Começo esta análise com uma confissão: Granblue Fantasy: Relink passou batido por mim em 2024. Acompanhei de longe os elogios ao combate e as comparações com Monster Hunter, mas a origem em um jogo de celular japonês e o receio de cair em um universo denso demais me fizeram deixar para depois. Endless Ragnarok acabou sendo o empurrão que faltava.
Com a expansão chegando junto de um pacote completo que inclui o jogo base, decidi encarar a jornada inteira do zero no PS5 para responder à pergunta que muita gente na mesma situação deve estar se fazendo: dá para entrar agora?
Atravessando a campanha original e avançando pelo conteúdo novo, a resposta é sim, e com uma ressalva importante. Este é, sem dúvida alguma, um dos action RPGs mais completos que joguei nesta geração, mas o coração da expansão mora no fim de uma estrada longa, e é bom saber disso antes de embarcar.
Como a expansão melhora a jornada de quem está começando
Esperava que todo o conteúdo de Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok ficasse trancado atrás dos créditos, e não é bem assim. Parte dos personagens novos pode ser recrutada ainda durante a campanha, e o Conflux, o novo modo roguelite, abre suas primeiras portas no meio da história. Na prática, quem começa o jogo hoje recebe uma versão sensivelmente melhor do que a de 2024, com mais opções de equipe e uma alternativa ao grind desde as primeiras dezenas de horas.
A campanha em si me conquistou mais pelo caminho do que pelo destino, e a recepção de 2024 explica bem o motivo. Na época, o jogo que passou de um milhão de cópias vendidas em menos de duas semanas, colecionou o mesmo padrão de avaliação: elogios entusiasmados ao combate e ao visual, ressalvas à história curta e ao grind do pós-jogo.

Jogando agora, assino embaixo dos dois lados. A trama de piratas dos céus cumpre o básico com simpatia, mas o que me prendeu foi o combate: rápido, legível e com uma variedade de personagens que transforma cada troca de protagonista em um pequeno recomeço. Também descobri na pele o que os veteranos já sabiam, que Relink revela sua verdadeira natureza depois dos créditos, quando a estrutura de missões no estilo Monster Hunter assume de vez o controle.
Quem espera um JRPG linear precisa ajustar as expectativas antes da compra.
O verdadeiro Endless Ragnarok só aparece depois de dezenas de horas
Aqui entra a ressalva que mencionei na abertura. O conteúdo principal da expansão exige a conclusão da campanha e de boa parte do pós-jogo, com personagens no nível 100 e equipamento bem trabalhado. Não considero um defeito em si, já que o caminho é divertido, mas é uma informação que muda a decisão de compra de quem tem pouco tempo livre.
Do outro lado da linha espera a dificuldade Caos, e o salto é brutal. Os Ragnalia, como são chamados os inimigos dessa categoria, são versões muito mais agressivas de chefes conhecidos, com golpes inéditos e padrões menos previsíveis. O dragão de gelo das cavernas nevadas (Wilinus Icewyr), que eu havia aprendido a vencer com alguma folga na campanha, me devolveu à tela de game over antes que eu entendesse o que havia me atingido.
Alguns desses inimigos permanecem em fúria a luta inteira, e sem dominar esquivas e guardas perfeitas não há equipamento que salve.

Nem tudo funciona nesse pacote de desafio. Jogando sozinho com aliados controlados pela inteligência artificial, certos chefes viram esponjas de dano e as lutas se arrastam além do necessário. A poluição visual também incomoda: com quatro personagens usando habilidades ao mesmo tempo e o chefe marcando áreas de ataque no chão, houve momentos em que perdi por completo a leitura do combate. As opções para reduzir os efeitos dos aliados ajudam, sem eliminar o problema.
Quando o design de encontros acerta, porém, o resultado impressiona. O caranguejo gigante que precisa ser empurrado para fora de um ringue, como em uma luta de sumô, em vez de ter a barra de vida esvaziada, mostra que a Cygames não se limitou a inflar os números dos chefes antigos.
Os seis novos personagens são o destaque do pacote

Beatrix, Eustace, Gallanza, Maglielle, Fraux e Fediel entram para um elenco que já era enorme, e o nível de capricho chama a atenção. Para um novato, essa fartura tem um efeito curioso: passei boa parte da jornada testando personagem por personagem como quem prova sabores, e cada um deles realmente joga de um jeito próprio.
Eustace entrou na minha equipe assim que ficou disponível e não saiu mais. O que parece um atirador convencional esconde um gerenciamento de munição carregada com profundidade considerável, e o ritmo de disparar, reposicionar e recarregar virou meu jeito favorito de encarar as missões.

Beatrix é o outro destaque, com um relógio que alterna modos de dano, regeneração e defesa no meio da ação. Fraux luta com chutes e trocas de postura que remetem à fluidez de Bayonetta, Maglielle controla lâminas flutuantes com alcance generoso demais para reclamar, Fediel se teleporta pela arena alternando magia e garras, e Gallanza cumpre bem o papel de tanque. Nenhum dos seis dá impressão de enchimento, o que é raro em pacote desse tamanho.
O Conflux é a melhor ideia de todo o conjunto
Se eu tivesse que apontar uma única adição capaz de definir a expansão, seria o Conflux. Trata-se de um modo roguelite exclusivo para um jogador em que você atravessa portais e enfrenta sequências de salas até chegar a um chefe, escolhendo uma entre três auras temporárias a cada vitória.
Para quem está construindo o elenco do zero, como era o meu caso, o modo é uma bênção. Em vez de repetir a mesma missão dezenas de vezes torcendo pela sorte nos drops, reclamação que persegue o jogo desde o lançamento, o Conflux permite escolher a recompensa ao fim de cada ciclo.

Apontar diretamente para o material que falta em uma arma muda por completo a relação com o grind. As salas alternativas de plataforma, perseguição de slimes e testes de observação não me conquistaram por completo, mas variam o ritmo, e as salas de descanso criam a tensão característica dos bons roguelites, a de decidir entre continuar descendo ou sair com o que já foi conquistado.
A ressalva séria fica para a ausência de cooperativo no modo. Em um jogo construído em torno do multiplayer, a decisão não faz sentido.
Invocações mudam o ritmo das batalhas
A outra grande novidade mecânica dá papel ativo à Lyria, personagem central do universo que até então observava as batalhas de fora. Nas missões de dificuldade Caos, um medidor compartilhado enche conforme a equipe executa ataques de vínculo e artes especiais. Com a barra cheia, é possível invocar criaturas e controlá-las diretamente por um tempo limitado.

Cada invocação traz efeitos próprios e bônus passivos para o grupo, integrando o sistema à construção de builds, e a janela de invulnerabilidade durante a invocação vira ferramenta estratégica contra os ataques devastadores que os chefes anunciam com a arena inteira marcada.
Os Primal Bursts completam o conjunto: quando a equipe inteira dispara suas artes especiais em sequência, a Lyria entra em cena com uma finalização de altíssima produção. Com a trilha de Nobuo Uematsu ao fundo, são os momentos mais memoráveis que o jogo entrega.
Master Traits mantêm a progressão viva no endgame
Cheguei ao nível 100 com meus personagens favoritos justamente quando o conteúdo da expansão começou a exigir mais, e foi aí que os Master Traits mostraram a que vieram. A partir do nível máximo, os pontos de maestria passam a alimentar três árvores de especialização por personagem, cada uma orientada a um estilo de jogo.
O protagonista pode se especializar como curandeiro de combate que ganha ataque ao usar magias de cura, ou concentrar tudo no dano das artes. Como a redistribuição de pontos é livre e sem punição, experimentei configurações diferentes até para personagens que mal usei. O conjunto de golpes de cada um permanece o mesmo, então não espere transformações radicais, mas o sistema garante que a sensação de evolução não morra no teto de nível, algo que faz diferença enorme em um jogo desta natureza.

A história tropeça justamente onde o novato mais precisa dela
Se a campanha original me recebeu bem, o mesmo não vale para a trama da expansão. O enredo acompanha o surgimento dos Ragnalia e de portais misteriosos pelo reino dos céus, com Seofon e Tweyen, dois guerreiros lendários conhecidos como Eternos, procurando a tripulação logo no início. A premissa promete, e o pano de fundo revela pedaços interessantes do universo de Granblue Fantasy. A execução fica devendo.
Quase toda a progressão narrativa acontece no balcão de missões: o jogador cumpre um bloco de tarefas, assiste a uma vinheta curta em estilo visual novel e repete o ciclo. Para um recém-chegado, o problema dobra de tamanho, porque essas vinhetas despejam referências e termos de mais de uma década de universo Granblue.

O botão de glossário na tela de diálogo virou meu companheiro constante, e mesmo assim algumas revelações claramente pensadas para emocionar fãs antigos passaram por mim sem peso algum. Quem joga pelo combate dificilmente vai se incomodar. Quem esperava que a expansão mantivesse o nível narrativo da campanha, porém, vai notar a diferença.
Desempenho no PS5 Pro e localização
No PS5 Pro, a experiência foi impecável do início ao fim. A expansão chega com um modo gráfico dedicado ao console, entregando resolução alta e 60 quadros por segundo estáveis mesmo nos combates mais carregados de efeitos. A direção de arte de Hideo Minaba está entre as mais bonitas do gênero, com um acabamento de anime pintado à mão que me fez parar em cutscenes apenas para observar os cenários.

Para quem está chegando agora, os textos em português do Brasil pesam a favor, ainda mais com o volume de termos próprios que o universo carrega. As vozes ficam entre inglês e japonês. O crossplay entre todas as plataformas também estreia junto da expansão, com matchmaking rápido durante os testes, o que garante companhia farta nesse início de vida renovada do jogo.
Vale a pena jogar Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok?

Para quem nunca jogou Relink, o pacote completo com jogo base e expansão se tornou uma das melhores portas de entrada do gênero, e falo por experiência própria. A ressalva é de tempo: o conteúdo que dá nome à expansão está no fim de uma estrada de dezenas de horas, e a estrutura de missões no estilo Monster Hunter precisa combinar com o seu gosto.
Para os veteranos que dominaram o jogo base, a compra é ainda mais óbvia: o pacote atende diretamente os pedidos da comunidade desde 2024. Já quem experimentou Relink na época e não se adaptou ao loop de grind não vai encontrar aqui motivo para voltar, porque a expansão aprofunda essa estrutura em vez de substituí-la.
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