização, programação pesada ou outras tarefas paralelas. Para um PC dedicado principalmente a jogos, um modelo intermediário atual costuma ser suficiente quando combinado com uma placa de vídeo compatível com o objetivo da máquina.
A placa-mãe também não aumenta diretamente a taxa de quadros apenas por ser mais cara. Modelos premium podem trazer mais conexões, fases de alimentação reforçadas, Wi-Fi, portas rápidas e suporte a expansão, mas esses recursos precisam ter utilidade concreta.
5. Gabinete e refrigeração devem ficar por último
O gabinete é uma das peças menos expostas à volatilidade do mercado de chips. Além disso, comprá-lo antes das demais escolhas pode gerar problemas de espaço.
Depois de definir placa de vídeo, placa-mãe, fonte e cooler, fica mais fácil conferir:
- comprimento e espessura da GPU;
- altura máxima do cooler do processador;
- tamanho da placa-mãe;
- formato da fonte;
- quantidade de ventoinhas;
- suporte a radiadores;
- espaço para organização dos cabos.
O ideal é procurar um gabinete com frente ventilada e fluxo de ar adequado. Uma caixa fechada, com poucas entradas de ar, pode elevar temperaturas e fazer as ventoinhas trabalharem em rotações maiores, aumentando o ruído.

A refrigeração também deve ser dimensionada de acordo com o processador. Nem toda configuração precisa de water cooler. Um bom cooler a ar pode atender processadores intermediários com menos pontos de falha e manutenção mais simples.
Quanto gastar em cada componente?
Não existe uma divisão universal, mas a placa de vídeo deve receber a maior parcela do orçamento em um computador voltado principalmente para jogos.
Uma referência inicial pode ser:
| Componente | Parcela aproximada do orçamento |
|---|---|
| Placa de vídeo | 35% a 45% |
| Processador | 15% a 20% |
| Placa-mãe | 10% a 15% |
| Memória e SSD | 10% a 15% |
| Fonte | 8% a 12% |
| Gabinete e refrigeração | 8% a 12% |
Esses percentuais são apenas um ponto de partida. Em um PC sem placa de vídeo dedicada, por exemplo, processador, placa-mãe e memória terão participação maior. Uma máquina destinada a trabalho e jogos também pode justificar mais investimento em CPU, RAM e armazenamento.
O principal erro é gastar demais em peças que quase não alteram a experiência e depois economizar justamente na GPU ou na fonte. Uma placa-mãe cheia de recursos inutilizados e um gabinete sofisticado não compensam uma placa de vídeo abaixo do desempenho desejado.
A ordem muda para quem precisa usar o computador imediatamente
Quem já possui um computador funcional pode comprar as peças gradualmente, aguardando promoções. A situação muda quando a pessoa precisa que a nova máquina funcione desde o início.
Nesse caso, pode ser mais interessante começar por uma plataforma com vídeo integrado, acompanhada de placa-mãe, memória, SSD e fonte. O computador ficará utilizável para estudos, trabalho e jogos leves, enquanto a placa de vídeo dedicada é comprada posteriormente.
Essa estratégia reduz a pressão para adquirir uma GPU fora de promoção. Também facilita os testes dos componentes, já que o sistema pode ser montado antes da chegada da placa dedicada.
A desvantagem é que o processador com vídeo integrado precisa ser escolhido com cuidado. Nem todas as CPUs oferecem gráficos integrados, e o desempenho varia bastante entre os modelos.
Vale a pena esperar os preços caírem?
Não há garantia de queda relevante no curto prazo. A IDC afirma que a escassez de memória pode continuar sem alívio significativo antes do fim de 2027. A TrendForce também projeta novas altas para DRAM e NAND durante o terceiro trimestre de 2026.
Isso não significa que o consumidor deva comprar qualquer peça imediatamente. Promoções pontuais continuarão aparecendo porque lojas precisam renovar estoques, fabricantes lançam novos modelos e produtos específicos podem perder demanda.
A estratégia mais segura é acompanhar os preços das peças previamente escolhidas e definir um valor máximo para cada uma. Quando o produto atingir esse patamar, a compra pode ser realizada sem depender de uma queda generalizada do mercado.
O que não comprar com muitos meses de antecedência?
Processador e placa-mãe são os componentes que menos combinam com compras muito espaçadas. Novas gerações podem alterar preços, compatibilidade e custo-benefício em pouco tempo.
A placa de vídeo também não deve permanecer meses sem teste. Além da garantia legal, algumas lojas oferecem períodos próprios para troca ou devolução que são muito menores do que a garantia total do fabricante.
Gabinete, cooler e ventoinhas apresentam risco menor de desvalorização tecnológica, mas podem ocupar espaço e acabar incompatíveis com uma mudança posterior na configuração.
RAM e SSD fazem sentido como compras antecipadas em 2026 por causa da pressão de preço, desde que o padrão, a capacidade e a compatibilidade já estejam definidos.
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