Cinema e TV

The paper: mais Monty Phyton e menos The office

Quando os fãs se reencontram com o universo de The Office através de seu spin-off, The Paper , é possível notar, logo de cara, uma mudança...

Murilo Rodrigues Murilo Rodrigues há 6 meses 5 min de leitura Atualizado em há 3 dias

Quando os fãs se reencontram com o universo de The Office através de seu spin-off, The Paper, é possível notar, logo de cara, uma mudança fundamental no humor. O \”cringe\” constrangedor de Michael Scott deu lugar a um nonsense situacional que remete mais a esquetes de Monty Python. Essa não é uma mudança aleatória, mas é a chave para entender a transição de uma sátira sobre o ambiente de trabalho para uma crítica profunda e melancólica à Indústria Cultural em colapso.

Enquanto a Dunder Mifflin vendia papel para escritórios, uma commodity básica, a nova série The Paper, por sua vez, lida com um produto carregado de significado: o jornal. E é nessa simples mudança que a série constrói sua metáfora mais poderosa. A gráfica não é apenas um local de trabalho disfuncional; é um microcosmo da crise existencial que assola a mídia tradicional.

O que é The Paper? A Conexão com The Office

The Paper é uma nova série ambientada no mesmo universo de The Office, criada por Greg Daniels e Michael Koman. Mantendo o estilo de falso documentário (mockumentary) que consagrou a comédia original, a trama acompanha o Toledo Truth-Teller, um jornal do meio-oeste americano em decadência que tenta se reinventar em meio aos dilemas éticos e às dificuldades financeiras do jornalismo contemporâneo.

A conexão direta com The Office se dá pela presença de Oscar Martinez, vivido novamente por Oscar Nuñez, que retorna como contador do novo jornal. O elenco principal conta com Domhnall Gleeson como o editor-chefe idealista Ned Sampson e Sabrina Impacciatore, que faz de tudo para sabotar a empreitada. 

The Paper se posiciona como uma comédia que revisita a tradição de The Office e direciona seu olhar profundamente adaptado ao cenário atual da imprensa.

The Paper: a metáfora brutal de quando a notícia vira papel higiênico

A premissa mais genial de The Paper é fazer a redação do jornal dividir espaço com uma empresa de papel higiênico. Essa não é uma simples piada de dupla face. É a declaração de princípio da série.

A lógica da Indústria Cultural, como definiram Adorno e Horkheimer, transforma a arte e a informação em mercadorias. O valor de troca suplanta seu valor de uso (informar, formar cidadania).

Ao colocar o jornal e o papel higiênico no mesmo patamar, a série afirma que, para o capitalismo tardio, a notícia tornou-se um produto descartável. Consumimos as informações de forma voraz, depois, a descartamos.

A lógica do capitalismo tardio rebaixa o \’Quarto Poder\’ à condição de um item de uso cotidiano e imediatamente esquecido.

Uma vocação em crise

Diferente de The Office, os funcionários de The Paper não sofrem com um chefe inepto. Ned, o editor, é um idealista. O problema é que seu idealismo é inútil contra as forças do mercado.

O mundo digital tornou os jornais obsoletos, assim como as redações e as diversas funções dentro dela.

A presença onipresente e opressiva do oligarca que detém o jornal – e todos os outros negócios no prédio – é a metáfora perfeita de como interesses escusos corrompem os ideais jornalísticos. O lucro substitui a vocação da busca pela verdade.

The Office também era crítica social

Que não se engane: The Office também era uma crítica social ao mundo do trabalho. Seus funcionários vivam um absurdo kafkiano onde a comédia nascia da indiferença ao próprio desespero.

Do cringe ao nonsense: por que o humor de The paper é diferente?

Por que essa mudança de tom? Porque o mundo mudou. O constrangimento de The Office era filho de uma era de certa estabilidade. O absurdo de The Paper é o reflexo de um presente fragmentado e caótico.

A crise que a série retrata é tão profunda que não pode mais ser capturada pelo realismo cômico. Ela exige o nonsense. A estrutura dos episódios, com esquetes que se derivam umas das outras até se esgotarem, lembra Flying Circus, do Monty Python. A produção lenta e metódica de um jornal é um anacronismo em um mundo de notícias instantâneas. O nonsense da série é, portanto, a forma estética mais honesta para retratar a realidade atual.

Um epitáfio cômico, não fosse trágico!

The Paper vai muito além de uma simples comédia. É um projeto ousado e melancólico: o epitáfio cômico para uma indústria que morreu e não soube enterrar seu cadáver. Através do humor, a série realiza uma crítica afiada à forma como a informação foi esvaziada de significado.

A série nos faz rir não do constrangimento de um colega, mas do abismo existencial de uma era. E, nesse riso, há o reconhecimento de que a metáfora do conglomerado que abriga jornal e papel higiênico sob o mesmo teto é a representação mais precisa do nosso tempo.

Onde assistir?

A primeira temporada de The Paper está sendo exibida pela HBO Max. Os episódios são lançados semanalmente, todas as quintas-feiras, e não no formato de \”maratona\”.

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